O primeiro passo da «nouvelle théologie» para despedir-se da Tradição dogmática da Igreja é o abandono da filosofia escolástica e este passo, o vimos no número precedente, foi dado por Maurice Blondel. O segundo passo é o abandono da teologia católica tradicional e quem deu este segundo passo foi Henri de Lubac

Propensões «liberais» e deformação teológica

SÍ SÍ NO NO – Adelante la Fe | Tradução: Airton Vieira — Vamos ao jesuíta Henri de Lubac, pai da «nouvelle théologie».

Partiremos de sua formação filosófico-teológica porque ela demonstra o clima de desprezo pela autoridade e as diretrizes da Roma católica no qual amadureceu a crise atual na Igreja.

Contra a agressão dos modernistas, São Pio X havia pedido que fossem afastados dos Seminários e das casas de formação dos religiosos os professores suspeitos e que fossem excluídos das ordenações «aqueles jovens que lancem a mais pequena dúvida de correr atrás de doutrinas condenadas ou danosas novidades» (Motu Proprio, 18 de novembro de 1907).

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Segundo estas diretrizes, o jovem de Lubac não deveria ter sido jamais ordenado. É ele mesmo o que dá fé, em Memoria en torno a mis escritos, (Encuentro, Madrid, 2000), de suas simpatias pelo liberalismo católico, repetidamente condenado pelos Romanos Pontífices, simpatias que o predispunham a «correr atrás de sistemas e de tendências inquietas do pensamento moderno» (P. Parente, A teologia, ed. Studium).

Do card. Couillé, por exemplo, de Lubac escreve: «aureolado por mim desde minha adolescência a causa da lembrança de mons. Dupanloup, de quem havia sido colaborador». Mons. Dupanloup, o «herói», mais ainda, o «santo» do adolescente de Lubac, havia sido expoente de relevo da corrente liberal no Vaticano I e abandonou aquele Concílio antes de sua conclusão para não assistir à proclamação da infalibilidade pontifícia, da que foi opositor. Ao contrário que mons. Lavallée, reitor das faculdades católicas de Lyon, de Lubac escreve: «o que me molestou sempre um pouquinho em minhas relações com ele foi… sua reputação de tradicionalista extremo», ainda que «não era, contudo, “integrista”» (deve advertir-se a gradação) (p. 5). Este horror pelo «integrismo» e os «integristas» não abandonará a de Lubac até o final de seus dias, como veremos.

Contra a agressão dos modernistas, São Pio X e todos os seus sucessores até Pio XII haviam confirmado a obrigação de «seguir religiosamente [sancte] a doutrina, o método e os princípios de Santo Tomás» (São Pio X, Motu Proprio, cit; Pio XII, Humani Generis; veja-se CIC, canon 1366 n. 2). Tampouco desta diretriz romana, sem embargo, nas casas de formação dos Jesuítas frequentadas por de Lubac, se fazia pouco ou nenhum caso. Assim, durante os estudos de filosofia em Jersey (1920-1923), o jovem de Lubac pode ler «com paixão L’Action, la Lettre (sobre apologética) e vários outros estudos de Maurice Blondel. Por uma louvável exceção, alguns mestres nossos de então, cujas proibições eram severas, permitiam, sem animar-nos no entanto, que seguíssemos o pensamento do filósofo de Aix» (Memória, p. 10).

E ainda na p. 192: «Entre os autores de menor tala, nos tornava loucos Lachelier [que se move, como Blondel, no âmbito do kantismo], recomendado pelo padre Auguste Valensin por seu estilo mais ainda que por suas ideias [mesmo quando fosse verdade, com o estilo penetravam também suas ideias]. É necessário recordar que, naquele tempo, no escolasticado de filosofia, semelhantes leituras eram, em sua maioria, um fruto semi-proibido. Graças a mestres e a conselheiros indulgentes não foram por isso jamais leituras clandestinas». E assim, o jovem de Lubac, ao invés de receber uma séria e sã formação filosófica, base indispensável para uma séria e sã formação teológica, se deformou, «graças a mestres e a conselheiros indulgentes», com a leitura apaixonada de filósofos viciados de imanentismo e subjetivismo.

