Que voltemos, antes da alegria pascal ao silêncio atento, o que escuta sabendo a quem dar ouvidos. Nada ocioso, nada desocupado ou negligente. O silêncio humilde, submisso, obediente da Virgem

“Ecce ancilla domini: fiat mihi secundum Verbum tuum”
(Lc I, 38)

Airton Vieira (tonvi68@gmail.com) — Geralmente acordo com sussurros ao ouvido. Passo o dia com eles e mesmo na hora da pequena morte diária ainda com eles adormeço. Sei que não sou o único e que quanto mais se reza mais assombração aparece. Bom para os bons. Nos fazem rezar ainda mais. Hoje, contudo, isso repentinamente me trouxe à mente três recordações.

Recordei-me de um filme[1] em que uma pessoa com esquizofrenia via e ouvia o que não existia, mas que estava lá, sussurrando-lhe aos ouvidos.

Recordei-me de uma pintura[2] em que Cristo parece dar ouvidos aos sussurros de Satanás, recebendo deste os conselhos.

Recordei-me de uma fruta mordida, precedida de um sussurro[3].

A primeira recordação tratava de personagens imaginários que o enfermo os julgava reais. Até resignar-se de sua condição, deixando-os a falar com os seus botões. Acabam por calar-se.

A segunda, da representação de um Satanás que realmente aconselhava. Mas o aconselhado atento não era Cristo, era o Anticristo.

E a terceira, da história de um Casal e uma Serpente. No meio, a desobediência de não dar ouvidos a estranhos.

Os sábios sempre viram com prudente desconfiança o ócio. Ele abre as portas aos sussurros, às baforadas de espíritos que, via de regra, nos desejam desregrar. Por isso, ócio e desocupação caminham de mãos dadas como gêmeos bivitelinos. Um, ocupando-se de um ouvido, outra, de outro.

O personagem da primeira recordação me ensinou da resignação humilde, como pressuposto à uma sã visão da realidade, coisa a que chamamos senso comum. A falta de senso comum gera fantasia, ilusão, mentira, falsidade e engano. E podem matar. Para isso estão, de um lado as esquerdas, com seus ideólogos de gênero e hereges de todo o gênero que não nos deixam mentir. Entre outros. De outro, um clero que depois de quase dois milênios de silenciosas e gritantes verificações creem ter evoluído ao deixar de crer na transubstanciação do pão e do vinho, da historicidade dos milagres e mesmo da do Homem-Deus. Ao dar-se conta o personagem de que o problema estava com ele, humildemente pode entender que sua verdade era mentira, que seu real ilusão de ótica, e que dando ouvidos a sussurros imaginários, ele e os que amava seriam os maiores prejudicados. Que poderia ele levado pelos delírios eliminar aos seus pensando estar preservando-os, causar-lhes mal crendo estar beneficiando-os. Aos seus e a si. Ao submeter-se, por que isto envolve submissão, aos tratamentos, obteve por fim não só um Nobel, como a salvaguarda da economia familiar.

Os personagens da segunda recordação me ensinaram que o mal nunca anda só, sempre arrasta e quer arrastar. Para isso se traveste, parece, dissimula. Fala semelhante, caminha semelhante, age semelhante, sem ser. Ele é o inimigo camuflado em amigo, o adúltero disfarçado em amante, o inferno dissimulado em prazer e satisfação, gozo e espetáculo. Sou levado a pensar seriamente que o demônio é o mais carente dos seres, do contrário não viveria atrás de ouvidos. Mas sempre sussurrando para não ser ouvido. E quando permitido é atrevido ao ponto de insuflar suas baforadas tão pronto o divino Espírito nos sopre algo bom, belo e verdadeiro, a exemplo de Pedro, de Judas e de quem lhe preste a (in)devida atenção. Daí que se humano fosse, não seria carpinteiro, como Cristo, mas ventríloquo. Ou prestidigitador. Jamais construiria coisas uteis para boas finalidades, mas falaria por boca alheia para confundir e enganar. Quanto estrago não fará quando então sussurrar por boca de suas bestas apocalípticas…

As personagens da terceira recordação, por fim, me ensinaram que o erro e o sofisma sempre precisarão de um disfarce para não dar a entender que estão nus. Uma aparência agradável que esconda o veneno. Não que seja fácil resistir aos seus encantos, como o fez Ulisses[4] e Suzana[5]. Como o fez o próprio Deus em forma de gente. Como ainda o fizeram não poucos santos ao longo dessas quase seis mil eras adâmicas. O sussurrador, encontrando eco nos dois primeiros pares de ouvidos, irá desde então perambular enquanto o mundo for mundo à conquista de títeres que possam fazer soar o seu sussurro, mais bem camuflados quanto maior seja a técnica. E nós, mais preguiçosos, negligentes, ociosos e desocupados, mais mamulengos, desengonçados, ávidos de conversas de botequim, de quintal, de pé-de-porta. Mais curiosos e glutões. Fofoqueiros. Sedentos de sussurros. Sempre carentes de inventar a roda ou descobrir a pólvora. A roda que nos esmaga e a pólvora que nos detona.

Que voltemos, antes da alegria pascal ao silêncio atento, o que escuta sabendo a quem dar ouvidos. Nada ocioso, nada desocupado ou negligente. O silêncio humilde, submisso, obediente da Virgem. Silêncio mestre, sábio, materno. Ela e sua economia do silêncio não brotam de ilusões, não se aconselham de inimigos, não provam do que oferecem os desconhecidos. Ela e sua lucidez. Ela e sua atenção devida a quem de direito. Ela e sua sábia cautela com as desnecessárias matraquices. Ela, por fim, sopro divino, calmo, suave, firme contra sussurros e baforadas da serpente seja nossa guia.

Os efêmeros instantes de alegria, euforia, sucesso, fecham os ouvidos interiores, embotam os olhos do espírito, mas abrem as bocas dos vis para calar a dos justos. Por isso nos diz a Sabedoria: na riqueza, não te olvides da pobreza; na saúde, da doença; na alegria, da tristeza. O Calvário nos prepara a Redenção, por isso diz o Apóstolo que Cristo não pode vir separado da cruz[6]. No deserto houve um grande e maléfico sussurro nos ouvidos de um Deus, que feito homem ensinou-nos a eloquência do silêncio, e pode depois dizer: “Coragem, Eu venci o mundo!”

Mãe do silêncio, rogai por nós.

Na festa da Encarnação de Jesus e Anunciação de Maria do ano da graça de Nosso Senhor Jesus Cristo de 2017.

Airton Vieira

Notas

[1] Uma Mente Brilhante, de Ron Howard.

[2] O Anticristo, de Luca Signorelli.

[3] Gên III.

[4] Odisseia, de Homero.

[5] Dn XIII

[6] Cf. 1 Cor I, 23.

Os sussurros e o silêncio

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