A prática de paciência perde apenas para a prática do amor, e o que une as duas é o sofrimento

Da Epístola de Paulo aos Colossenses: “Como eleitos de Deus, santos e queridos, revesti-vos de entranhada misericórdia, de bondade, humildade, doçura, paciência.

Pe. Richard G. Cipolla – Rorate Caeli | Tradução Sensus Fidei: A última na lista de São Paulo na epístola de hoje, ao descrever o que o cristão deve suportar, transformar-se, é a paciência. Pode ser última, mas não menos importante. A paciência pode ser banalizada. Alguém está fazendo um trabalho que exige tempo e meticulosidade. Isto requer paciência, no sentido de que as coisas deverão ir lentamente e o que é necessário é a atenção aos detalhes e ao tempo que leva para tornar esse detalhe perfeito. Mas São Paulo não está falando desse tipo de paciência. Ele está falando sobre essa paciência cuja etimologia vem do verbo latino, patior, cujo primeiro significado é sofrer.

A prática de paciência perde apenas para a prática do amor, e o que une as duas é o sofrimento. Oh, diz você, é mais um sermão sobre achegar-se à Cruz, sobre a necessidade do sofrimento na vida cristã, como uma imitação de Cristo. Sim e Não. Cristo não fala acerca da paciência em si. Ele fala sobre misericórdia e amor no contexto da condição humana de pecado e morte, e que a misericórdia e o amor demandam o sofrimento de alguma forma. O Bom Samaritano teve que ter paciência para fazer o que fez. Levou tempo, tempo que ele poderia não ter tido. Demandou trabalho físico para pegar o homem espancado e colocá-lo em seu cavalo e levá-lo até a hospedaria. Demandou paciência para José receber Maria como sua esposa e viver esse singular papel até a sua morte. Agora estamos chegando mais perto do coração da paciência. A paciência em seu aspecto mais profundo é uma aceitação de coisas que fazem com que o sofrimento não possa ser explicado. Isto é muito diferente de ter a paciência para enfiar uma linha na agulha ou a paciência para explicar algo a alguém que parece incapaz de compreender o que está sendo dito, ou a paciência de esperar com um semblante sereno no Serviço de Veículos Motorizados.

A compreensão cristã de paciência muitas vezes é vista em atos de heroísmo. Nós associamos o heroísmo com atos de bravura que são maravilhosos, mas evidentes em sua grandeza. O herói deliberadamente esquece a si mesmo, até de sua própria vida, para realizar um ato que é corajoso e sempre envolve auto-esquecimento. Para mim, o primeiro herói moderno é Aeneas, o fundador de Roma. EIe é moderno no sentido em que sucumbe a todos os tipos de tentações que o colocaram fora do curso. Ele torna-se impaciente. Ele teme, chora, torna-se uma máquina de matar, tudo para fundar Roma. E diz Virgílio: Tantae molis erat romanam condere gentem. Molis é intraduzível, mas uma boa aproximação é: Foi uma tarefa pesada fundar a raça romana. E por toda parte, apesar de seu esquecimento de sua missão, ele sabe que está envolvido no chamado de uma alta vocação que vai muito além de si mesmo.

Os santos são aqueles que também se esquecem, mas que entendem que sua paciência é a paciência de Cristo, a paciência de Cristo na Cruz, e os santos sempre souberam que sua paciência, quaisquer que sejam suas circunstâncias históricas, é sempre uma imitatio Christi, uma imitação de Cristo, a imitação da paciência do Senhor para com todos aqueles com os quais encontra. Ah, diz você, Ele não era muito paciente com os fariseus e os escribas, atacando-os. Hipócritas, sepulcros caiados! Ah, nós dizemos, olha só, afinal de contas, Ele é como nós. Ele tem tanta paciência e então, bam!, Ele explode com a hipocrisia e a falsa religiosidade destas pessoas religiosas. Não. Errado. Porque Ele sofreu por elas, Ele morreu por elas na Cruz, ele também morreu pelos escribas e fariseus. Esses gritos de angústia contra a hipocrisia daqueles que se intitulam religiosos, esses são os gritos do homem que conhece a terrível escuridão que se esconde no coração do homem e sua negação da realidade de Deus. Esses gritos estão unidos ao seu clamor na Cruz: Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste? Pai, perdoai-lhes, porque não sabem o que fazem.

Mas veja você, agora nós nos aproximamos com temor e tremor do coração da paciência que está sofrendo. Aproximamo-nos daquela grande contradição com a qual São Paulo luta, ostensivamente a tensão entre a Lei e o Evangelho, entre a Lei e a Liberdade, que, finalmente, resolvem-se na paciência do sofrimento. Resolver é a palavra incorreta, pois a resolução transcende a Lei de forma absoluta e nos leva ao coração incognoscível de Deus. Como suportar a piedosa tagarelice que está ocorrendo em Roma neste momento em relação aos muitos católicos se preocupando demais com os Dez Mandamentos? Não somente eles se esqueceram das palavras de Nosso Senhor, que veio para cumprir a Lei, eles se posicionaram em um vídeo ruim no YouTube imitando, pessimamente, a canção dos Beatles: Tudo que você precisa é amor, o amor é tudo que você precisa. Entediante, ontem, entediante agora. Má música, ontem, má teologia agora.

