Privado de uma firme formação filosófico-teológica, cultor apaixonado de poesia e de música, von Balthasar misturará com incrível superficialidade teologia e literatura e crerá poder «criar» uma teologia «sua» com a mesma inventiva com a qual um artista cria sua obra de arte

O pai da apostasia ecumênica

SÍ SÍ NO NO — Adelante la Fe | Tradução: Airton Vieira — 03/04/17 5:00 — Outro expoente da «nova teologia», exaltado hoje como «pedra angular da Igreja» (J. Meinvielle), é o ex-jesuíta suíço Hans Urs von Balthasar.

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Se Maurice Blondel encarna o tipo do modernista filósofo e apologista, se Henri de Lubac é o tipo do modernista-teólogo, Urs von Balthasar encarna o aspecto pseudomístico e ecumênico do modernismo.

Temos nas mãos Hans von Balthasar – Figura e Opera (ed. Piemme) a cargo de Karl Lehmann e Walter Kasper, membros emergentes da «nouvelle théologie». O livro, «escrito– lemos na contracapa – por seus amigos e discípulos» [Henrici, Haas, Lustiger, Roten, Greiner, Treitler, Löaser, Antonio Sicari, Ildefonso Murillo, Dumont, O’Donnel, Guido Sommavilla, Rino Fisichela, Max Schönborn e… Ratzinger] «pretende fazer redescobrir toda a importância e o valor de sua [de von Balthasar] obra e de sua pessoa». Descubramo-la também nós. É sumamente importante.

«Brilhante, mas vazio»

Foi amante da música desde sua primeira juventude e, igual a Montini, da literatura mais que dos estudos filosóficos e teológicos (ivi, pp. 29 ss.). Só a filosofia «mística» de Plotino teve o poder de «fasciná-lo». Pelo contrário, a filosofia e a teologia escolástica suscitaram sua «raivosa» aversão:

«Todo o estudo durante os anos de formação na Ordem dos jesuítas foi uma luta sem trégua com o desconsolo da teologia, com o que os homens haviam feito da glória da Revelação; não podia suportar esta figura da Palavra de Deus, teria desejado dar golpes a direita e a esquerda com a fúria de um Sansão, teria desejado, com sua força, destruir o templo e sepultar-me a mim mesmo ali debaixo. Mas isto era (se bem a missão se animasse) querer impor meus planos, era um viver a partir de minha infinita indignação porque as coisas estavam assim. Tudo isto eu não o dizia quase a ninguém. Przywara o compreendia tudo, mesmo sem palavras, ademais não havia ninguém que tivesse podido compreendê-lo. Escrevi o “Apokalypse” com a sanha que aspira atirar abaixo um mundo com a violência e reconstruí-lo desde seus fundamentos, custe o que custasse» (ivi, p. 35, citado pela introdução a Erde und Himmel). A «missão» do futuro destruidor se perfilava. No momento, o resultado foi que seus estudos na Companhia de Jesus concluíram «com a dupla licenciatura eclesiástica em filosofia e teologia; Balthasar nunca obteve um doutorado nestas matérias» (ivi, pp. 33-34). Em compensação, sem embargo, o jovem von Balthasar havia aprendido a correr ele também atrás dos sistemas e das tendências inquietas do pensamento moderno, animado nisto pelos «grandes animadores da época de seus estudos» (Figura e Opere, cit., p. 35): Erich Przywara no educandário de Pullach-Munich, que lhe «obrigou» «a confrontar a Agostinho e Tomás com Hegel, com Scheler, com Heidegger» (Urs von Balthasar, Prüfet alles, p. 9), e Henri de Lubac no educandário de Lyon-Fourvière. «Por sorte e para consolo – escreve von Balthasar – Henri de Lubac vivia em casa conosco. Foi ele o que, além do material de estudo escolástico, nos dirigiu aos Padres da Igreja e, com magnanimidade, nos emprestava a todos [Balthasar, Danieleou e Bouillard] seus próprios rascunhos e extratos» (ibidem). Foi assim que von Balthasar, «durante as lições, com os ouvidos tapados com algodões, leu todo Agostinho» e aprendeu dos apontamentos magnanimamente emprestados por de Lubac a contrapor artificiosamente a patrística e a escolástica, cuja linguagem rigorosa não permitia os jogos interpretativos aos quais os «novos teólogos» se entregavam com os textos dos Padres da Igreja (veja-se Figura e Opera, cit., p. 36). Contemporaneamente, von Balthasar tomava conhecimento da poesia francesa: Péguy, Bernanos, Claudel, em cuja tradução trabalhará durante vinte e cinco anos.

