Pouco a pouco, a Escócia está a abrir-se à liturgia tradicional, como o prova o dinamismo dos fiéis da paróquia de Santa Maria de Cleland, na diocese de Motherwell

Paix Liturgique | Carta 75: «Nunca um dos nossos paroquianos mostrou algum desejo de que se reintroduzisse a missa tradicional, e muitos até disseram o contrário.» Esta declaração pública do chanceler da arquidiocese de Glasgow, em Janeiro de 2010, levara uma leitora escocesa de “Paix Liturgique” a escrever-nos para nos sugerir que levássemos a cabo uma sondagem sobre a recepção do motu próprio de Bento XVI. Ao tempo, acolhemos a sugestão e encomendámos a sondagem em Junho de 2010 ao “Instituto Harris Interactive”.

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Os resultados desta sondagem, publicados na nossa carta 8, a 3 de Setembro de 2010, indicavam que um quarto dos católicos da Inglaterra, Escócia e País de Gales assistiriam pelo menos uma vez por mês à forma extraordinária do rito romano, se fosse celebrada na própria paróquia. Por entre os praticantes, os que se declaravam dispostos a isso atingiam mesmo os 2 em cada 3 (66,5 %). Um resultado que está em sintonia com a sensibilidade litúrgica de além-Mancha – a mesma sensibilidade que, desde 1971, lhes havia granjeado o famoso indulto “Agatha Christie”, que abrira uma primeira brecha na força obrigatória do Missal de Paulo VI. Todavia, o inquérito revelou também que 6 católicos britânicos em cada 10 não tinham tido conhecimento do motu proprio Summorum Pontificum, uma consequência do embargo sobre este assunto organizado pela hierarquia eclesiástica, de que as declarações do chanceler de Glasgow eram um sinal…

Agora que são passados seis anos, todos os bispos escoceses (oito no total) foram substituídos: dois por Bento XVI e seis pelo Papa Francisco. E, pouco a pouco, a Escócia está a abrir-se à liturgia tradicional, como o prova o dinamismo dos fiéis da paróquia de Santa Maria de Cleland, na diocese de Motherwell.


I – Para o bem espiritual dos fiéis

O que nos chamou a atenção foi um vídeo no Facebook sobre a celebração semanal, às quintas à tarde, da forma extraordinária do rito romano na igreja de Santa Maria de Cleland, uma pequena vila nos arredores de Motherwell. Esta reportagem, realizada por um grupo de jovens católicos da diocese, exibe imagens captadas durante uma missa e dá a palavra ao celebrante, o Pe. Liam O’Connor, ordenado em 2011. Até aqui, nada de extraordinário – à parte, claro está, a própria liturgia –, não fora o caso de, em poucos dias, este vídeo ter sido o mais visto de todos os que eram apresentados por estes jovens repórteres.

Entrámos então em contacto com o autor do filme, John Paul Mallon, de 25 anos, e membro de uma paróquia vizinha de Cleland: «Como jovem católico, o que me atrai é a paz e a serenidade que exalam da missa baixa tradicional. Sinto-me espiritualmente imerso nas grandes tradições da Igreja. O facto de que o sacerdote celebre ad orientem, que esteja voltado para Deus junto comigo, leva-me a participar mais profundamente no mistério eucarístico.»

Em Junho de 2016, o Pe. O’Connor, que tem a seu cargo as 1350 almas da paróquia de Cleland, começou a oferecer esta missa semanal. «O meu bispo, Mons. Toal (nomeado em 2014 pelo Papa Francisco, n.d.r.), chamou-me para me perguntar se eu gostaria de oferecer publicamente a forma extraordinária. Tratava-se de dar resposta ao pedido de um grupo estável de fiéis, cujo sacerdote, o cónego Glackin, havia sido chamado para Deus em Janeiro de 2016. Desde 1997, este sacerdote diocesano celebrava a liturgia tradicional todas as primeiras sextas do mês em Uddingston, a 10 km de Cleland.»

O Pe. O’Connor havia chegado a Cleland em 2015, e foi de muito boa-vontade que aceitou o convite do seu bispo: «Descobri a missa tradicional quando tinha cerca de 18 anos e, como sacerdote, sempre tive o desejo de a celebrar. Depois da minha ordenação, em 2011, aprendi as rubricas e comecei a celebrar em privado sempre que possível.»