Eles nunca ousariam confrontar aquela história mais poderosa e horrível do Antigo Testamento do sacrifício de Isaque. Não há melhor exegese sobre isto do que a do filósofo e teólogo dinamarquês Soren Kierkegaard. O que temos nessa história, com seus detalhes inesquecíveis, o pai e o filho subindo pela montanha lado a lado, mas não há o cordeiro que o pai deveria estar levando para o sacrifício, o silêncio do pai, a subordinação do filho sobre o altar de pedra, a faca erguida. Este é um momento em que a Lei, no sentido mais profundo, está suspensa e entramos no abismo do coração de Deus. O que Abraão está prestes a fazer é contra a moralidade, é imoral matar o próprio filho, mas este é um ato de fé que transcende até mesmo a moralidade quando Abraão entra na ofuscante paciência de Deus. Kierkegaard denomina Abraão cavaleiro da fé. E assim ele é. Você diz, mas tem um final feliz. A mão de Abraão é retida por um anjo. É tudo um teste. Ufa, foi por pouco. Mas Deus não reteve a mão do anjo da morte na crucificação de seu Filho. Há o rompimento da nossa religiosidade burguesa que confunde paciência com o não-comprometimento. Você e eu não ousamos entrar neste lugar incrível. Porque não temos paciência no sentido mais profundo. Tornamo-nos impacientes com as imperfeições que nos rodeiam, com o que vemos a nos impedir de sermos nós mesmos, de fazer algo significativo para mim mesmo, contentar com a mediocridade, recusando-me a subir a montanha com a faca. E quem pode nos culpar? Certamente, não aqueles que pregam: não se preocupe, Deus te ama, e não há nada mais a dizer, e que apagam as palavras duras no evangelho do Filho de Deus. E quem pode nos culpar por nos recusarmos a subir aquela montanha com a faca na mão?

É verdade, em um sentido real, que os mártires da Igreja de Estêvão a Inácio de Antioquia, dos mártires japoneses a Edmund Campion, dos mártires ingleses a Isaac Jogues e dos mártires no norte de Nova York àqueles que morrem por Cristo neste mesmo dia: Que estes compreenderam a caminhada ascendente da montanha e a faca. E o mais surpreendente é que a Santíssima Virgem Maria, aos pés da Cruz, foi transpassada com a realidade da caminhada até a montanha. Mas ao dizer isso, respiramos um suspiro de alívio. Os mártires nada têm a ver com a minha vida, realmente. Essa não é a minha vocação, graças a Deus. Estas pessoas são apenas uma lista no Canon romano: Linus Cletus, Sixtus, Agatha, Cecilia, Perpetua, Felicidade. Inacreditável. Mas eles deveriam ter tudo a ver conosco.

Permita-me dar-lhe alguns exemplos de cavaleiros da fé que, talvez, estejam mais perto de casa e, talvez, nos despertem de nosso estupor egoísta. Um jovem que tem atração sexual pelo mesmo sexo e quer no mais profundo do seu coração ordenar-se sacerdote. Ele luta vigorosamente com este espinho na carne. Ele falha, ele vai para a Confissão, ele recebe graça e tenta subir a montanha o melhor que pode. Ele tropeça uma e outra vez, mas ele entende que o único caminho a tomar é subir a montanha, e isto nunca o conduzirá ao sacerdócio que ele tão profundamente deseja. Uma mulher madura, católica, casou-se com um homem divorciado, teve um filho, leva-o à Missa todos os domingos e nunca recebe a Sagrada Comunhão, nunca se queixa, paciente com a sua condição, o filho recebe a sua primeira Comunhão, pia, paciente e silenciosamente sofre, não por causa da Lei da Igreja, mas porque ela entende o caminho até a montanha, o caminho que ela deve tomar. Uma mulher jovem, casamento feliz, grávida, mais de dois meses, vai ao seu médico para um exame de rotina. A notícia: o bebê tem anomalias graves que, no entanto, não abortá-lo permitirá que o bebê viva apenas algumas horas após o nascimento.

A grande tentação é afastar-se da paciência, recusar-se subir a montanha, e há tantas maneiras hoje de sair disso e nunca confrontar a surpreendente paciência de Deus. Conselhos. É pedir demais a qualquer mulher normal. E a misericórdia de Deus é invocada pelos sacerdotes. Não se preocupe com a Lei. Mas, ela ainda opta pela paciência. E o véu cai sobre ela e seu filho, o véu da paciência infinita de Deus que vem do sofrimento infinito do Deus que sacrificou seu Filho unigênito para pessoas como você e eu. Este é o véu do infinito amor. Essas pessoas não são inventadas. Eles são reais. E elas são pacientes.

Publicado originalmente: Rorate Caeli – Sermon for the Fifth Sunday after the Epiphany: Be Patient

Ser Paciente

Uma ideia sobre “Ser Paciente

  • 12 de fevereiro de 2017 em 18:57
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    Senhor, ensina-me a amar e ser paciente, para sofrer melhor.

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