Ao término de seus estudos, o que, em palavras de de Lubac, seria «o homem mais douto de nosso século» (outro sistema dos modernistas é criar-se reciprocamente uma aureola de inexistente grandeza: veja-se São Pio X, Pascendi), leva consigo só uma noção, tão vasta como superficial em campos escolhidos por passatempo por ele. O padre Labourdette O. P., com uma «estocada» que deixará sua marca, definirá um dos primeiros artigos de von Balthasar «uma página brilhante, mas vazia» (ivi, pp. 47-48).

Com este «defeito de origem», von Balthasar estava preparado para engrossar o número dos eclesiásticos modernistas «que, fingindo amor pela Igreja, carentes de toda sólida preponderância de saber filosófico e teológico, antes bem, penetrados todos das venenosas doutrinas dos inimigos da Igreja, se fazem, sem nenhum traço de pudor, de reformadores da Igreja mesma» (São Pio X, Pascendi).

Privado de uma firme formação filosófico-teológica, cultor apaixonado de poesia e de música, von Balthasar misturará com incrível superficialidade teologia e literatura e crerá poder «criar» uma teologia «sua» com a mesma inventiva com a qual um artista cria sua obra de arte: «Somente muito mais tarde, – escreve ele –  quando o raio da vocação se encontrava já há anos atrás atrás de mim e terminei os estudos filosóficos em Pullach (acompanhado de longe por Erich Przywara) e os quatro anos de teologia em Lyon (inspirado por Henri de Lubac), com meus condiscípulos Danieleou, Varillon, Bouillard e outros muitos, compreendi que grande ajuda para a concepção de minha teologia devia chegar a ser o conhecimento de Goethe, Hölderlin, Nietzsche, Hofmannstahl e sobretudo dos padres da Igreja, aos quais me havia encaminhado de Lubac. O postulado fundamental de minha obra Glória foi a capacidade de ver uma “Gestalt” [forma complexiva] em sua coerente totalidade: o olhar goethiano devia ser aplicado ao fenômeno [sic!] de Jesus e à convergência das teologias neotestamentárias» (Il nostro compito, Jaca Book, p. 29).

«O conquistador de (mal) convertidos»

Em 26 de julho de 1936, von Balthasar é ordenado sacerdote na igreja de São Miguel de Munique. Em 1939, faz uma vez mais os exercícios espirituais de trinta dias, mas com o padre Steger, que «era, no âmbito alemão, um dos primeiros que entendeu a espiritualidade inaciana não tanto ascética como misticamente» (ivi, p. 37). Esta propensão para a mística, manifestada já em contato com a filosofia de Plotino, se revelará muito mais daninha para von Balthasar «carente de toda sólida preponderância de saber filosófico e teológico».

Imediatamente depois o encontramos como capelão dos estudantes de Basileia, onde cultiva música e poesia (esta vez alemã). Organiza também cursos para os estudantes e chama, entre outros oradores, a Karl Rahner, Congar e de Lubac; ao término daqueles sarais, «se sentava ao piano e – de memória – tocava o Don Giovanni de Mozart» (ivi, pp. 39 ss.).

Em Basileia se encontra com o protestante Karl Barth, que «se converte [após Przywara e de Lubac] no terceiro grande inspirador da teologia de Balthasar».

A teoria da predestinação de Barth – escreve ele – «me atraía poderosa e constantemente» (Unser Auftrag, p. 85), mas o influxo mais decisivo o exerceu o «radical cristocentrismo de Barth» (Figura e Opera, cit., p. 43): daqui a ideia de um ecumenismo que os reúna a todos em torno a um Cristo, separado de sua inseparável Igreja, que é, ao fim das contas, o «solus Christus» de Lutero, ainda que filtrado, como veremos, através de Hegel.

O Vaticano II estava, no entanto, ainda longe e, por isso, «o encontro com os protestantes tinha lugar naqueles anos na Suíça quase inevitavelmente [sic!] sob a perspectiva da conversão» (Henrici S. J., ivi, p. 44).

Foi assim que, em 1940, von Balthasar batizou (com pesar seu?) ao esquerdoso Beguin, que em 1950 sucederá ao filo-comunista Mounier na direção da revista Esprit (e L’Osservatore Romano do 3 de março de 1979, p. 3, escreverá que Beguin e Esprit prepararam o Vaticano II). Feito ainda mais importante, von Balthasar batizou à «convertida» Adrienne von Speyr, médica, casada em segundas núpcias com o prof. Kaegi, «mulher cheia de humor e de espírito, de língua mordaz, bem vista na sociedade» (ivi, p. 45).

