“Creio que, depois da oração litúrgica do Santo Sacrifício da Missa, a oração do santo Rosário ou Terço, pela origem e sublimidade das orações que o compõem e pelos mistérios da nossa redenção que recordamos e meditamos em cada dezena, é a oração mais agradável a Deus que podemos oferecer-Lhe e de maior proveito para as nossas almas. Se assim não fosse, Nossa Senhora não no-lo teria recomendado com tanta insistência”

ORAÇÃO INSIGNE E PODEROSA

Irmã Lúcia de Fátima (*): Vimos como Deus, sabendo da grande necessidade que temos de rezar, mas também de como são diversas as possibilidades e situações da vida de cada um para fazer o mesmo pedido a todos, quis pedir a reza diária do Terço, condescendendo até ao nível simples e comum de todos nós. Logo, na aparição do dia 13 de Maio de 1917, Nossa Senhora pediu: «Rezem o Terço todos os dias»; e este apelo seria renovado por Ela todos os meses até Outubro.

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Ora, tendo presente a insistência com que Deus, por meio da Sua Mensagem em Fátima, nos recomenda a oração do Rosário ou Terço, e o que tem dito sobre a mesma o Magistério da Igreja, ao longo dos anos, podemos pensar que o Rosário ou Terço é a fórmula de oração vocal que a todos, em geral, mais nos convém, e da qual devemos ter sumo apreço e na qual devemos pôr o melhor empenho para nunca a deixar.

Infelizmente, não falta, nestes tempos de desorientação, quem se atreva a falar de modo desfavorável da oração do Terço, objetando, por exemplo, que não é oração litúrgica. Há bastante tempo, tive conhecimento, e com muita pena, de um artigo neste sentido. Tendo alguém perguntado ao seu autor como se atrevera a escrever e a publicar tais disparates, respondeu: Fui forçado a fazê-lo! Mas, não saberia ele que não existe, no mundo, autoridade alguma que possa obrigar-nos a proceder contra a própria consciência?! É o mistério da fraqueza humana, que, em muitos casos, para agradar às criaturas, talvez por interesses terrenos, não se importa de incorrer na indignação de Deus e nas penas com que Ele pune o pecado. Contrariamente ao que terá escrito essa pessoa e outras da mesma linha, digo-vos que a oração do Terço é uma oração bíblica e que toda ela faz parte da Liturgia sagrada.

Iniciamos a oração do Terço com as palavras: «Deus, in adiutorium meum intende. Domine, ad adiuvandum me festina», ou seja: «Deus, vinde em nosso auxílio. Senhor, socorrei-nos e salvai-nos. Esta é a súplica que dirigimos a Deus, no início dos diversos momentos da Liturgia das Horas.

Em seguida rezamos: «Gloria Patri, et Filio, et Spiritui Sancto. Sicut erat in principio, et nunc et sempre, et in saecula saeculorum. Amen». Ou: «Glória ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo. Como era no princípio, agora e sempre. Ámen». Este louvor que dirigimos a Deus no início de cada dezena da oração do Terço é o mesmo com que terminamos os salmos na Liturgia das Horas, e está presente na Santa Missa, seja na aclamação ao Evangelho da solenidade da Santíssima Trindade, seja numa sua forma mais extensa que é o hino sagrado: «Glória a Deus nas alturas», iniciado pelos Anjos em Belém.

O «Pai-Nosso», que rezamos em cada dezena do Terço, foi-nos ensinado por Jesus Cristo quando os Seus discípulos Lhe pediram que os ensinasse a orar: «Rezai, pois, assim: “Pai nosso, que estais nos céus, santificado seja o Vosso nome, venha a nós o Vosso reino; faça-se a Vossa vontade, assim na terra como no Céu. O pão nosso de cada dia nos dai hoje, perdoai-nos as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido, e não nos deixeis cair em tentação, mas livrai-nos do mal’”» (Mt 6,913). Esta oração, que dirigimos a Deus em todas as dezenas do Terço, é uma oração bíblica e faz parte da Liturgia: reza-se diariamente na Santa Missa e na Liturgia das Horas.