 «Mestres» que nunca foram discípulos

O dano de uma «formação» semelhante é enorme e irreparável:

«Devido a que a doutrina tradicional de Santo Tomás é a mais forte, a mais luminosa e a mais segura em seus princípios – se deve crer nisto à Igreja –, é um dever dotar-se desta força e desta luz para descartar as teorias arriscadas ou falsas. Não se faz amiúde o contrário? Se estuda, custe o que custe, uma filosofia ou uma teologia desvanecida e sem coesão; depois se toma contato com Santo Tomás e com a tradição esporadicamente. Este contato não é uma formação; pior ainda falseia a posta prática da ideia escolástica e tradicional. Se, realmente, Santo Tomás é um guia seguro e fecundo, um incomparável guia, é a ele a quem é necessário recorrer antes de tudo e sobretudo; é sua doutrina puríssima a que é necessário dar na formação teológica; sua leitura, para ser verdadeiramente formadora, não deve acrescentar-se como um estudo secundário e acessório» (Lavaud, na Vie Spirituelle, 1923, pp. 174 ss., citado por J. B. Aubry, L’étude da Tradition, p. 100).

Esta carência de uma sólida formação filosófica e teológica é o «defeito de origem» constatável em todos os «novos teólogos».

Henri Bouillard, veterano do «bando» de de Lubac, com ocasião da inauguração do Centre d’Archives Maurice Blondel (Lovaina, 30-31 de março de 1973) deu o seguinte «testemunho»:

«Fiz parte daqueles jovens estudantes de teologia que, em torno a 1930, se procuravam um exemplar xerocopiado de “L’Action” [a obra principal de Blondel], livro então impossível de encontrar nas livrarias. A obra era suspeita e sua leitura, sem um guia competente, era difícil. Mas, profundamente defraudados pela filosofia escolástica e pela apologética ensinada nos Seminários [mal ou sem convicção por parte de professores fascinados eles também pela «filosofia moderna»] buscávamos uma iniciação entre outras ao pensamento moderno e, mais ainda, o meio, que não encontrávamos em outro lugar, para compreender e justificar nossa fé».

Também como professor, continua Bouillard, «o conjunto de minhas lições se inspirava amplamente no pensamento blondeliano. Outros teólogos [entre os quais seu amigo de Lubac] se haviam comprometido há tempos com este caminho e outros se introduziam por sua vez nele. Devo, portanto, atestar não só que Blondel me ensinou, como também a influência que exerceu em numerosos teólogos e, através deles, na teologia em geral» (Centre d’Archives Maurice Blondel, Journées d’inauguration 30-31 mars 1973. Textes des interventions, p. 41). Com razão, portanto, o padre Garrigou-Lagrange escreverá de de Lubac, de Bouillard e de seus companheiros: «não pensamos que… abandonam a doutrina de Santo Tomás; nunca se aderiram a ela porque nunca a compreenderam bem. E isto é doloroso e inquietante» (La nouvelle théologie où va-t-elle?, em Angelicum, 23, 1946). Como sempre, os «inovadores», por dizê-lo como São Alfonso, «querem ser considerados como mestres quando nunca foram discípulos» (A. M. Tannoia, Vita, L. II, c. LV).

Desprezo de Roma e falsa obediência

Com as «novidades», o jovem de Lubac absorveu inevitavelmente o desprezo das diretrizes «romanas». «Entre os contemporâneos – escreve ele – seguidos na época de minha formação tenho uma dívida particular com Blondel, Marechal, Rousselot» (op. cit.). E, não obstante, nenhum dos três tinha precisamente cheiro de ortodoxia nem no Santo Ofício nem na sede romana da Companhia de Jesus (ivi, pp. 13 ss.). E, do jesuíta Pierre Charles, de Lubac escreve: «seu prestigio havia crescido [sic!] a nossos olhos a causa da semi-desgraça na que havia caído [ante as autoridades romanas], como o padre Huby, depois do caso de “Les yeux da Foi”», obra de Rousselot, que os jesuítas acima citados Charles e Huby tentaram repetidamente publicar contra a oposição de «Roma» (op. cit., p. 14).