Von Balthasar teve rapidamente na Basileia fama de «conquistador de convertidos» (op. cit., p. 44). A nós nos pareceria mais exato dizer de malconvertidos. De Beguin falamos. De von Speyr nos falta falar mais amplamente, dado que, como de Lubac esteve em «simbiose intelectual» com Blondel, von Balthasar esteve em «simbiose teológica e psicológica» com Adrienne von Speyr (op. cit., p. 147).

A união com Adrienne

«Imediatamente depois de sua conversão [de Adrienne], começaram a surgir vozes de milagres, que sucediam manifestamente nos colóquios e visitas a ela, e se murmurava de visões que ela teria tido». São «murmurados» também seus «regulares e longos encontros com seu diretor espiritual [von Balthasar]» (ivi).

Para publicar os escritos «místicos» de Adrienne, von Balthasar funda o editorial «Johannes» e, sempre por Adrienne, dado que os Superiores não viam claramente o «misticismo» de von Speyr, von Balthasar, na véspera da profissão solene, sai da Companhia de Jesus, escolhendo «a obediência imediata» a Deus.

Desde então, von Balthasar trabalhará à sombra de Adrienne, hóspede na casa de seu marido, ocupando-se de literatura, teologia «estética» (e estetizante), ditados «místicos» dela, até que, em 1960, a mobilização neomodernista para o Concílio o empregará na «febril» preparação do Vaticano II: «Radio, televisão: quanta presa e solicitudes para escrever sem fim!» (ivi, p. 59).

«Em Deus não é possível a contradição»

«Este não é o lugar – lemos na p. 51 –  para submeter os carismas de Adrienne a um exame teológico-crítico». E, em troca, teria sido precisamente o lugar e o caso, dado que o mesmo von Balthasar afirma: «Sua obra e a minha não são separáveis nem psicológica nem filologicamente. São as duas metades de um todo que tem no centro uma única fundação» (p. 60, cit. por Recehschaft ou, em italiano, Il filo di Arianna attraverso la mia opera), e inicia «Il nostro compito» (Jaca Book) escrevendo: «Este livro tem sobretudo o fim de impedir que, depois de minha morte, se tente separar minha obra da de Adrienne von Speyr» (p. 13).

Nossos leitores recordarão o clamoroso testemunho dado pelas duas «governantas» italianas de von Speyr; testemunho publicado no verão passado por Avvenire e Il popolo de Pordenone (veja-se sì sì no no, 15 de outubro de 1992, p. 7: Infortuni estivi: H. Urs von Balthasar e Adrienne von Speyr). Aqui, entretanto, prescindiremos deles. É suficiente, em efeito, como tivesse sido suficiente para von Balthasar, aplicar os critérios que a Igreja aplica em casos semelhantes para rejeitar como falso o «misticismo» de Adrienne.

Deixaremos a parte também a rareza dos «carismas» de Adrienne, como os «estigmas» recebidos quando era ainda protestante, a «possibilidade dada a seu confessor [von Balthasar] de “transferir para atrás” a Adrianne a toda época sua para recorrer sua biografia» (Il nostro compito, p. 13, nota 1), a virgindade, dito por ela, recuperada depois de dois matrimônios e coisas pelo estilo. Nos será suficiente, como teria sido suficiente para von Balthasar, aplicar o critério fundamental para julgar toda pretendida «revelação» na Igreja: «É necessário considerar como absolutamente falsas as revelações que se opõem ao dogma ou à moral. Em Deus não é possível a contradição».

À luz deste critério fundamental, examinemos aqui, entre muitos, dois pontos que estão na origem de duas gravíssimas desviações conciliares e pós-conciliares:

1) a «teologia da sexualidade» de Adrianne von Speyr.

2) sua concepção da Igreja, isto é, a «Catholica».

Mas, para Adrienne e von Balthasar, Deus pode contradizer-se

Segundo von Speyr ou segundo von Balthasar (estamos de acordo com von Balthasar em que é impossível separar-lhes), Adrienne teria recebido do Céu a tarefa de «repensar» o «valor positivo da corporeidade [ou seja, da sexualidade] dentro da religião da encarnação» (H. U. von Balthasar, Il nostro compito, p. 25). Salvo que este «valor positivo» é tão «positivo» que anula as… consequências do pecado original e a advertência do Espírito Santo «o que ama o perigo, perecerá nele». «As receitas de manter-se longe, de não ver, enquanto se refere à esfera do corpóreo, estão hoje esgotadas» escreve Adrienne em seu Diário (p. 1703; veja-se Il nostro compito, p. 91). O que está claramente contra o dogma do pecado original e o ensino tradicional da Igreja no campo moral.