Segue-se a oração da «Ave-Maria», que repetimos dez vezes formando assim uma dezena no nosso Terço. É uma oração bíblica. Começa pelas palavras que o Anjo S. Gabriel dirigiu a Maria, quando foi enviado por Deus para lhe anunciar a encarnação do Verbo: «O Anjo Gabriel foi enviado por Deus (…) a uma virgem (…), e o nome da Virgem era Maria. Ao entrar em casa dela, o Anjo disse-Ihe: “Salve, ó cheia de graça, o Senhor está contigo”» (Lc 1,26-28). Penso que Deus, ao enviar o Anjo, lhe terá sugerido as palavras com que este havia de saudar Maria, ao anunciar-lhe, da Sua parte, o mistério da encarnação do Verbo.

E Santa Isabel, movida pelo Espírito Santo, disse: «Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre» (Lc 1,42).

E assim nasceu, inspirada por Deus, a Ave-Maria: «Ave, Maria, cheia de graça, o Senhor é convosco, bendita sois Vós entre as mulheres e bendito é o fruto do vosso ventre, Jesus».

Esta saudação devemos considerá-la dirigida à Virgem Maria pelo próprio Deus, naturalmente pelo que se refere às palavras do Mensageiro celeste, e sobrenaturalmente nas palavras que brotaram dos lábios de Santa Isabel por inspiração do Espírito Santo: «Ao ouvir Isabel a saudação de Maria, (…) ficou cheia do Espírito Santo. Erguendo a voz, exclamou: “Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre”» (Lc 1,41-42). Se Santa Isabel pronunciou estas palavras movida pelo Espírito Santo, como nos diz a Sagrada Escritura, este louvor é do Espírito Santo.

Mas este louvor é mais para Deus do que para Maria: Tu és bendita, porque é bendito o fruto do teu ventre; e é neste fruto e por este fruto que Te vem de Deus a bênção e o seres bendita entre todas as mulheres. E assim o entendeu e cantou a Virgem Mãe: «A minha alma glorifica o Senhor, e o meu espírito exulta em Deus, meu Salvador. Porque olhou para a humilde condição da Sua serva. De fato, desde agora todas as gerações me hão-de chamar ditosa, porque me fez grandes coisas o Omnipotente. É santo o Seu nome; e a Sua misericórdia vai de geração em geração para aqueles que O temem» (Lc 1,46-50). Como vemos, todo o louvor de Maria se eleva para Deus; Ele pousou o Seu olhar de misericórdia na humildade da Sua serva.

Enfim, a «Ave-Maria» é uma oração bíblica. Mas também faz parte da Liturgia, estando presente, em vários dias do Ano, tanto na Santa Missa como na Liturgia das Horas.

Depois, a Igreja, guiada pelo Espírito Santo, que é Quem a ilumina e assiste, concluiu a fórmula da Ave-Maria como uma humilde súplica: «Santa Maria, Mãe de Deus, rogai por nós, pecadores, agora a na hora da nossa morte. Ámen».

Esta súplica que dirigimos a Maria para que interceda por nós junto de Deus, não implica absolutamente nada com a verdade que nos ensina S. Paulo: «Há (…) um só mediador entre Deus e os homens, Jesus Cristo Homem» (1 Tim 2,5). Mediador dotado da natureza divina, que Lhe permite livre e natural acesso à parte de Deus, há um só: Jesus Cristo. No entanto, «o Mediador não é de um só, mas Deus é um só» (Gal 3,20), pelo que há a outra parte que o Mediador serve e representa: a humanidade. E «Jesus Cristo Homem» é nosso Mediador por natureza — a natureza humana que Ele assumiu no seio da Virgem Maria. Mas Cristo não Se fez homem para ficar Ele só como resíduo sobrevivente da humanidade, mas para ser «o Primogênito de muitos irmãos» (Rom 8,29), que Ele salvou, restituindo-nos o acesso à presença e à intimidade com Deus como no paraíso terreal; Ele, porém, fez mais: estreitou-nos a Si como membros do Seu Corpo Místico, que é a Igreja, presença salvadora de Jesus até ao fim dos tempos e até aos confins da terra, compartilhando, por graça e missão, a tríplice missão — profética, sacerdotal e real — do Salvador.

