Não faz muito se noticiava a respeito do fato do papa Bento XVI não poder “vender nem comprar”: uma espécie de prelúdio do que há quase dois milênios já nos fora preanunciado pelo evangelista e profeta. Essa impossibilidade foi associada, no Apocalipse, aos que negassem associar-se a uma determinada marca de uma determinada Besta

 

Frei Zaqueu – (freizaqueu@gmail.com)O extrato a seguir em que tomarei por base o desenrolar desta singela digressão é o de uma obra de Valtorta[1]. E o tomarei, em que pesem algumas controvérsias sobre a obra e a pessoa, por dois simples motivos e com uma observação: por não ter sido desabonadas oficialmente pela Igreja pessoa e obra e pelo extrato em questão servir aos propósitos desejados. A extração, por isso, como é de senso comum, não terá intenções de antecipação ao juízo eclesiástico, tampouco de apologia. Isto posto, vamos ao que interessa.

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O ambiente da narrativa é o posterior ao da primeira multiplicação dos pães. Jesus está na sinagoga de Cafarnaum para falar a alguns peregrinos que, satisfeitos anteriormente com os pães, os peixes, e evidentemente os milagres, (por isso) muito entusiasmados em se tornar discípulos vieram para ouvir o Mestre, que lhes diz:

Em verdade, vos digo: Vós não Me estais procurando para ouvir-me e pelos milagres que vistes, mas por aquele pão que Eu vos dei a comer à vontade e sem pagar nada… Nesta busca vossa faltou o espírito sobrenatural, e vos fica ainda dominando o espírito humano com as suas curiosidades doentias ou, pelo menos, com uma imperfeição infantil, não por ser simples como a dos pequeninos, mas porque diminuída, como a inteligência de alguém que tem uma mente obtusa. E, com a curiosidade vem junto a sensualidade e um sentimento viciado. A sensualidade, que se esconde sutil como o demônio do qual é filha, atrás das aparências e em atos aparentemente bons e o sentimento viciado, que é simplesmente um desvio mórbido do sentimento, e que, como tudo o que é ‘doença’, tem necessidade de medicamento e os apetece, de alimentos que não são o alimento simples, como um bom pão, uma água boa, um óleo genuíno, o primeiro leite, que basta para viver, e viver bem. O sentimento viciado precisa de coisas extraordinárias para sentir um calafrio que passa, o calafrio doentio dos paralisados, que têm necessidade de medicamento para terem sensações que os iludam, e os façam pensar que ainda estão íntegros e viris. A sensualidade, que quer satisfazer sem esforços a gula, neste caso, com um pão adquirido sem o suor do rosto, mas pela bondade de Deus.

Os dons de Deus não são um costume, mas uma coisa extraordinária. Não se pode pretender tê-los, nem viver na preguiça, dizendo: ‘Deus os dará’. Está escrito: ‘Comerás o pão molhado com o suor do teu rosto’, isto é, o pão que se ganha trabalhando. Porque, se Aquele que é Misericórdia disse: ‘Tenho compaixão deste povo, pois ele me segue há três dias e não tem mais o que comer e poderia desfalecer pelo caminho… e o proveu, contudo não está dito que deva ser seguido por isso… Não é pelo alimento que enche o ventre, mas por aquele que nutre a alma. Porque vós não sois somente uns animais que precisam pastar e ruminar, ou fuçar e engordar. Mas vós sois almas! Isto é o que sois! A carne é uma veste, a essência é a alma…

Aqui me parece existir um bom mapa do tesouro. E, como todo bom objeto deste nome, um que será decifrado por poucos, que ao fim e ao cabo chegarão ao “×”. Ele se compõe de dicas e caminhos intrincados, mas não impossíveis, que exigirão tão somente tenacidade e perseverança. Humildade e sabedoria.

Como sói ocorrer, conhecemos pouco os católicos as Escrituras. E nos tempos presentes isto se reveste de uma gravidade um tanto mais considerável com a negligência ao conselho de Cristo em relação a uma escritura em especial: “Beatus, qui legit et qui audiunt verba prophetiae et servant ea, quae in ea scripta sunt; tempus enim prope est.” (Ap I, 3). E a gravidade parece crescer em gênero, número e grau uma vez que quase não há mais “… quem me explique” (At VIII, 31). Hoje, além de não lermos, o pouco que lemos o lemos mal. E carentes de condução genuinamente pastoral que há tempos conduzem conforme não a sã doutrina, mas o gosto do freguês, que quase sempre não quer saber de doutrina sã e se contenta com carne de terceira (ainda que ovelhas). Sabemos que a internet, as livrarias e bibliotecas estão aí, mas tampouco as sabemos ler, especialmente se o caso é as utilizar em prol da sã doutrina, quando surge celeremente em nosso auxílio aquele vagaroso pecado capital… E assim vem caminhando, ainda que como siri, nossa desapercebida, materialista e glutona humanidade.