Fiel à sua «revolução sensual», Adrienne concebe e expressa sua relação «espiritual» com von Balthasar mediante as categorias mais cruas da sexualidade. Assim, a gênese do instituto secular «Johannes» «é descrita como um período de gestação no que o instituto é a criança, Adrienne sua mãe e Balthasar o pai» (Communio, maio-junho de 1989, p. 91). Eis aqui pois como «Inácio» (que seria Santo Inácio) explica a Adrienne que recebeu os estigmas (sendo protestante) para von Balthasar: «se bem [Adrienne e Balthasar] foram virgens [Adrienne prodigiosa e independentemente do «valor positivo» da sexualidade], esta era uma maneira com que a mulher podia ser marcada pelo homem» (Commnunio, maio-junho de 1989, pp. 91 ss., citado de Erde und Immel, a obra póstuma de Adrienne, II, par. 1645). E para que não existam dúvidas sobre a linguagem atribuída pela «mística» Adrienne a «Inácio» se lê ainda o que segue:

«A fecundidade espiritual do homem será posta na carne da mulher, para que possa chegar a ser frutífera. Neste sentido, a fecundidade de Hans Urs von Balthasar foi posta nos estigmas que Adrienne havia recebido para ele» (ivi, citado também de E. u. I., II, par. 680). E pode ser suficiente para perguntar-se fundadamente se não nos encontramos ante um caso de sensualismo pseudo-místico.

Aqui, porém, nos interessa sobretudo indicar, na «inteligência do valor positivo da corporeidade» por parte de Adrienne, uma das causas, se não a causa determinante da atual exaltação da sexualidade, no auge desgraçadamente também entre os religiosos seguindo o slogan da «integração afetiva».

E von Balthasar? Tampouco admitia que «possa ser diminuído o significado do corpo masculino e feminino (e, portanto, do sujeito humano masculino e feminino) [daqui o «Queridos irmãos e irmãs» e os discursos sobre a «masculinidade» e a «feminilidade» de João Paulo II!] precisamente ali onde se fala de uma séria encarnação do Filho de Deus» (A. Sicari O. C. D., Communio, nov-dic. de 1991, p. 89). E em sua concepção estetizante da teologia, deplorava: «Onde foi parar o eros na teologia e o comentário ao Cantar dos cantares [entendido como poema erótico, naturalmente], que faz parte do centro da teologia?» (Figura e Opera, cit., pp. 58 s.).

Existe, contudo, algo pior. Von Balthasar sabe perfeitamente que a «teologia mística» da visionária não encaixa com a doutrina católica. «Na obra teológica complexiva de Adrienne – escreve – existem algumas partes que, tiradas de contexto, poderiam resultar talvez estranhas [e assim seguem sendo em seu contexto]» (Il nostro compito, p. 14). No Prólogo, além disso, admite claramente que as obras de Adrienne são «à primeira vista assombrosas e quiçá desorientadoras [sic!] para alguns leitores» (ivi, p. 9). Isto, não obstante, em von Balthasar não suscita dúvidas sobre o carisma de Adrienne, senão que, se bem na… doutrina católica! «As coisas – escreve – estão amiúde de maneira que a teologia atual não chega (ou não chega ainda) [sic!] a compreender o que se indica [nas visões e nos ditados de Adrienne]» (ivi, p. 16). O que não pode dizer-se se não admitindo que a doutrina católica possa evoluir em contradição consigo mesma, dado que a «teologia mística» de Adrienne não é obscura ou, melhor, somente obscura, mas é também a antítese da teologia católica.

Desgraçadamente, von Balthasar não só não aplicava (talvez não os possuísse) os critérios teológicos necessários para ver com claridade o «misticismo» de von Speyr, como que compartilhava com Blondel e de Lubac a nova noção vitalista e evolucionista da verdade, pela qual em Deus e, portanto, no desenvolvimento da doutrina católica, «é possível a contradição». Isto aparecerá ainda mais evidente pelo segundo ponto que vamos começar a examinar e que nos permitirá compreender o arroubo de loucura ecumênica que arremeteu a alguns responsáveis da Igreja católica, estendendo-se sem nenhum freio.