Por isso, Mediador divino há um só: Jesus Cristo; mas como intercessores suplicantes temos Maria, os Santos, e podemos ser todos. O próprio S. Paulo pede, em várias passagens das suas cartas, que orem por ele e que oremos uns pelos outros: «Perseverai nas vossas vigílias, com preces por todos os santos, e também por mim, para que me seja dado anunciar corajosamente o mistério do Evangelho, do qual, mesmo com as algemas, sou embaixador, e para que tenha a audácia de falar dele como convém» {Ef6,18-20).

Ora, se o Apóstolo nos diz a nós que oremos uns pelos outros, com muito mais razão podemos pedir a Maria que rogue por nós; porque muito mais agradável ao Senhor será a sua súplica, em virtude da sua dignidade de Mãe de Deus, da sua união mais estreita com Cristo, Deus e Homem verdadeiro, pela sua missão de corredentora com Cristo, e pela sua eminente santidade.

Voltando nós à dimensão bíblica e litúrgica da oração do Terço, vejamos agora a súplica que a Mensagem nos ensinou a rezar no fim de cada dezena. Tal súplica, no seu sentido, também a encontramos na Santa Missa, já que as rubricas litúrgicas nos mandam iniciar o Santo Sacrifício pela confissão dos nossos próprios pecados, e a oração ensinada por Nossa Senhora leva-nos a pedir o perdão desses pecados: « Ó meu Jesus, perdoai-nos, livrai-nos do fogo do Inferno, levai as almas todas para o Céu, principalmente as que mais precisarem» (Aparição de 13 de Julho de 1917).

«As que mais precisarem»: penso que serão aquelas que se encontram em maior perigo de condenação. Com esta oração, pedimos a Deus que nos aplique o fruto do Santo Sacrifício da Missa, que é a salvação das almas, com o perdão dos nossos pecados.

Assim, eu creio que, depois da oração litúrgica do Santo Sacrifício da Missa, a oração do santo Rosário ou Terço, pela origem e sublimidade das orações que o compõem e pelos mistérios da nossa redenção que recordamos e meditamos em cada dezena, é a oração mais agradável a Deus que podemos oferecer-Lhe e de maior proveito para as nossas almas. Se assim não fosse, Nossa Senhora não no-lo teria recomendado com tanta insistência.

A oração do santo Rosário ou Terço é a que mais tem sido recomendada por todos os Sumos Pontífices que, nos últimos séculos, serviram a Igreja, a começar por Gregório XIII, que, na Bula «Monete Apostolos», lhe, chama «saltério da Santíssima Virgem, que rezamos para aplacar a ira de Deus e implorar a intercessão da Santíssima Virgem» (1 de Abril de 1573).

Também Sisto V, na Bula «Dum ineffabilis», de 30 de Janeiro de 1586, chama ao Rosário o «saltério da gloriosa e sempre Virgem Maria, Mãe de Deus, instituído por inspiração do Espírito Santo».

Antes destes dois Papas, governara a Igreja S. Pio V. Este atribuíra à oração do Rosário a vitória de Lepanto, obtida pelos cristãos contra os turcos, a 7 de Outubro de 1571. Em ação de graças, mandou celebrar anualmente, nesse dia, a festa de Nossa Senhora das Vitórias, festa que o seu sucessor viria a designar como de Nossa Senhora do Rosário.

Cerca de trezentos anos depois desta guerra, servia a Igreja o Papa Pio IX. Este, no seu leito de morte, disse aos que o rodeavam: «O Rosário é um Evangelho compendiado e dará aos que o rezam aqueles rios de paz de que nos fala a Escritura; é a mais formosa devoção, a mais abundante em graças, e agradabilíssima ao Coração de Maria. Seja este, meus filhos, o meu testemunho para que vos lembreis de mim na terra» (Fevereiro de 1878). É maravilhoso como o grande Pontífice ligou a oração do Terço ao Coração Imaculado de Maria. Ou não fosse Ele o Pontífice da Imaculada, que fizera a proclamação dogmática da Imaculada Conceição de Maria, pela Bula «Ineffabilis Deus», em 1854!