Mais tarde, de Lubac aprendeu como se pode praticar uma real desobediência sob a obediência mais formal. O padre Podechard, «o mais submisso dos filhos da Igreja», narra de Lubac, havia apenas concluído um curso sobre o servo de Yahweh na faculdade lionesa de teologia: «disse-lhe que deveria precisamente redigir um livro e publicá-lo. É impossível, me replicou. – E por que? – Estou à base de posições críticas que hoje não são admitidas. Vê, Padre, sobre estas questões bíblicas, a Igreja e eu não nos entendemos precisamente; é necessário, portanto, que um dos dois cale e é normal que seja eu» (p. 17). O que, no entanto, não impedia ao «mais submisso dos filhos da Igreja» falar sem nenhum tipo de reparo, em seus cursos, propondo aos jovens eclesiásticos teses que ele sabia perfeitamente que eram desaprovadas pela Igreja.

De Lubac aprenderá a lição e, a seu tempo, saberá esconder ele também sua real desobediência sob uma submissão formal. Com conhecimento de causa, Pio XII, na Humani Generis, escreverá que os «novos teólogos» ensinavam o erro «de maneira prudente e encoberta»«se bem se fala com prudência nos livros impressos, se expressam mais livremente nos escritos transmitidos privadamente nas lições e nas conferências». O veremos também com von Balthasar. E isto explica como o mundo católico, com o Vaticano II, pode «despertar-se» modernista sem queixar-se em absoluto (cfr. São Jerônimo: «o mundo se despertou ariano e gemeu por isso»).

A «simbiose intelectual» com Blondel

O primeiro passo da «nouvelle théologie» para despedir-se da Tradição dogmática da Igreja é o abandono da filosofia escolástica e este passo, o vimos no número precedente, foi dado por Maurice Blondel. O segundo passo é o abandono da teologia católica tradicional e quem deu este segundo passo foi Henri de Lubac.

O «modernista teólogo» – havia escrito São Pio X – critica «a Igreja porque ela, com suma obstinação, rejeita submeter e acomodar seus dogmas às opiniões da filosofia [moderna]»; por sua parte, «uma vez tirada à lixeira a antiga teologia», se esforça «por pôr em voga outra nova, obediente totalmente aos delírios dos filósofos» (Pascendi). Toda teologia, em efeito, pressupõe uma filosofia e a «nova teologia» de de Lubac pressupõe a «nova filosofia» de Blondel.

Em 8 de abril de 1932, Henri de Lubac S. J. escrevia a Blondel que agora era possível a «elaboração de uma (nova) teologia do sobrenatural» «desde o momento em que sua [de Blondel] obra filosófica lhe havia preparado o caminho» (op. cit., p. 26). Bem mais recente, em março de 1991, L’Osservatore Romano dedicou uma página inteira à apresentação (elogiadora naturalmente) do volume Henri de Lubac: teologia e dogma nela storia / L’influsso di Blondel, ed. Studium, Roma. O autor, A. Russo, discípulo italiano do teutônico Walter Kasper (também ele dos «que creem que venceram»), escreve que a correspondência de Lubac-Blondel «nos dá exemplo de uma simbiose intelectual que raramente se encontra na história do pensamento» (p. 307). É, em realidade, uma história antiga: «ogni simil ao suo simil s’appiglia / tudo o que é semelhante a seu semelhante se agarra». Muitas coisas uniam Blondel e de Lubac: a mesma desconfiança no valor cognoscitivo da razão (anti-intelectualismo, isto é, agnosticismo ou ceticismo), a mesma falta de vigor intelectual (já constatada pelo padre de Tonquedec em Blondel e que não é difícil constatar nos escritos de de Lubac), o mesmo complexo de inferioridade frente ao «homem moderno» (identificado com o filósofo moderno, doente de ceticismo e de subjetivismo), o mesmo temor como intelectuais, escondido sob a ânsia apologética de um «apostolado pacificador» (Blondel), de «pôr-se ou ser posto pela porta» (A. Russo, op. cit.) por uma cultura que rejeita a Cristo e a sua Igreja e o correlativo espelhismo de conciliar a pseudofilosofia moderna com a fé, assim como Santo Tomás havia conciliado com a fé a filosofia de seu tempo. Se lhes escapava a Blondel e a de Lubac que Santo Tomás havia sanado uma filosofia sanável, porque era fundamentalmente sã, mas que nem sequer um pensador do tempo de Santo Tomás (a respeito do qual Blondel é comparável como o rato diante da montanha) poderia sanar os sofismas dos filósofos modernos. Não existe conflito entre a fé e a reta razão (Dz. 1799), mas existe conflito entre fé e filosofia moderna porque esta vaga muito longe da sã razão. Querer reler a fé com as categorias da filosofia moderna é dissolver a fé nos erros da filosofia moderna, sem liberar por isso o «pensamento cristão» (e a si mesmos) do ostracismo, ao que a cultura moderna o tem lançado.