A «Catholica» não católica

Adrienne afirma que, para ela, a von Balthasar lhe foi confiada pelo Céu uma «missão eclesial». Urs von Balthasar fala disso em Il nostro compito, p. 61 (Unser Auftrag, p. 78; veja-se também Communio, maio-junho de 1989, p. 102, que dá, entre parêntese, as necessárias explicações do texto). Adrienne, em uma visão «mariana» diz a Deus: «nós [Adrienne e von Balthasar] desejamos ambos amar-te, servir-te e dar-te graças pela “Igreja que nos confias”». No texto, estas palavras estão em francês: «Nous voulons tous deux t’aimer, te servir et te remercier de “l’Eglise que tu nous confies”». «Estas últimas palavras – continua Adrienne – foram improvisadamente pronunciadas e ditadas pela Mãe de Deus, isto é, nós [a Mãe de Deus e Adrienne] as dissemos as duas juntas, e à criança (a nosso [de Adrienne e de von Balthasar], já sabes) me entregou, durante uma fração de segundos, em meus braços, mas não era só a criança, era Una Sancta em miniatura [em miniatura], e assim me parece que exista uma justa unidade de tudo o que nos tem sido assinalado, é trabalho em Deus para a Catholica».

Que é esta outra «criança» de Adrienne e von Balthasar, esta «Igreja» chamada a «Catholica», que Deus lhes teria confiado?

Na introdução à Mística objetiva de Adrienne von Speyr, a cargo de Barbara Albrecht (Jaca Book, p. 72), lemos sobre a «mística» Adrienne esta assombrosa afirmação:

«Ainda que [Adrienne] se separasse clara e decididamente da forma protestante do cristianismo por uma necessidade interior, falta em seu conceito de ‘católico’ qualquer delimitação confessional». Portanto, se a separação do protestantismo em Adrienne foi clara e decidida, todo o contrário que clara e decidida foi sua conversão ao Catolicismo. A menos que não se dê ao termo «católico» um significado absolutamente diferente do usual.

Deve advertir-se incidentalmente que quanto escreve Albrecht corresponde perfeitamente ao testemunho da governanta italiana de von Speyr, que, como boa católica veneziana, afirma decididamente: «Li eu também esta história da “mística”. Mas não gostei de nada; para que escrever tantas estupidezes? A Senhora não era de igreja: sabe que ia a Missa duas vezes ao ano, no Natal e na Páscoa?» (Il Popolo di Pordenone, 16 de agosto de 1992, p. 3, as cursivas aparecem no texto original; veja-se também sì sì no no cit.).

O mesmo conceito de «católico», carente de «qualquer determinação confessional», o encontramos em von Balthasar, o qual afirma ser devedor ele também de von Speyr. Sobre Katolisch (Cattolico, 1975), com efeito, escreve: «a pequena obra é ao mesmo tempo uma homenagem a meus mestres E. Przywara e H. de Lubac como também a Adrienne von Speyr, todos os quais, frente a uma estreita teologia escolástica, me mostraram a dimensão da realidade católica vasta como o mundo» (Il nostro compito, Jaca Book, p. 67). E nesta «catolicidade que nada omite» (ivi, p. 32), tudo encontra seu lugar e sua justificação: a verdadeira e as falsas religiões, a Igreja católica e as seitas heréticas e/ou cismáticas, o sagrado e o profano, a religião e o ateísmo; em resumo: o erro e a verdade, o bem e o mal. Exatamente como na dialética hegeliana.

O iceberg

Aprofundemos o tema: Urs von Balthasar – admite Communio – é exaltado como «teólogo da beleza» e «ao mesmo tempo é criticado por seu estilo hermético e complicado» (maio-junho de 1989, p. 83). Além disso – escreve também Communio – quanto dele é conhecido e se diz «representa – honni soit qui mal y pense — só a ponta do iceberg». Demos uma olhadela, portanto, ao que navega sob a água, isto é, mais além de metáforas, ao que se esconde sob o estilo hermético e complicado, para ver se existe ou não razão para pensar mal.

Aparentemente, os escritos de von Balthasar são abstrusos e herméticos e seu comportamento incompreensível. Por exemplo, trabalha para demolir a teologia católica e a Roma católica, mas critica duramente a Karl Rahner e o «complexo anti-Romano»; quer um ecumenismo o mais latitudinário possível, que abrace também as religiões pagãs e idólatras, mas critica a «tendência à liquidação» dos católicos pós-conciliares. Basta, entretanto, com possuir a adequada chave interpretativa de sua teologia e tudo se faz claro. Esta chave interpretativa é o idealismo em geral e a lógica hegeliana em particular, que – como se sabe – é diametralmente oposta à lógica aristotélica e tomista, como também ao sentido comum.