Leão XIII, na Encíclica «Fidentem piumque», de 20 de Setembro de 1896, diz: «Na devoção do Rosário, Cristo ocupa o lugar principal; (…) por meio das orações vocais de que está formado, podemos expressar e professar a fé em Deus, nosso Pai providentíssimo, na vida eterna, no perdão dos pecados, e também nos mistérios da Augusta Trindade, do Verbo encarnado, da Maternidade divina, e noutros. Ora bem, ninguém ignora o grande valor e mérito da fé. A fé, efetivamente, outra coisa não é que uma escolhida semente que, no presente, produz flores de todas as virtudes que nos tornam agradáveis a Deus e dão frutos que duram para a vida eterna: pois que conhecer-Te é justiça consumada e o reco­nhecer a Tua justiça é virtude, é a raiz da imortalidade (citação de Sb 15,3)».

Admirável é a afirmação do Papa Leão XIII, segundo a qual a Santíssima Trindade e a obra de salvação realizada por Cristo estão no centro desta grande oração que é o Rosário ou Terço, constituindo este uma profissão de fé naqueles mistérios centrais da Doutrina Católica. É de grande valor espiritual a fé que na referida oração professamos e exercitamos. Por isso, o mesmo Sumo Pontífice, valendo-se das palavras do Apóstolo S. Paulo, diz: «Ora a fé, para que seja digna e perfeita, é necessário professá-la externamente, “porque com o coração se crê para alcançar a justiça e com a boca se confessa para alcançar a salvação” (Rm 10,10). Por isso, o Rosário oferece-nos oportunidade para esta profissão externa da fé».

Sua Santidade Pio XI diz-nos, na Encíclica «Ingravescentibus malis», de 29 de Setembro de 1937: «O Santo Rosário não é somente arma para derrotar os inimigos de Deus e da Religião, mas, sobretudo, promove e fomenta as virtudes evangélicas. E, em primeiro lugar, reanima a fé católica com a contemplação dos divinos mistérios e eleva o entendimento ao conhecimento das verdades reveladas por Deus». E dignou-se conceder a indulgência plenária à reza do Terço diante do Santíssimo Sacramento da Eucaristia.

O Santo Padre Pio XII, a 16 de Outubro de 1940, disse: «O Rosário é, pelo significado do seu nome, um colar de rosas; não daquelas rosas com as quais os ímpios se adornam com petulância, segundo a palavra da Escritura — “Coroemo-nos de rosas, antes que elas murchem!” (Sb 2,8) , mas de rosas cuja frescura é incessantemente renovada nas mãos dos devotos de Maria».

O Papa João XXIII, na sua Carta Apostólica sobre o Rosário, de 29 de Setembro de 1961, diz: «Aliás, este é o caráter da oração litúrgica do Missa! e do Breviário: cada uma das suas partes aparece marcada pelo “Oremus”, o que supõe pluralidade e multidão, tanto de quem ora como de quem espera ser ouvido e também para quem a oração se cumpre. É a multidão que ora, em unidade de súplica, por toda a fraternidade humana, religiosa e civil. O Rosário de Maria, portanto, é elevado à condição de uma grande prece, pública e universal, perante as necessidades ordinárias e extraordinárias da Santa Igreja, das nações e do mundo inteiro».

Aqui o Santo Padre reconhece à oração do Rosário aquela dimensão de pluralidade e universalidade, característica da oração litúrgica que são a Santa Missa e a Liturgia das Horas: «Aliás, este é o caráter da oração litúrgica do Missal e do Breviário». E diz que o Rosário é a súplica da multidão que ora pelas necessidades ordi­nárias e extraordinárias da Santa Igreja, das nações e do mundo: «É a multidão que ora, em unidade de súplica, por toda a fraternidade humana, religiosa e civil».

Sua Santidade Paulo VI, após a última votação dos Padres Conciliares a 21 de Novembro de 1964, promulgou a Constituição dogmática «Lumen gentium» sobre a Igreja, onde está escrito: «Muito de caso pensado, ensina o sagrado Concilio esta doutrina católica (do culto especial prestado pela Igreja a Maria), e ao mesmo tempo recomenda a todos os filhos da Igreja que fomentem gene­rosamente o culto da Santíssima Virgem, sobretudo o culto litúrgico, que tenham em grande estima as práticas e exercícios de piedade para com Ela, aprovados no decorrer dos séculos pelo Magistério, e que mantenham fielmente tudo aquilo que no passado foi decretado acerca do culto das imagens de Cristo, da Virgem e dos Santos» (LG 67).

