Virão dias, nos diz Soloviev, quando na cristandade se tenderá a dissolver o fato salvífico, que só pode ser aceito por ato difícil, corajoso, concreto e racional da fé, numa série de “valores” facilmente trocados nos mercados mundanos

Sensus fidei: O Anticristo, descrito pelo filósofo e teólogo russo Vladimir Sergeevic Soloviev no seu último livro Breve Conto Sobre o Anticristo, escrito pouco antes da sua morte, em 1900, no capítulo “Os três diálogos e a narrativa do Anticristo”, resume-se:

O Anticristo era – diz Soloviev – “um espiritualista convicto”. Acreditava no bem e até em Deus. Era um asceta, um estudioso, um filantropo. Dava “altíssimas demonstrações de moderação, de desinteresse e de ativa beneficência”.

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Na sua primeira juventude se destacara como douto e arguto exegeta: uma sua volumosa obra de crítica bíblica lhe havia propiciado um diploma de honra na universidade de Tubinga.

Mas o livro que lhe dera fama e consenso universal leva o título: “O caminho aberto para a paz e a prosperidade universal”, onde “se unem o nobre respeito às tradições e símbolos antigos com um vasto e audaz radicalismo de exigências e diretivas sociais e políticas, uma liberdade sem limites de pensamento com a mais profunda compreensão de tudo aquilo que é místico, o absoluto individualismo com uma ardente dedicação ao bem comum, o mais elevado idealismo com princípios e diretivas com a precisão completa e a vitalidade das soluções práticas”.

É verdade que alguns homens de fé se perguntavam por que nenhuma vez fora pronunciado o nome de Cristo; mas os outros replicavam: “Uma vez que o conteúdo do livro se encontra permeado do verdadeiro espírito cristão, do amor ativo e da boa disposição universal, o que vocês querem mais?”.

Por outro lado, ele “não tinha por Cristo uma hostilidade de princípio”. Pelo contrário, reconhecia a reta intenção e o elevadíssimo ensinamento.

Porém, três coisas de Jesus lhe eram inaceitáveis.

Antes de tudo as suas preocupações morais. “Cristo – afirmava ele – com o seu moralismo dividiu os homens segundo o bem e o mal, enquanto eu os unirei com os benefícios que são igualmente necessários aos bons e aos ruins”.

Depois não aceitava “a sua absoluta unicidade”. Ele é um dos tantos; ou melhor, dizia, foi o meu precursor, porque o salvador perfeito e definitivo sou eu, que purifiquei a sua mensagem daquilo que é inaceitável ao homem de hoje.

Finalmente, e principalmente, não podia suportar o fato que Cristo estivesse vivo, tanto que histericamente repetia: “Ele não está entre os vivos e nunca estará. Não ressuscitou, não ressuscitou, não ressuscitou. Ele apodreceu, apodreceu no sepúlcro…”.

Mas onde a exposição Soloviev se mostra mais especialmente original e surpreendente – e merece a mais profunda reflexão – é atribuir ao Anticristo os qualificados de pacifista, ecologista ecumenista. […].

Virão dias, nos diz Soloviev, – ou melhor, já vieram, dizemos nós – quando na cristandade se tenderá a dissolver o fato salvífico, que só pode ser aceito por ato difícil, corajoso, concreto e racional da fé, numa série de “valores” facilmente trocados nos mercados mundanos.

Cf. Giacomo Biffi, “Pinocchio, Peppone, l’Anticristo e altre divagazioni”,  Cantagalli, Siena, 2005, pp. 256, euro 14,90. Citado e comentado por Sandro Magister in “Pericolo Anticristo! Il cardinale Biffi dà la sveglia alla Chiesa”.
http://chiesa.espresso.repubblica.it/articolo/32418

O Anticristo de Soloviev: “Cristo, com o seu moralismo dividiu os homens segundo o bem e o mal, enquanto eu os unirei com os benefícios que são igualmente necessários aos bons e aos ruins”

Uma ideia sobre “O Anticristo de Soloviev: “Cristo, com o seu moralismo dividiu os homens segundo o bem e o mal, enquanto eu os unirei com os benefícios que são igualmente necessários aos bons e aos ruins”

  • 11 de dezembro de 2016 em 11:31
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    É assustador constatar que vivemos estes dias.

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