Enquanto que a lógica aristotélica, em efeito, tem como seu fundamento o princípio de identidade ou de não contradição, segundo o qual os opostos se excluem, a lógica hegeliana está fundada sobre o princípio exatamente contrário: os opostos não só não se excluem, como que são a alma da realidade, sendo momentos necessários, ainda que abstratos, da realidade, a qual é uma «síntese» de opostos na qual ditos opostos (afirmação e negação, «tese» e «antítese») encontram sua superação e sua verdadeira realidade.

Urs von Balthasar aplicou à eclesiologia esta lógica abstrusa e hermética, porque ignora o «terror à contradição» conatural a todo homem de sentido comum, e disso saiu o atual… ecumenismo: as muitas «Igrejas», as várias «religiões», os mesmos «ateísmos» com suas contradições não assustam a von Balthasar nem, a seu juízo, devem assustar a ninguém, porque só são momentos (tese e antítese, afirmações e negações) do processo que conduzirá inevitavelmente, por intrínseca necessidade, à síntese que é a «Catholica» («a catolicidade que nada omite», a universalidade sem exclusões de nenhum tipo), na qual se realizará (finalmente, depois de dois mil anos) a verdadeira Igreja de Cristo.

Uma vez em possessão desta «chave», a teologia de von Balthasar de «hermética» se torna transparente e todos podem ver a enormidade do iceberg que navega sob a água contra a santa Igreja de Deus.

Do «delírio filosófico» ao delírio ecumênico

Do «delírio filosófico» de Hegel (assim o definiu Schopenhauer) não podia senão nascer o atual delírio ecumênico.

Com esta chave interpretativa, com efeito, é possível compreender todos os enigmas de von Balthasar e do atual ecumenismo, do qual é o «mestre» e o «autor». Se compreende, com efeito, por que no diálogo ecumênico «permanece uma só coisa: confiar-se às configurações eclesiais e teológicas e à rivalidade entre elas» (Figura e Opera, cit., p. 417). É o necessário jogo dos opostos que somente conduzirá à síntese: «Se se toma a sério esta indicação [“confiar-se… à rivalidade”] – escreve von Balthasar –, ela exige então muito àqueles que lutam cristãmente pela catolicidade: sobretudo não fixar-se [os católicos não menos que os outros] em nenhum sistema, do qual, a priori, se suponha que seria onicompreensivo; que ofereceria o visual mais amplo, deixaria a suas costas os pontos de vista contrapostos» (ivi, citado de Mesmospruch auf Katolizität, p. 66). Esta onicompreensividade, com efeito, será dada só à «Catholica», que é a síntese, e não aos atuais sistemas (incluído entre eles o «sistema» católico), que são tese e antítese destinadas a superar-se anulando-se na síntese.

Aos «sistemas» atuais se lhes pedem só duas coisas: por uma parte, para favorecer a síntese, a «relaxação e o degelo» de sua própria rigidez em torno a um ponto de vista que exclua os pontos de vista opostos; por outra, a «competição», deixar jogar à «rivalidade» com os demais sistemas, incluídas entre eles as «formas de cristianismo anônimo» (ivi, pp. 69-70). A síntese, com efeito, surge precisamente do jogo dos contrários. Tudo isso é incompreensível para a lógica aristotélico-tomista, que é a lógica do sentido comum, mas não para a lógica hegeliana.

Se compreende então por que o atual ecumenismo (veja-se Assis) põe no mesmo plano e, não obstante, mantêm separadas as várias «religiões» («não queremos sincretismos» e é verdade) e, mesmo promovendo o «diálogo» mais disseminado, quer que os budistas sejam bons budistas, os católicos bons católicos (segundo a «nova teologia», entenda-se), os protestantes bons protestantes e assim sucessivamente: a «competição», o jogo das «rivalidades», das condições e das contraposições é essencial ao processo que conduzirá à super-Igreja ecumênica, a «Catholica», síntese de todas as religiões, somente na qual as contradições e as contraposições serão superadas.