A média da assistência a esta missa, celebrada às 19 horas, é de cerca de 30 fiéis, «o que é um bom número para uma missa à tarde», precisa o jovem sacerdote. «Se quisermos comparar a assistência durante a semana, a de uma missa de manhã em forma ordinária é de cerca de quarenta pessoas. O que é certo é que», acrescentou, «esta missa atrai muitos jovens, desejosos de viver a missa que marcou séculos de história na Igreja.»

Ainda que, neste momento, não esteja previsto oferecer a forma extraordinária aos domingos, o Pe. O’Connor congratula-se com o apoio oferecido pelo bispo, e está convencido de que, «apesar de o motu proprio não ter sido promovido de modo particular junto do clero escocês, há um número significativo de fiéis que deseja participar nesta celebração».

II – As reflexões da “Paix liturgique”

1) Os resultados pormenorizados da sondagem Harris Interactive de 2010 relativa à Escócia mostram que 1 em cada 3 católicos (praticantes ou não) diziam-se dispostos a, pelo menos uma vez por mês, participar na forma extraordinária do rito romano. Lembremos que a resposta registada em Portugal era de apenas 14,2% (ver aqui). À época, como confirma o Pe. O’Connor, nem os bispos nem os sacerdotes estavam particularmente inclinados a garantir a sua difusão. Hoje, depois de o corpo episcopal ter sido inteiramente renovado, e tendo paróquias do País recebido jovens sacerdotes marcados pelos ensinamentos de Bento XVI, não será desavisado afirmar que esta proporção de católicos abertos aos benefícios do motu proprio Summorum Pontificum é ainda maior do que era então.

2) «Entretanto, vê-se claramente que também pessoas jovens descobrem esta forma litúrgica, sentem-se atraídas por ela e nela encontram uma forma que lhes resulta particularmente apropriada», escrevia Bento XVI aos bispos de todo o mundo na sua carta de 7 de Julho de 2007, que acompanhava o motu proprio Summorum Pontificum. É precisamente isso o que se passa em Cleland e, mais em geral, em toda a Escócia. Sábado 12 de Novembro, a missa anual de Requiem da secção escocesa da Una Voce – que, em 2008, reunia trinta pessoas – atraiu mais de 75 fiéis, muitos dos quais jovens. É também o interesse da juventude escocesa pela liturgia tradicional que permite explicar o sucesso obtido pelo vídeo realizado por John Paul Mallon.

3) Em 2010, além das duas missas celebradas pela Fraternidade de São Pio X, em Edimburgo e Glasgow, a Escócia podia ainda contar com mais três missas dominicais segundo o missal de São João XXIII: uma diocesana, em Glasgow (Una Voce), e duas Ecclesia Dei (Fraternidade de São Pedro, em Edimburgo, e os Redentoristas Transalpinos, nas ilhas Orcades). Hoje, há mais duas, uma celebrada pelos sacerdotes do Sagrado Coração (Dehonianos), no condado de Ayrshire, e a outra numa paróquia de Glasgow. Esta paróquia do Coração Imaculado de Maria é a primeira paróquia escocesa onde se celebra a missa tradicional não apenas ao domingo, mas também durante a semana, à excepção de segundas e sextas. E os fiéis marcam a sua presença.

4) A última ilustração do dinamismo cheio de juventude do povo Summorum Pontificum escocês pôde ver-se no dia 20 de Agosto passado, quando o Pe. Ninian Doohan, ordenado a 15 de Agosto de 2016 para a diocese de Dunkeld (Dundee), escolheu a forma extraordinária do rito romano para a celebração da sua “Missa Nova”. O acontecimento assume um significado ainda maior, se considerarmos que, entre 2002 e 2004, a diocese de Dunkeld não tinha tido qualquer ordenação! Na Escócia como noutros lugares, a juventude da Igreja é, de facto, extraordinária!…

Publicado originalmente: Paix Liturgique – Escócia: a juventude da tradição 

         

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Uma ideia sobre “Escócia: A Juventude da Tradição

  • 2 de janeiro de 2017 em 17:20
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    Viva Deus! Viva Marcel Lefrebvre! Viva Bento XVI!

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