Ao ler este Documento do Concilio Ecumênico Vaticano II, creio que ninguém, bem intencionado, pode negar que a oração do Rosário ou Terço não seja uma das principais práticas e exercícios de piedade mariana que, naquele momento, estivesse no espírito e no pensamento dos Padres Conciliares, como não pode negar que tal oração seja uma das práticas e exercícios da piedade que mais tenha sido recomendada e aprovada pelo Magistério da Igreja.

E o Papa Paulo VI publicou, a 2 de Fevereiro de 1974, a Exortação Apostólica «Marialis cultus», nela dedicando os números 42 a 55 à oração do santo Rosário ou Terço, confessando: «Nós próprios, desde a primeira audiência geral do nosso Pontificado, a 13 de Julho de 1963, temos tido ocasião de demonstrar a nossa grande estima pela piedosa prática do Rosário» (nº 42).

Afirma ter acompanhado, com ânimo atento, os convênios e investigações que, sobre esta devoção mariana, se iam realizando. «Mediante a reflexão contemporânea, puderam ser compreendidas com uma maior precisão as relações existentes entro a liturgia e o Rosário. (…) Se, em tempos não recuados, pôde surgir no espírito de alguns o desejo de ver o Rosário incluído no número dar expressões litúrgicas, e, pelo contrário, da parte dos outros, levados pela preocupação de evitar erros pastorais do passado, uma injustificada desatenção em relação ao mesmo Rosário, hoje o problema é facilmente solucionável, à luz dos princípios da Constituição “Sacrosanctum Concilium”. As celebrações litúrgicas e o pio exercício, do Rosário não se devem contrapor nem equiparar».

«Cada expressão de oração, na verdade, conseguirá ser tanto mais fecunda, quanto mais conservar a sua verdadeira natureza e a fisionomia que lhe é própria. Reafirmando, portanto, o valor proeminente dos atos litúrgicos, não será difícil reconhecer que o Rosário é um exercício de piedade que se harmoniza facilmente com a sagrada Liturgia. Como a Liturgia, efetivamente, também o mesmo Rosário tem uma índole comunitária, se nutre da Sagrada Escritura e gravita em torno do mistério de Cristo. Depois, muito embora em planos essencialmente diversos, anamnese na Liturgia e memória contemplativa no Rosário têm por objeto os maiores eventos “salvíficos” realizados por Cristo. A primeira torna presentes, sob o véu dos sinais, e operantes, de modo misterioso, os máximos mistérios da nossa Redenção; a segunda, por sua vez, com o piedoso afeto da contemplação, reevoca, na mente daquele que ora, esses mesmos mistérios e estimula nele a vontade para haurir aí normas de vida.

«Estabelecida esta diferença substancial, não há quem não veja ser o Rosário um pio exercício que à Liturgia foi buscar a sua motivação e que, se for praticado de acordo com a sua inspiração originária, a ela conduz naturalmente, sem, no entanto, transpor o seu limiar. A meditação dos mistérios do Rosário, de fato, ao tornar familiares à mente e ao coração dos fiéis os mistérios de Cristo, pode constituir uma ótima preparação, e vir a ser, depois, um eco prolongado da celebração dos mesmos mistériros nos atos litúrgicos. É erro, todavia (…) o recitar o Rosário durante a ação litúrgica» (nº 48).

Sua Santidade João Paulo II exprimia os seus sentimentos íntimos e vivência na oração do Santo Rosário, com estas palavras pronunciadas a 29 de Outubro de 1978: «Oração maravilhosa na simplicidade e na profundidade! Nesta oração, repetimos muitas vezes as palavras que a Virgem Maria ouviu ao Arcanjo e à sua parente Isabel. A estas palavras associa-se a Igreja inteira. (…) Ao mes­mo tempo o nosso coração pode incluir nestas dezenas do Rosário todos os fatos que formam a vida do indivíduo, da família, da nação, da Igreja a da humanidade. Acontecimentos pessoais e os do próximo, e de modo particular daqueles que nos estão mais vizinhos, que temos mais no coração. Assim a oração simples do Rosário marca o ritmo da vida humana. (…) Oração tão simples e tão rica! A todos exorto cordialmente a que a rezem».