Se compreende perfeitamente também por que von Balthasar teve, como de Lubac, sua «crise» pessoal pós-conciliar, que, entretanto, tampouco foi para ele uma conversão (veja-se Figura e Opera, cit. pp. 434 ss.). Não entrava, com efeito, em sua lógica, tomada emprestada de Hegel, que os católicos liquidassem sic et simpliciter sua identidade: a Catholica é também ela, mais ainda, sobretudo ela «communio [comunhão] entre o que aparentemente parece excluir-se» (Communio, julho-agosto de 1992, H. Urs von Balthasar, Communio: um programma) e, portanto, os contrastes são essenciais à realização de dita «comunhão», exatamente como, na lógica hegeliana, a tese e a antítese são essenciais à realização da síntese, pelo qual se a tese deixa a «competição» e se torna também ela antítese, não se dará nunca a síntese (veja-se Figura e Opera, cit., pp. 417 s.).

Eis aqui por que a Igreja católica não deve «pôr entre parênteses», mas que deve «integrar» (é a «palavra chave» para von Balthasar) não «todo católico» (= a Catholica) o que é julgado atualmente como «extra católico» (ivi, p. 446). Em seu exagerado e majoritariamente mal entendido livro O complexo anti-romano, que leva o subtítulo incrível e significativo (e majoritariamente não apreciado): «Como se pode integrar o Papado na Igreja universal [= Catholica]?», von Balthasar sugere precisamente o modo de integrar «este elemento que aparece molesto não todo católico», que claramente não é a Igreja católica. E eis aqui o modo sugerido: a Igreja deve ser não só petrina, mas também paulina, mariana e joânica (ivi, p. 447). E assim, o primado de jurisdição, definido pelo Vaticano I se desvanece após um vago primado da caridade, inventado por von Balthasar (e por seus «irmãos separados»), pelo qual João Paulo II viaja há anos pelo mundo como São Paulo explicando aos jornalistas que ele recebeu não só o carisma petrino, como também o paulino!

A apostasia

Não obstante, basta conhecer o Catecismo da Igreja católica (não o novo, entenda-se) para compreender que o ecumenismo de von Balthasar é uma verdadeira proposta de apostasia.

Cristoph Schönborn, secretário de redação (o que lê contemple!) do novo «Catecismo», com ocasião do primeiro aniversário da morte de von Balthasar, ilustrou seu ecumenismo na igreja de Santa Maria em Basileia (veja-se Figura e Opera, cit., pp. 431 ss.; Il contributo di Hans Urs von Balthasar all’ecumenismo).

Que é o ecumenismo para von Balthasar? a «integração não todo da Catholica» (ivi, p. 448), a qual Catholica não existe ainda, é por agora «prometida, esperança escatológica». Eis aqui, com efeito, como Schönborn explica o «alcance ecumênico» da «figura» de Maria em von Balthasar: «em Maria aparece a Igreja como a ecclesia sancta et immaculata, na que a figura plena da Igreja, sua catolicidade, é não só promessaesperança escatológica, mas plenitude já realizada». Portanto, contra a Fé constante e infalível da Igreja, reafirmada por Pio XI na Mortalium animos, contra o dogma que todo católico tem o dever de professar («Credo Ecclesiam unam, sancta, catholicam»), a catolicidade da Igreja não é uma realidade realizada há dois mil anos, mas uma realidade que deve ainda realizar-se, uma simples «promessa, esperança escatológica» (que não se vê por que teremos que esperar, dado que, se fosse assim, teriam fracassado todas as promessas de imediata realização feitas por Nosso Senhor Jesus Cristo).

E a atual Igreja católica que é para von Balthasar? um «sistema» entre tantos, uma das muitas «configurações eclesiais», tese ou antítese (segundo refaz ou seja refeita) que será superada e anulada pela «Catholica», igualmente às seitas, às religiões pagãs e idólatras e aos diversos «marxismos».

No Catolicismo, com efeito, não menos que no protestantismo, para von Balthasar, «a negação do outro, a rejeição da comunhão» teria produzido «uma unidade que, no fundo, era somente reunir-se em torno a um ponto de vista rígido» (veja-se Figura e Opera, cit., p. 407).

A Igreja católica é «a realização romana da Catholica» (ivi, p. 405); a Igreja católica, igualmente às seitas heréticas e/ou cismáticas, ao mesmo judaísmo e às demais «formas anônimas de Cristianismo», é «o todo no fragmento», não que o todo é a Catholica e a Igreja católica é um de tantos fragmentos, que inevitavelmente remetem ao todo: «Cada fragmento – escreve von Balthasar – suscita o pensamento do sagrado vaso do qual provinha, cada corpo é lido pelo espírito, a partir da intacta obra inteira» (citado en Figura e Opera, p. 409) e a Igreja católica é um «fragmento», um «corpo» entre tantos outros.