Isto quanto ao erro, que não é suscetível de conversão. Quanto aos que erram, se deve recordar que muito dificilmente se reconduz à verdade a quem, como os filósofos modernos, se equivoca nos princípios (S. Th., II-II, q. 156 a. 3 ad 2) e, em todo caso, quem se equivoca nos princípios deve ser corregido nos princípios. Assumir, em troca, estes princípios errôneos (agnosticismo, subjetivismo, etc.) como ponto de partida para uma «nova filosofia cristã» e, portanto, para uma «nova teologia», conduz inevitavelmente a conclusões errôneas, dado que é impossível tirar conclusões verdadeiras de princípios falsos.

Por isso, a «simbiose intelectual» entre de Lubac e Blondel, que existiu (ainda que não sabemos se não se encontra outra igual na «história do pensamento», como quer Russo), não podia senão conduzir a resultados muito infelizes, e não só para os dois diretos interessados.

O desprezo do Magistério infalível

De Lubac e Blondel estavam de acordo no mesmo desprezo do Magistério infalível. E este desprezo aparece evidente quando se pensa que eles tiveram que sustentar (ou mais exatamente insinuar e difundir mais ou menos clandestinamente, porque não as sustentaram nunca claramente) suas «novidades» não contra uma escola teológica diferente, em matéria opinável, mas contra o Magistério da Igreja, em cuja matéria existia um ensinamento constante e repetidas condenações dos Romanos Pontífices.

Quando Blondel e, pelo caminho de sua «filosofia», de Lubac consideravam o sobrenatural uma exigência, um necessário aperfeiçoamento da natureza, que sem ele se encontraria frustrada em suas aspirações essenciais e, portanto, em um estado anormal e, por conseguinte, negavam que se possa admitir, nem sequer por hipótese, um estado de «natureza pura», se encontravam frente à doutrina universal e constante da Igreja sobre a gratuidade do sobrenatural: se o sobrenatural é necessário para a natureza, já não é gratuito, mas devido e, se é devido à natureza, já não é sobrenatural, mas… natural, e, em efeito, o naturalismo é o fundo real do modernismo, assim como da «nova teologia».

A gratuidade do sobrenatural foi constantemente ensinada pela Igreja e defendida por ela contra os erros de Bayo e de Lutero, que, de modo equivocado, apelavam eles também, como Blondel e de Lubac, a Santo Agostinho. Contra o modernismo, São Pio X havia reafirmado a doutrina perene da Igreja:

«nos vemos obrigados a lamentar-nos gravemente de que não faltam católicos [e aqui o padre de Tonquedec não podia senão pensar em Blondel] que, ainda que rejeitam a doutrina da imanência como doutrina, sem embargo usam dela para a apologética; e o fazem com tão pouca cautela que parecem admitir na natureza humana não só uma capacidade ou uma conveniência para a ordem sobrenatural, coisa que os apologistas católicos, com as devidas restrições, demonstram sempre, senão uma estrita e verdadeira exigência» (Pascendi).

Na natureza humana, portanto, o filósofo, o apologista e o teólogo católicos não podem admitir mais que «uma capacidade ou uma conveniência» (potência obediencial) para receber o sobrenatural. Exceder estes limites é retirar, querendo ou sem querer, uma pedra fundamental da teologia católica com a conseguinte ruína de todo o resto, como vemos hoje, que do «sobrenatural», que já não é tal, de Blondel e de de Lubac, à «mudança antropológica» e aos «cristãos anônimos» de Karl Rahner, ao indiferentismo religioso ou «ecumenismo», à irrelevância da Igreja para a salvação, o passo é verdadeiramente curto (veja-se sì sì no no, 15 de outubro de 1991, pp. 1 ss.).

