A infalibilidade papal está entre as mais mal compreendidas das doutrinas católicas. Corretamente entendida, o Papa é infalível, isto é, preservado do erro de ensino quando, e somente quando, certas condições específicas são atendidas

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Pe. Linus Clovis – LifeSiteNews – 21 de outubro de 2016 | Tradução Sensus fidei: — Pela graça de Deus, sou católico; pela Sua misericórdia católico morrerei. Eu sei que, enquanto a primeira condição é um puro dom, a segunda depende de minha cooperação livre e disposta com a graça, de minha perseverança na Fé, superando o que me foi dado, combatendo o bom combate com a consciência limpa e perseverante na Fé até o fim. Isso, é claro, também se aplica a todos nós.

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“Efeito Francisco”: Porque o Papa é tão amado pelos inimigos de Cristo e da Igreja?

No ano passado, eu falei no Fórum da Vida em Roma sobre o “Efeito Francisco”. A conversa, para minha surpresa, de uma forma ou de outra, acabou na Internet onde, em sua maior parte, as reações geradas foram favoráveis; e uma fonte de um punhado de comentários de desaprovação… Deixo por conta de sua imaginação. Foi na fase inicial de euforia que primeiro recebi e aceitei prontamente o convite para falar na Catholic Truth Scotland Conference, mas, como o tempo se aproximava, comecei a ter dúvidas, por não ser autenticamente católico comprazer-se em depreciar algum documento papal, e muito menos criticar um Soberano Pontífice reinante. No entanto, agora vivemos em tempos de desespero, tempos de massiva confusão em que “os estandartes das trevas estão corajosamente desfraldados”, então, afastemos as dúvidas e falemos aberta e claramente em defesa de nossa santa Fé, para a glória de Deus e a salvação das almas.

A Igreja

Desde os tempos antigos, a Igreja tem sido conhecida como a Barca de Pedro. Por esta razão, muitas vezes ela tem sido descrita como um navio navegando sobre os mares da história. Às vezes, ventos calmos enchem suas velas e Ela desliza sobre as ondas com uma graça sublime e serena. Outras vezes, no entanto, uivam os ventos, o mar se agita com ondas espumantes, relâmpagos cruzam os céus, trovões alarmam os marinheiros, e a barca parece prestes em ir a pique.

Desde que o Senhor teve que sofrer muitas coisas antes de entrar na sua glória e que São Paulo pudesse declarar que é necessário para nós passarmos “através de muitas tribulações [antes] de entrar no reino de Deus”, não deve ser nenhuma surpresa para a Igreja, que não está acima de seu Mestre, julgar-se isenta de sofrimentos, aflições e tribulações. A Igreja, ao longo de seus 2000 anos de história, tem experimentado tribulações externas e internas. Ela não só tem sido fustigada por um definitivo estado de perseguição, mas, também, tem sido dilacerada pelas grandes heresias cristológicas, ferida pela revolução protestante e, finalmente, em nosso tempo, devastada pelo Modernismo, síntese de todas as heresias. O Modernismo tenta substituir as verdades absolutas e imutáveis com declarações que corresponderiam mais com a experiência vivida dos indivíduos, especialmente as experiências emocionais e sentimentais.

A Igreja como Corpo Místico de Cristo

A Igreja tem sido definida como o Corpo Místico de Cristo: uma imagem encontrada nas cartas de São Paulo aos Romanos, Coríntios, Efésios e Colossenses. Esta imagem expressa sucintamente a união e a relação que existe entra cada membro da Igreja com Cristo e também uns para com os outros. Os místicos e a própria Igreja reconheceram o paralelo entre a formação de Eva do lado de Adão, enquanto ele dormia, e a Igreja, sendo formada a partir do lado trespassado de Cristo, enquanto Ele dormia o sono da morte na Cruz.

Como um corpo vivo, físico, o Corpo Místico, a fim de crescer e se desenvolver, teve de superar diversas crises. Os quatro maiores traumas vivenciados pelo Corpo Místico seriam a quarta heresia Ariana do IV século, a controvérsia das investiduras no século XI, a revolução Protestante do século XVI e a infiltração Modernista atual, em que cada qual ataca a própria natureza da Igreja.

Cristo chamava a Si mesmo a videira e Seus membros os ramos. Com esta imagem, Ela seria o esqueleto do Corpo Místico com Seus membros sendo os vários órgãos, conforme São Paulo afirma na Carta aos Coríntios. Biblicamente, os ossos simbolizam a incorruptibilidade, desde que permanecem mesmo quando, após a morte, a carne tenha deteriorado. Com esta analogia, a negação da divindade de Cristo de Ário é equivalente a um ataque contra o esqueleto do Corpo Místico, o qual seria, então, na melhor das hipóteses, reduzido apenas a mais uma religião criada pelo homem. Embora o conflito fosse longo e amargo e muitos bispos vacilantes tenham sucumbido ao arianismo, a verdade da divindade de Cristo e, com isso, a indefectibilidade da Igreja foi estabelecida por Santo Atanásio.