E então aparece claro por que não se ensina já que a Igreja de Cristo «é» a Igreja católica, mas que continua se ensinando com o Vaticano II (veja-se em o novo «Catecismo») que a Igreja de Cristo «subsistit in»«subsiste» na Igreja católica, exatamente como «o todo no fragmento»! Eis aqui por que, no «diálogo ecumênico», o católico, em matéria de fé (estejam atentos) deve aprender não menos dos demais:

«para os católicos é extraordinariamente imperativo escutar atentamente a voz de quem nos sugere e nos remete a algum pedaço que falta [sic!] ou é escassamente valorizado da integridade da fé» (H. Urs von Balthasar, en Kleine Fibel, p. 92, citado en Figura e Opera, p. 444).

Eis aqui por que hoje – como escreve Romano Amerio – «se professa abertamente que a união não se deve fazer por conversões individuais, senão por acordo de grandes coletivos [as várias tese e antítese] como são as Igrejas», e esta união deve fazer-se não já por um retorno dos separados à Igreja católica, mas «por um movimento de todas as confissões para um centro que está fora de cada uma [a síntese em devir]» (R. Amerio, Iota Unum, Ricciardi ed., Roma-Napoli, I ed., p. 473). E aqui, a proposta de apostasia, isto é, de abandono de toda a doutrina da Fé, se faz patente. Onde se encontra a Divina Revelação em sua integridade e pureza senão na Igreja católica? Propor mais ou menos cinicamente aos católicos o êxodo da Igreja católica é propor a apostasia:

«A fé em Jesus Cristo não permanecerá pura e incontaminada mas será sustentada e defendida pela fé na Igreja, coluna e fundamento da verdade (I Tim. III, 15)» (Pio XI, Mitt brennender sorge).

O desprezo do Magistério

Como conclusão, nos interessa sublinhar que von Balthasar, igualmente a Blondel e de Lubac, cultivou «sua» teologia com evidente desprezo do Magistério da Igreja, em particular de São Pio X, que, na Pascendi (1907), condena o ecumenismo, no qual desemboca inevitavelmente o naturalismo dos modernistas, e de Pio XII, que, na Humani Generis, condena tanto o intento de conciliar o idealismo, e, portanto, Hegel, com a teologia católica, como o ecumenismo, no qual todos teriam estado «sim, unificados, mas na ruína comum».

«Aonde vai a nova teologia com os novos mestres em que se inspira? Aonde senão pela via do cepticismo, da fantasia e da heresia?» escrevia em 1946 o padre Garrigou-Lagrange. E os novos «mestres» eram Hegel e Blondel, ao que Fessard (do «bando» de de Lubac), não sem razão, chamava «nosso Hegel» (veja-se A. Russo, H. de Lubac: teologia e dogma nella storia – L’influsso di Blondel). Hoje, no campo ecumênico, mais que na fantasia, estamos no delírio.

Em um dos mais escandalosos documentos «ecumênicos», «Subsídios para uma correta apresentação do judaísmo», a cargo da Comissão para as relações com o judaísmo, presidida pelo card. Willebrands (veja-se sì sì no no de agosto de 1985, pp. 1 ss.), se lê que católicos e judeus tendem, «ainda que partindo de dois pontos de vista distintos [leia-se: opostos], rumo a fins análogos [sic!]: a vinda ou o retorno [é o mesmo!] do Messias». É, exatamente, o pensamento (se assim se lhe pode chamar) de von Balthasar, que, como Hegel, encontra a maneira de conciliar todos os opostos, fazendo violência à realidade dos fatos: «Pedro, o negador, abandona o juízo ao Senhor e se solidariza [sic!] com os judeus [crucificadores de Cristo]… junto a vós judeus, também nós cristãos esperamos a (re-) vinda [sic!] do Messias» (H. U. von Balthasar, Communio: um programma, retomado en Communio, julho-agosto de 1992, p. 57).

Von Balthasar, sem embargo, e seus companheiros da nova teologia, não teriam conseguido impor na Igreja suas nebulosas elucubrações, que não têm de sua parte nem à força da verdade de razão nem à força da verdade revelada, se não houvesse ascendido à cátedra de Pedro J. B. Montini, mal teólogo e filo-modernista, que pôs a serviço da «nouvelle théologie» sua altíssima autoridade, e se seu sucessor não fosse seu continuador e seu eufórico divulgador. Mas disto voltaremos a falar.

(continua)

Hirpinus

Tradução de Airton Vieira

Fonte: https://adelantelafe.com/los-pensam-vencido-5-urs-von-balthasar/

OS QUE PENSAM QUE VENCERAM: 5. Urs von Balthasar

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