Pascendi é de 1907. Em 1932, Blondel, com evidente desprezo do Magistério infalível da Igreja, está ainda incubando ou, como ele diz, «madurando» sua concepção heterodoxa do sobrenatural. Por sua vez, de Lubac, exaltado como modelo de «obediência» e de «fidelidade» à Igreja com ocasião de sua morte (veja-se sì sì no no, 15 de outubro de 1991, pp. 1 ss.), com o mesmo desprezo evidente do Magistério, anima-o e faz do sobrenatural naturalizado de Blondel o fundamento de sua «nova teologia».

Do mesmo modo, quando Blondel e de Lubac assomam e difundem uma «nova» noção de «verdade», vitalista e evolucionista, sabem que esta noção foi condenada por São Pio X na Pascendi (Dz 2058 e 2080) e depois pelo Santo Ofício em 1 de dezembro de 1924 (veja-se sì sì no no, 30 de janeiro de 1993), mas prosseguem imperturbáveis em seu errôneo caminho.

Os «reformadores»

Em realidade, o que impressiona em Blondel e em de Lubac é precisamente seu pôr-se a si mesmos como critério indiscutível de verdade contra o secular Magistério da Igreja: sua causa é a causa do «cristianismo autêntico» (Blondel a de Lubac, 15 de abril de 1945 e 16 de março de 1946, em A. Russo, op. cit., pp. 307 e 309); eles são os artífices do retorno à «tradição mais autêntica» (de Lubac, em A. Russo, op. cit., p. 373), quem têm devolvido à vida a «antiga doutrina» (ivi), da qual, para eles, o «pensamento cristão» e, necessariamente, o Magistério da Igreja se haviam desviado durante séculos, o que é «uma coisa absurda e sumamente ultrajante para a mesma Igreja» (Gregório XVI, Mirari vos).

São Pio X, na Pascendi, descreveu perfeitamente a consciência falseada dos modernistas, que lhe tirava toda esperança em seu arrependimento:

«O que se lhes atribui como culpa, eles o consideram como sacrossanto dever… Ainda que lhes reprenda a autoridade, a consciência do dever lhes sustenta […]. E assim continuam seu caminho, continuam ainda que sejam repreendidos e condenados, ocultando uma incrível audácia com o véu de uma aparente humildade. Inclinam aparentemente a cabeça; mas a mão e a mente prosseguem com mais ânimo seu trabalho. E assim, atuam consciente e voluntariamente; tanto porque é regra sua que a autoridade deve ser empurrada, não derrubada, como porque necessitam não sair do círculo da Igreja, para poder mudar pouco a pouco a consciência coletiva» (Pascendi). E ainda:

«Se maravilham estes porque Nós os citamos entre os inimigos da Igreja; mas não poderá surpreender-se ninguém de que, deixadas a parte as intenções das quais só Deus é juiz, se examinem suas doutrinas [é o critério objetivo para julgar] e sua maneira de falar e de atuar. Em verdade, não se afasta da verdade quem os tenha pelos mais daninhos inimigos da Igreja» (ivi).

A arma do desprezo e da difamação

De Lubac, como Blondel (veja-se sì sì no no, 31 de janeiro de 1993), usou sistemas como modernista para não descobrir-se excessivamente com o fim de «não sair do círculo da Igreja para poder mudar pouco a pouco a consciência coletiva» (São Pio X, Pascendi). Apesar disto, os grandes teólogos tomistas viram imediatamente aonde iam parar as «novidades» assomadas por ele cauta e solapadamente. Imediatamente, o futuro card. Journet, firme em sua formação tomista, assinala que «o padre de Lubac não chega jamais a distinguir a filosofia da teologia» (Memória, cit., p. 7), isto é, o natural do sobrenatural, e adverte sucessivamente nele como um «fideísta» (ivi, p. 20).

A de Lubac não lhe foi difícil enganar o «excelente» Charles Journet (ivi, pp. 7 e 20), mas não foi assim com os demais. A suas argumentações oporá a arma do desprezo e da difamação.

