Uma atenção renovada à formação litúrgica reavivaria o vigor cristão na sociedade. Essa oração litúrgica seria a chave para evitar a secularização, formar homens e mulheres, numa religiosidade pública que pudesse transfigurar a vida cultural e social com o amor eucarístico de Cristo

Pe. Simon Henry – Offerimus Tibi Domine | Tradução: Sensus Fidei – Através do New Liturgical Movement, encontrei um artigo de Timothy O’Malley em Church Life Journal: Can Liturgy Heal a Secular Age? (A Liturgia Pode Curar uma Idade Secularizada?) É uma leitura interessante, partindo da premissa do Pe. Lambert Beauduin, muitas vezes considerado como o fundador do novo movimento litúrgico, onde se lê que:

uma atenção renovada à formação litúrgica reavivaria o vigor cristão na sociedade. Essa oração litúrgica seria a chave para evitar a secularização, formar homens e mulheres, numa religiosidade pública que pudesse transfigurar a vida cultural e social com o amor eucarístico de Cristo[ grifos nossos ]

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Nos anos seguintes, é justo dizer que as esperanças do movimento litúrgico não foram atendidas. A participação na vida sacramental da Igreja não floresceu desde o Concílio Vaticano II.

Ele passa a colocar em termos acadêmicos um dos meus temas constantemente recorrentes na minha própria pregação: que perdemos a conexão com a nossa Tradição e a substituímos por marcadores seculares e meios de avaliar a eficácia:

A religião fornece uma cultura privilegiada pela qual podemos conectar nossa narrativa com aqueles no passado. Nós nos vemos em uma história mais ampla, que está em última instância ligada a Deus. Com a perda da memória religiosa, a pessoa humana não é mais capaz de ver a sua identidade como ligada à comunhão dos santos, às Escrituras, à Tradição: todos esses marcadores que empregamos na avaliação da identidade católica. Assim, tudo o que resta é o indivíduo nu que pode avaliar a “eficácia” de uma tradição religiosa pelo modo como essa tradição o move. Se ela não move a pessoa, ela não tem valor, porque é um fato isolado e não parte de uma narrativa coerente. [ grifos nossos ]

O autor continua lembrando-nos que o relato do Movimento Litúrgico presumia que só a compreensão seria capaz de realizar esta renovação. Mas, em seguida, observa que, nos últimos tempos, esse entendimento clássico tem sido criticado. O que realmente faz o “trabalho” ritual não é meramente entendê-lo de um ponto de vista acadêmico ou intelectual (o mundo “como é”, como ele diz), mas, sim, dando-nos algo da experiência que nos conecta com um todo maior em um mais emocional, estético e intuitivo, (criando um mundo que poderia ser um “como se”, como ele diz):

Nesse sentido, pode-se argumentar que a catequese litúrgica e a reforma sobre o Concílio Vaticano II eram inadequadas em relação ao modo como a ação ritual realmente funciona. Procurou-se explicar. Supunha-se que se mais fosse ensinado, então mais seria alcançado. No entanto, a explicação não é a função da liturgia. O ritual faz algo antes de comunicar alguma coisa. [ grifos nossos ]

Esta restauração de um mundo quebrantado através da ação ritual é essencial para entender como o litúrgico poderia “curar” em uma era secular. A oração litúrgica não se trata de comunicação da informação. Trata-se de criar um mundo “como se”, aquele que os católicos entendem como um mundo sacramental ainda não visível a olho nu. A participação autêntica no rito pode assim ocorrer mesmo quando alguém não compreende inteiramente o que se está a desdobrar na assembleia Eucarística. Pode-se entender, por meio do ritual de sucessão, que essa ação centra-se na restauração da comunhão entre o céu e a terra, entre Deus e a humanidade, entre o próximo e o próximo. [ grifos nossos ]