Ao contrário dos mapas piratas, os mapas cristãos foram feitos para ser compartilhados, mesmo com os piratas, para depois não sermos justamente acusados de falta de caridade. E egoísmo. Lógico que esta caridade e este altruísmo devem vir munidos da devida prudência sem a qual toda virtude é despida de sua dignidade e eficácia. Mas o tema pede, ao mesmo tempo que a prudência, a premência, pois já se avistam a olho nu os sinais dos tempos futuros tanto ou mais que os dos tempos presentes. E não somente a de hipócritas; também não será nada agradável ouvir do bom mas justo Deus a pecha de maus sentinelas, ou ainda a de mornos. Daí que peço encarecidamente a atenção dos leitores para auxiliar-nos a que não sejamos vomitados.

Mais acima, no extrato da mística italiana, se lê algo que poderíamos relacionar com a confidência apocalíptica como um todo e sem muito esforço, mas que aqui o farei com relação a uma parte específica desta “Revelação de Jesus Cristo, que Deus lhe confiou para que mostrasse aos seus servos as coisas que devem acontecer em breve.[2]”, que creio – e penso não estar sozinho ainda que isto não diga muita coisa – não estar nada distante desta nossa geração “má e perversa”: a do afamado capítulo XIII.

Não faz muito se noticiava a respeito do fato do papa Bento XVI não poder “vender nem comprar”[3]: uma espécie de prelúdio do que há quase dois milênios já nos fora preanunciado pelo evangelista e profeta. Essa impossibilidade foi associada, no Apocalipse, aos que negassem associar-se a uma determinada marca de uma determinada Besta. Sabemos o que significam as marcas nos lombos das bestas: um signo de pertença. Algumas artes mesmo profanas e populares já nos fizeram a gentileza de aprofundar e ilustrar a questão sobre gados e sociedades manipuláveis e manipuladas. Então, sem muitas delongas, surge Nosso Senhor com a santa indignação que lhe é própria, e à ela, o inseparável (por suposto também santo) alerta, como o de acima. Ali, na narração de Valtorta, Cristo chama à atenção os entusiasmados com uma particular categoria de discipulado, a dos “barriga cheia” ou “saciados”, também conhecidos como materialistas crassos, simpáticos a determinada vertente jornalística: a dos meramente curiosos e mexeriqueiros. Na esteira dos neologismos muito em voga aplicaria a esta categoria ainda um outro epíteto, a dos compostos pelos espécimes do tipo “menino velho do buchão”, porque possuidores de “uma imperfeição infantil, não por ser simples como a dos pequeninos, mas porque diminuída, como a inteligência de alguém que tem uma mente obtusa”. É de prevenir, por caridade, que estes sofrerão os maiores prejuízos quando venha a Grande Tribulação e já em seus prelúdios. É pelo que espero me fazer entender.

Não por acaso um sem número de vezes as Escrituras desde os idos de Adão e Eva, passando por Moisés, Sansão e Salomão, culminando com Jesus e os Apóstolos, nos advertem dos perigos capitais, de modo especial nestes nossos presentes casos de gula e avareza, preguiça e luxúria crônicos. Daí que não são também poucas as vezes em que os remédios da oração e penitência, do jejum e da esmola, ministrados com certa dosagem de desapego, abandono e renúncia nos são aplicados e aconselhados. Ocorre que quando o Apocalipse chega ao delírio de vaticinar um dado momento histórico em que a condenação eterna caminhará de mãos dadas com uma determinada marca que, por não se possui-la não se poderá “vender nem comprar”, tais remédios cobram um significado de certa forma inédito e digno de toda a atenção. Notemos. Cristo disse que aspirássemos aos dons superiores, bem como ao alimento que não perece. O Apóstolo remata dizendo que chegariam tempos maus em que quem tivesse fosse como se não possuísse, ainda que os próprios cônjuges. Chega-se mesmo ao extremo de ser apontada a fuga das cidades com a busca das montanhas (e aqui não é o caso de se falar em qualidade de vida). E num extremo ainda mais remoto como o da morte com o fim de se subtrair à marca, sendo tal medida uma alternativa factível e mesmo louvável. Some-se tudo ao fato destas alegorias não parecerem a muitos (e santos) exegetas e doutores nem metáforas, nem alegorias. Por isso é que nesse ponto se faz tentadora a quimera de pensar em um como sopro inspirador do Criador nos ouvidos de uma sua criatura, o senhor Eduardo Coutinho, ao dar este expressivo título a uma de suas obras: cabra marcado para morrer.

Havia, à luz deste matiz, uma lacônica diligência de Cristo que ao que tudo indica temos hoje maior capacidade de compreensão ao tempo em que nos tornamos mais obtusos. Pode-se ver em todas estas advertências e orientações uma como espécie de treinamento de guerra que não somente nos tornasse aptos aos nobres títulos de Amigo, Benditos de Meu Pai, Virgem Prudente, Servo Bom e Fiel, Ovelha etc, como a adquirir o preparo necessário ao combate, principiando pelo diário, o do martírio branco, até culminar com o que, dada a licença poética, denominarei a hora da marcação dos cabras. Claro é que todo agora pressupõe um antes, como todo hoje um ontem. Para que Cristo antes revelasse esse funesto momento futuro com a força simbólica e literária com que fez no último dos livros sagrados (porque tal detalhe não nos escapa), haveremos que tomar pé da grande e crassa negligência que ainda paira sobre tais revelações para que nos tornemos menos negligentes e crassos. E somos aqui, a contragosto, obrigados a nos dirigir especialmente – ainda que não exclusivamente –aos pastores, em eco ao primeiro dos menores[4].

