Como “Luz do Mundo”, Cristo é o meio iluminador pelo qual chegamos a compreender tudo o que é essencial para nos tornarmos em plenitude o que realmente fomos criados para ser

D.Q. McInerny, Ph.D. (*) — Meménto, Fraternitas Sacerdotalis Sancti Petri, abril de 2017 | Tradução: Sensus Fidei —  Fiat lux. “E disse Deus: Faça-se a luz! E a luz foi feita.” Assim lê-se no terceiro versículo do primeiro capítulo do Livro de Gênesis. De todas as coisas materiais que Deus criou, há algo especialmente maravilhoso sobre a luz. Durante a maior parte de nossas vidas, a luz é algo muito parecido com o ar que respiramos, do qual estamos completamente cercados, imersos e nele plenificados, de uma forma ou de outra. Estamos tão familiarizados com a luz que mal pensamos nisso, mas a nossa dependência dela é total. Em nível mais fundamental, dependemos da luz vivificante do sol para a nossa própria existência física. Menos criticamente, somos dependentes da luz de nossa luminária de mesa, se quisermos estudar com profundidade à noite.

O filósofo e teólogo medieval, Robert Grosseteste (c. 1168-1253), que ensinou na recém-fundada Universidade de Oxford e que eventualmente se tornou bispo de Lincoln, deu muita atenção ao estudo da luz. Em uma de suas obras, denominada simplesmente On Light, ele argumentou que a luz era a forma mais primitiva de matéria. Ele a chamou de “primeira forma corporal” e, em outro lugar, identificou-a como “própria corporeidade”, na qual ele parece sugerir a luz como a essência de todo ser material. Não é sempre fácil compreender o significado de algumas das afirmações que o bispo Grosseteste faz sobre a luz, mas seu objetivo principal é bastante claro: ele quer mostrar que a luz representa um tipo muito básico de realidade material, que é de alguma forma fundamental para todas as outras formas de matéria.

Um dos aspectos da luz que o bispo Grosseteste deu especial ênfase foi à sua natureza difusiva. Toda luz, seja um vaga-lume, uma chama de vela, uma lâmpada, ou o sol, tem uma fonte específica, e a partir dessa fonte espalha-se uniformemente em todas as direções. É como se a luz simplesmente não pudesse conter-se. Podemos imaginá-la como uma irrefreável urgência em expandir-se para a escuridão e afastá-la, transformando-a em luz. Neste particular aspecto da luz, temos uma estreita analogia com o bem, pois, um dos aspectos comumente reconhecidos da bondade é que ela é auto-difusa. Assim como a luz, a bondade é por sua própria natureza expansiva; quer trazer sua bondade a todos os lugares, para dissipar a escuridão do mal.

A luz é uma realidade material; não há contestação a este elementar fato sobre dela. Mas, por mais que o reconheçamos, esgotaremos todo o seu significado? Parece haver, como realidade paralela à luz material, uma luz imaterial ou espiritual. Além disso, sugeriremos que o tipo mais importante de luz é imaterial, ou espiritual, e que a luz material, por sua vez, serve como um sinal ou símbolo da luz imaterial. Abordando de forma diferente, poderíamos dizer que a luz material é a luz exterior, e a luz espiritual é a luz interior.

Há uma forma pela qual usamos frequentemente a palavra “luz”, ou palavras dela derivadas, em linguagem comum, que indica claramente que estamos falando de algo que não é uma realidade material. Nessa forma comum de uso “luz” comumente se refere a conhecimento ou compreensão. Falamos de alguém que “agora vê a luz”, significando que ela veio a entender algo que anteriormente não conseguia entender. Insight, ou visão interior, é dependente da luz interior, assim como a visão física é dependente da luz física. É a luz interior que dá sentido à nossa salvação, “eu vejo” pelo que temos a intenção, “eu compreendo”.

Deus criou a luz física e a luz espiritual, sendo esta última o meio necessário pelo qual viemos a conhecer a verdade e, finalmente, conhecermos Aquele que é a fonte de toda a verdade, Aquele que é Veritas Ipsa, a “Verdade em Si”. Com a Encarnação, quando Deus Filho assumiu a carne humana material, a luz espiritual tornou-se presente para nós de uma forma especialmente imediata e enfática. Dois nomes que tradicionalmente foram atribuídos a Cristo são Sol Justitiæ, “Sol da Justiça”, e Lux Mundi, “Luz do Mundo”. O primeiro nome sugere que, assim como o sol físico é a fonte sustentadora de nossa vida física, Cristo é a fonte sustentadora de nossa vida total, física e espiritual. Como “Luz do Mundo”, Cristo é o meio iluminador pelo qual chegamos a compreender tudo o que é essencial para nos tornarmos em plenitude o que realmente fomos criados para ser.

Um dos grandes momentos dramáticos da Sagrada Liturgia do sábado é quando o sacerdote entra na igreja escura trazendo o círio pascal que ele acendeu alguns minutos antes; como o sacerdote procede no corredor quando entona por três vezes, Lumen Christi!, “Luz de Cristo!” No meu Missal de mão que uso, observo a nota: “O círio pascal iluminado simboliza o próprio Cristo Ressuscitado, Aquele que é a ‘luz do mundo’. (Jo 9: 5) “O brilho superno da luz de Cristo é, como a luz física, difusiva, mas de maneira incomensuravelmente mais significativa; não há nenhum canto do universo que não alcance. Além disso, ao contrário da luz física, que se torna cada vez mais fraca quanto mais distante se espalha de sua fonte, o brilho da luz de Cristo é eternamente constante. Só há uma coisa que pode impedir ou bloquear a luz de Cristo, e essa coisa é a vontade humana. Podemos impedir que essa luz penetre nossas almas, para que então possa sustentar nossas vidas espirituais.

Se, no entanto, felizmente superarmos nossa obstinação opaca, o “Sol da Justiça” dissipará a escuridão que nos impede de compreender. Assim, na Litania do Sagrado Nome, oramos a Ele e invocamos Sua misericórdia como “o Brilho da Luz Eterna”, como “a Luz Verdadeira” e como “a Luz dos Confessores”.

(*) Professor de Filosofia de Our Lady of Guadalupe Seminary

Meménto | Fraternitas Sacerdotalis Sancti Petri, abril de 2017.
North American District Headquarters
www.fssp.com

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