Quanto mais nossa prática litúrgica parece extraída do mundo atual, daquela que enfatiza a compreensão e a sinceridade da crença, menos a pessoa humana contemporânea verá o ritual como necessário[ grifos nossos ]

Pareceu-me que o mesmo entendimento está muito presente na esfera política dos últimos tempos. As pessoas desiludidas que votaram pelo Sr. Trump ou pelo Brexit não o fizeram necessariamente, tendo compreendido todas as complexidades e consequências, mas porque a narrativa geral (a “liturgia” das campanhas) moveu seus corações para o que eles gostariam que o mundo fosse: não o “como é” que eles têm experimentado, mas o “como se” ao se conectar e esperar algo como melhor, maior e mais coeso.

O que é bom em relação ao artigo é que na parte final ele dá alguma direção, respondendo as perguntas em vez de apenas apresentá-las, que frequentemente não ouvimos!

A oração litúrgica deve ser compreendida como parte da cadeia da memória. Devemos admitir que algumas das reformas do Concílio Vaticano II, não intencionalmente, nos separam das dimensões dessa memória que nos ligava aos nossos antepassados. A supressão de certas festas litúrgicas, o desaparecimento de muito da arte litúrgica, o declínio das dimensões devocionais da vida católica — tudo isso criou uma lacuna na cadeia da memória que ligava a Igreja ao passado. Não podemos voltar atrás e restaurar esta cadeia de memória como alguns tradicionalistas parecem argumentar. A oração litúrgica sempre terá lugar numa Igreja pós-conciliar, mesmo que seja a Forma Extraordinária. Mas podemos reconhecer que a história da salvação comemorada na oração litúrgica estava presente em todas as épocas, conectando-nos com aqueles que estiveram antes… O que é necessário no Catolicismo é uma forma de estudo litúrgico e pesquisa que aspire todas as práticas da Igreja através dos tempos. A próxima reforma litúrgica não deveria privilegiar uma era porque vista como uma forma autêntica de comunicação da identidade cristã (versus outra era em que tudo estava errado). Em vez disso, todo o escopo da identidade cristã como uma história através dos tempos deve entrar no quadro da renovação e da reforma litúrgica. E onde for apropriado no presente rito, seria aceitável introduzir aspectos do passado na liturgia de hoje. A possibilidade, por exemplo, de adoração ad orientem, não deve ser descartada como alguma conspiração retrógrada, conservadora e retrógrada. É simplesmente uma restauração de uma postura de oração que foi realizada no passado e poderia ser novamente, conectando-nos aos cristãos que vieram antes. Tem validade teológica. E poderia ser atraente precisamente porque fornece um elo perdido em uma cadeia de memória[ grifos nossos ]

Restaurando uma Cultura: Por fim, o próprio Romano Guardini observou que a renovação da liturgia exigia uma restauração da civilização… Talvez a dimensão mais importante de neutralizar a secularidade através da liturgia de hoje não esteja relacionada com a liturgia. Relaciona-se com formas alternativas de educação que ensinem as crianças a contemplar, apreciar, amar e, assim, encontrar-se adorando. Trata-se de restaurar a capacidade de perceber o mundo “como se”, em arte e literatura, música e ciência. É sobre maravilha. Se essa capacidade de admiração não for restaurada nos lares e nas escolas, ela nunca aparecerá na Igreja. E a secularidade continuará a ser um programa catequético altamente eficaz, mais do que qualquer coisa que possamos oferecer…

Em outras palavras, o que é mais importante não é o entendimento da liturgia, mas o “apaixonar-se por ela” e conectar-se à memória da salvação na beleza, na arte, na maravilha experimentadas através do ritual[ grifos nossos ]

Publicado originalmente: Offerimus Tibi Domine – Can Liturgy Heal a Secular Age?

A Liturgia Pode Curar uma Idade Secularizada?

Uma ideia sobre “A Liturgia Pode Curar uma Idade Secularizada?

  • 11 de março de 2017 em 20:24
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    A liturgia tridentina é apaixonante.

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