A concluir este elenco de recomendações e apreço pelo santo Rosário, deixo-vos um testemunho eclesial. Na homilia que o Arcebispo de Colombo (Sri Lanca), Sua Eminência o Cardeal Cooray, fez em Fátima, no dia 12 de Agosto de 1967, falou da vida religiosa no Santuário, lá existente, em honra de Nossa Senhora de Fátima: «O nosso ideal é fazer da devoção no nosso Santuário uma contínua repetição da Mensagem de Fátima, ou seja, penitência e oração. Com esta finalidade, foram criadas duas instituições. De um lado do Santuário está o Convento das Irmãs Clarissas, cuja vida é feita de penitência e oração. Do outro lado existe o Convento de uma Congregação Diocesana constituída por Irmãs nativas chamadas do Rosário: o jejum e a abstinência diários, juntamente com o duro trabalho manual, fazem parte da sua vida de penitência. A sua oração especial é o Terço, dia e noite, exceto durante a Missa e a reza da Liturgia das Horas; as Irmãs revezam-se, duas a duas, na recitação do Rosário meditado, diante do Santíssimo Sacramento, de braços em cruz. O seu lema de vida é a autêntica personificação da Mensagem de Fátima, que é penitência e oração, especialmente o Rosário».

Aos que dizem que o Terço é uma oração antiquada e monótona, devido à repetição das orações que o compõem, eu pergunto Ihes se há alguma coisa que viva sem ser pela repetição continuada dos mesmos atos.

Deus criou tudo o que existe de modo a conservar-se pela repetição continuada e ininterrupta dos mesmos atos. Assim, para conservarmos a vida natural, inspiramos e expiramos sempre do mesmo modo; o coração bate continuamente seguindo sempre o mesmo ritmo. Os astros, como o sol, a lua, os planetas, a terra, seguem sempre a mesma rota que Deus lhes marcou. O dia sucede à noite, ano após ano, sempre do mesmo modo. A luz do sol alumia-nos e aquece-nos sempre da mesma forma. Em tantas plantas, brotam as folhas na Primavera, vestem-se depois de flores, dão frutos e voltam a perder as folhas no Outono ou Inverno.

E, assim, tudo o mais segue a lei que Deus lhe marcou, e ainda ninguém lhe ocorreu dizer que era monótono, por isso prescinde-se; é que precisamos disso para viver! Pois bem, na vida espiritual temos a mesma necessidade de repetir continuamente as mesmas orações, os mesmos atos de fé, de esperança e de caridade, para termos vida, visto que a nossa vida é uma participação continuada da vida de Deus.

Quando os discípulos pediram a Jesus Cristo que os ensinasse a orar, Ele ensinou-lhes, como vimos atrás, a bela fórmula do «Pai-Nosso», dizendo: «Quando orardes dizei: “Pai…”» (Lc 11,4). O Senhor mandou-nos rezar assim, sem nos dizer que, passado um certo número de anos, buscássemos nova fórmula de oração, porque esta teria passado a ser antiga e monótona.

Quando os namorados se encontram, passam horas seguidas a repetirem a mesma coisa: «amo-te!». O que falta aos que acham a oração do Terço monótona é o Amor; e tudo o que não é feito por amor não tem valor. Por isso, nos diz o Catecismo que os dez Mandamentos da Lei de Deus se encerram num só, que é amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a nós mesmos.

Os que rezam diariamente o seu Terço são como os filhos que todos os dias dispõem de alguns momentos para ir até junto de seu pai, para lhe fazer companhia, manifestar-lhe o seu agradecimento, prestar-lhe os seus serviços, receber os seus conselhos e a sua bênção. É o intercâmbio e a troca do amor, do pai para com o filho e deste para com o pai, é a dádiva mútua.

Ave-Maria!

(*) Texto selecionado do livro Apelos da Mensagem de Fátima, de Irmã Lùcia. pp. 267-726. Carmelo de Coimbra.

         

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Uma ideia sobre “Fátima 1917 — 2017: Meditando o Santo Rosário com a Irmã Lúcia (Parte I)

  • 7 de janeiro de 2017 em 20:35
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    Meu Senhor, dai-nos forças para rezar o rosário todos os dias de nossas vidas.

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