Em 1946, o padre Garrigou-Lagrange lança sua grave advertência: «Onde vai a nouvelle théologie? Torna ao modernismo», porque, para Blondel e para os «novos teólogos»«a verdade já não é o que é, mas o que devem e muda continuamente» e isto «conduz ao relativismo mais completo» (A nouuelle théologie…, cit). Ademais, com uma carta pessoal, o grande teólogo dominicano apela a Blondel, já de avançada idade, à sua responsabilidade ante Deus. Em vão. De Lubac «utiliza» as cartas para «desacreditar o autor» (A. Russo, op. cit.; veja-se sì sì no no, cit.) e intervém rapidamente para tranquilizar ao inquieto Blondel: «A carta que [o padre Garrigou-Lagrange] lhe enviou se explica pelo despeito [crê o ladrão que todos são de sua condição!] por ter visto rejeitado um artigo seu pela mesma Revue thomiste! Ele não é só o espírito estreito que conhecíamos: se está convertendo em um autêntico maníaco; desde há alguns meses está fabricando-se um espectro de heresia, para dar-se a satisfação de salvar a ortodoxia. Apela ao sentido comum, mas é precisamente ele o que não o tem. O que se lhe poderia responder é que o fato de pertencer a uma Ordem que tem por lema “Veritas” não lhe confere nenhum carisma de infalibilidade […]. O senhor não é responsável de nenhuma das desviações teológicas que ele imagina.

Neste momento há um forte ataque integrista, denúncias e fofocas de todo tipo confluem na habitação do padre Garrigou-Lagrange…» (cit. por A. Russo, op. cit., pp. 354 s.).

E em 28 de julho de 1948 chegará a falar de «visões simplicistas sobre o absoluto da verdade» no padre Garrigou-Lagrange («ses vues simplicistes sur l’absolu da verité»ivi, p. 356).

Salvo que, em 17 de setembro de 1946, Pio XII, intervindo pessoalmente na questão, havia exposto idênticas «visões simplicistas», que têm sido sempre da Igreja, sobre o absoluto da verdade. Aos Padres da Companhia de Jesus, em uma alocução que causou uma grande agitação, havia expressado seu parecer sobre uma ventilada «nova teologia que se desenvolve junto com o desenvolvimento contínuo de todas as coisas, semper itura, numquam perventura, sempre em caminho [rumo à verdade], sem chegar nunca à meta». «Se uma tal opinião – havia advertido o Santo Padre – devesse ser abraçada, que seria da unidade e estabilidade da fé?» (Acta Apostolicae Sedis, 38, S., 2, 13, 1946, p. 385).

A advertência havia caído no vazio. E no vazio cairá também para de Lubac (entretanto Blondel havia morrido) a Humani Generis (1950), que reafirma a imutabilidade da verdade e condena a «nova teologia do sobrenatural» de de Lubac: «Me parece – escreve este da grande Encíclica –, como muitos outros documentos eclesiásticos, muito unilateral; isso não me maravilha: é um pouco a lei deste gênero. Mas não encontrei nada nele que me impressionasse» (Memória, cit., p 240). E às críticas cerradas e luminosas de seus grandes opositores (Garrigou-Lagrange, Labourdette, Boyer, etc.) continuará respondendo com o desprezo e a difamação:

«Tenho sido atacado, é verdade – escreve a seu provincial em 1 de julho de 1950 – por alguns teólogos (em geral bastante pouco estimados [sic!] a causa de sua notória ignorância [sic!] da tradição católica ou por algum outro motivo)» (Memória, cit., p. 210), e mais adiante fala de «críticas obstinadas» de um «grupinho feroz». (É o sistema usado ainda hoje pelos «que pensam que venceram»: veja-se a tão injuriosa como injusta caricatura que do padre Garrigou-Lagrange oferece em Vaticano II – Balance e Perspectivas o padre Martina S. J., que reserva um trato análogo também para Pio IX).

Idêntico sistema «transversal» usa de Lubac para seus companheiros dos quais se sente defensor: Teilhard de Chardin S. J., o qual faz teologia através da ciência assim como de Lubac faz teologia através da história, é criticado por seus erros teológicos? De Lubac adverte que a culpa é da «ignorância de seus críticos sobre o estado atual da ciência [sic] e dos problemas que se derivam disso»! (pro-memória a seus superiores de 6 de março de 1947, em Memória… cit., p. 178).