O dilema não carece de muito neurônio queimado. Se torna ainda mais simples à medida em que avança a new world order neobabilônica. Chegamos, a título de exemplo, em alguns países à abolição do papel moeda, como chegamos à implantação de chips em gente, passando pela gradual substituição da espécie pelo cartão magnético, o do dinheiro virtual, o que significa um crescente controle sobre o que garante nosso poder de compra e de venda. Hoje pagamos sem querer e de forma compulsória, pois antes de o salário chegar às (obrigatórias) contas bancárias já os impostos nos foram impostos e britanicamente retirados sem chance de esperneio. Em tempo cada vez menos misericordioso todos os detentores de cartões de crédito cederão espaço aos chips ou outra forma de controle maior sobre suas movimentações financeiras e bancárias sem que se veja “a cor do dinheiro”. E nos chips até o dna, deixando-nos à mercê do Mercado cuja intensão será – o tempo futuro é obséquio meu – a de nos pôr e manter marcados. Se isto não for parte integrante da antessala do que nos foi prevenido pelo Senhor do tempo e da história, não imagino o que pode ser. E isso para mim – e penso não estar sozinho ainda que… – cheira a sinais dos tempos.

Todo o mosaico aponta à necessidade de maior seriedade com as coisas do Céu, uma vez que o que está em jogo é uma dupla realidade de suma importância que não vem em separado: a alma e a eternidade. Cristo não brincava quando dizia para colocar em segundo plano os cuidados com o bem-estar, a qualidade de vida e o sucesso. Como não brincava ao dizer para temer mais “Aquele que, depois de matar o corpo, tem poder para lançar a alma no inferno”, arrematando, à guisa de conclusão realmente conclusiva: “Sim, Eu vos afirmo, a esse deveis temer” (Lc XII, 5).

Como em tempos de misericórdia fora de contexto se deixa de fora a justiça é difícil assimilar e digerir a sentença acima. O bom Deus vira caricatura de deus bonachão ao gosto do freguês que, como se disse, já não opta por qualidade mas quantidade, especialmente em tempos de luxúria, gula e avareza com “A sensualidade, que quer satisfazer sem esforços a gula, neste caso, com um pão adquirido sem o suor do rosto, mas pela bondade de Deus”. Não será difícil então concluir que a humanidade mergulhada nesta tríplice desordem não só permitirá como implorará ser marcada se isto lhes garantir não o panem nostrum quotidianum, que não é nada menos que o próprio Cristo feito alimento oferecido nas Missas cotidianas, mas o panis et circenses cuja necessidade se faz a cada fim de metabolização. O que acarretará em que nutridos com o pão da terra já não se dará trela ao Pão do Céu; com o bucho cheio do pão dos homens dispensável será o Pão dos Anjos. E que sorria Genézio Boff, o bom velhinho das meias cheias.

A expressão popular “menino velho do buchão” nos parece assim mais que apropriada. Ela faz referência àquela espécie de homens que, ainda que saciados reclamam “de barriga cheia”, mas reclamam o que não é substancial, essencial e prioritariamente necessário, naquela manha própria dos infantes que já perderam a inocência em prol da malícia. Que já não possuem aquela pureza que conduz ao Reino dos Céus, onde jamais se passará fome qualquer. A Besta, dada esta qualidade de homens cada vez crescente logrará marcar a muitos; podemos mesmo revelar com a Revelação: a maioria. E ao marcá-los os fará propriedade sua por simbiose. De gente passarão a bestas, figurada e literalmente. De alguma forma já vemos ensaios significativos também – e de forma especial – entre os católicos hodiernos. Porque antes do hoje há um ontem, e do amanhã, um hoje.

Mas o mapa do tesouro está aí, para quem desejar encontrar. Para quem desejar encontrar… Penso que foi isso o que disse.

Possa o bom (mas nem de longe bonachão) Deus conceder-nos por intercessão de São José a graça de tornar-nos homens sem deixar de ser meninos, recobrando as respectivas dignidades perdidas. Enquanto há tempo.

 Em 08 de janeiro do ano da graça de Nosso Senhor Jesus Cristo de 2017.

Frei Zaqueu

Notas

[1] Maria Valtorta. O Evangelho como me foi revelado (v.5). Centro Editoriale Valtortiano. Italia, 2001. Tradução Aristides Taciano Rodrigues. Pgs. 388-390.

[2] Ap I, 1.

[3] http://www.maurizioblondet.it/ratzinger-non-pote-ne-vendere-ne-comprare/. Reproduzido em alguns sites de língua portuguesa sob o título: Ratzinger não podia “vender nem comprar”.

[4] Oseias IV-V.

Panem nostrum quotidianum e a marca da Besta

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