A crise pós-conciliar e o «exame de consciência» de de Lubac

Nem as advertências e as condenações dos Romanos Pontífices nem as argumentações de seus grandes adversários rompem sua segurança de «reformador».

Para danificar tanta segurança será necessário o espantoso desastre do pós-concílio.

Do estado de ânimo de de Lubac (e de von Balthasar) se haverá eco – voltaremos a falar disso – Paulo VI no célebre discurso do 30 de junho de 1972 sobre a «fumaça de satanás no templo de Deus», que é a confissão de uma ilusão longamente cultivada e obstinadamente perseguida:

«Se cria que depois do concílio teria chegado um dia de sol para a história da Igreja. Há chegado, em câmbio, um dia de nuvens, de tempestade, de obscuridade».

A impossibilidade de cavalgar o tigre da contestação desencadeada e o desastre que desmente as promissoras ilusões dos «reformadores» obrigam a de Lubac a um «exame de consciência», que ele registra na citada Memoria en torno a mis escritos. Estamos, sem embargo, muito longe de uma conversão. Ele admite como muito que «esta época não está menos [sic!] sujeita aos extravios, aos passos em falso, às ilusões, aos assaltos do espírito do mal» e continua:

«O que percebo hoje destes assaltos não me faz maldizer minha época, mas me move a perguntar-me: não teria feito melhor, considerando mais seriamente desde o início meu caráter de crente, meu papel de sacerdote e de membro de uma Ordem apostólica, em resumo, minha vocação, se tivesse concentrado mais, com maior decisão, meu trabalho intelectual precisamente no centro da fé e da vida cristã, ao invés de dispersá-lo em campos mais ou menos periféricos, segundo meus gostos ou segundo a atualidade[…] Não me teria preparado desta maneira para intervir, com um pouco mais de competência e sobretudo de autoridade moral, no grande debate espiritual de nossa geração? Não estaria neste momento um pouco menos desprovido para iluminar a uns e animar a outros?». E ainda: «Há sete ou oito anos estou paralisado pelo medo de afrontar de frente, de maneira concreta, os problemas essenciais em sua candente atualidade. Tem sido sabedoria ou debilidade? Tenho acertado ou me equivoquei? […] Não terei acabado aparentemente, com pesar meu, no clã integrista que me horroriza?» (pp. 389 ss.). Entre tantas dúvidas, uma só parece não ter roçado a consciência de de Lubac, isto é, que aquele «integrismo», cujo «horror» lhe paralisava, não era senão fidelidade à ortodoxia católica fiel e infalivelmente custodiada pela Igreja e por ele desprezada, para dispersar-se em «campos mais ou menos periféricos», segundo seus «gostos ou segundo a atualidade», pretendendo além disso – o que é pior – ser «mestre» na Igreja sem haver sido nunca discípulo:

«Oh! Verdadeiramente cegos e guias de cegos, que, inchados do soberbo nome de ciência, deliram até o ponto de perverter o eterno conceito de verdade e o genuíno sentimento religioso: vendendo um novo sistema com o qual, levados por um descarado e desenfreado afã de novidade, não buscam a verdade onde certamente se encontra; e, desprezadas as santas e apostólicas tradições, se aderem a doutrinas vazias, fúteis, incertas, reprovadas pela Igreja, e, com elas, homens insensatíssimos, se creem que apoiam e sustentam a mesma verdade» (São Pio X, Pascendi, citação da Singulari Nos de Gregório XVI).

(continua)

Hirpinus

(Traducido por Marianus el eremita)

Fonte: http://adelantelafe.com/los-piensan-vencido-4-henri-lubac-s-j-maestro-nunca-fue-discipulo/

OS QUE PENSAM QUE VENCERAM: 4. Henri de Lubac S.J., um “mestre” que nunca foi discípulo

2 ideias sobre “OS QUE PENSAM QUE VENCERAM: 4. Henri de Lubac S.J., um “mestre” que nunca foi discípulo

  • 29 de março de 2017 em 11:09
    Permalink

    A soberba confundida com sabedoria, pelos próprios soberbos e outros desavisados.

    Resposta
  • 29 de março de 2017 em 06:39
    Permalink

    Tudo isso explica o desvario clerical na maioria em nossos dias. As homilias…ah as homilias… Deus tenha misericórdia de nós!

    Resposta

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