O conflito do século XI entre a Igreja e o Estado, isto é, entre os sacerdotes e os príncipes, é conhecida como a controvérsia das Investiduras. Príncipes seculares e, em particular, o imperador reivindicavam o direito de escolher homens para o episcopado e até mesmo para o escritório papal. Usando a analogia do corpo físico, isso pode ser descrito como um ataque contra os músculos da Igreja, já que ela seria reduzida a nada mais do que um fantoche do Estado. No entanto, Deus, operando através dos reformadores de Cluny, na devida altura, trouxe o grande Hildebrand para o trono papal onde, como Gregório VII, lutou tenazmente e sofreu para restabelecer a independência da Igreja do Estado.

A revolta Protestante do século XVI, liderada por Martinho Lutero e João Calvino, procurou não só mudar o ensinamento da Igreja sobre a graça e os Sacramentos, mas, também, minar a autoridade de seu ensino divinamente constituído. Seu ataque sobre os Sacramentos, através dos quais a graça é conferida, era o equivalente a remover os órgãos internos vitais do Corpo Místico, o que teria efetivamente reduzido a Igreja a mais uma entre muitas seitas.

No nosso tempo, a Igreja enfrenta seu maior desafio no seu confronto com o Golias do Modernismo. Este, o Papa São Pio X, em Sua encíclica Pascendi Dominici Gregis, de 1907, identificou e condenou como a “síntese de todas as heresias”.

As origens do modernismo

O Modernismo é filho de certas tendências predominantes no Protestantismo liberal do século XIX e na filosofia secular. Com centros em França, Inglaterra, Itália e Alemanha, o espírito do Modernismo foi alimentado pelos estudos de Kant e Hegel, por teólogos liberais protestantes e críticos bíblicos, tais como von Harnack, pelas teorias evolucionistas de Darwin, e em certos movimentos políticos liberais na Europa.

As duas raízes do modernismo são a Revolução Protestante e o Iluminismo.

1. A Revolução Protestante. No coração da Revolução Protestante está a rejeição ao Magistério da Igreja, tal como estabelecido por Cristo em favor de cada indivíduo agindo como autoridade suprema, e desse modo, definindo todas as questões de fé e moral por si mesmo.

2. O Iluminismo. O Iluminismo rejeitou toda a revelação divina e exaltou a capacidade do homem, usando a razão por si só, para determinar o que é verdade em matéria de fé e moral. Isto finalmente conduziu à visão Modernista de que a verdade deve ser determinada pelo indivíduo e não por Deus ou pelo Magistério da Igreja.

Dois luminares do Modernismo na Igreja Católica foram Pe. Alfred Loisy, um teólogo francês e erudito das Escrituras, e Pe. George Tyrrell, um protestante de origem irlandesa que se tornou católico e jesuíta, embora tenha sido demitido dos Jesuítas em 1906. Estes homens finalmente foram excomungados por sua adoção do Modernismo.

Ideias Modernistas

Uma vez que não tem nenhum credo oficial, o Modernismo é difícil de definir. No entanto, há alguns componentes básicos pelos quais ele pode ser identificado. O Modernismo sustenta que

1. Todas as religiões são iguais. O Modernismo é sincretista. Ou seja, para o modernista, não importa se a pessoa é católica, muçulmana, hindu, wiccana ou encantador de serpente; Tudo o que importa é que seja religioso de alguma forma, uma vez que todos os caminhos religiosos levam a Deus.

2. A religião não se assenta sobre dogma, mas sobre sentimentalismo e sentimentos. Para o modernista, a religião é essencialmente, o que faz você se sentir bem. Se o cristianismo ou qualquer outra religião, faz você se sentir bem e estar mais em contato com o Divino, então, ela é a verdade para você. Em outras palavras, a religião não consiste em credos ou verdade objetiva, mas, sim de sentimentos.

3. O Jesus histórico não é necessariamente o Jesus dos Evangelhos. Isto significa, de acordo com o modernista, que a partir de uma perspectiva histórica as Escrituras não são necessariamente confiáveis. Por exemplo, o modernista diria que Jesus não poderia ter literalmente ressuscitado dentre os mortos. De acordo com esta visão, a Ressurreição mencionada nas Escrituras foi essencialmente o modo como os Apóstolos escolheram para comunicar a crença de que Jesus continua a viver em nossos corações, depois de Sua crucificação.

4. Evolução da doutrina. O modernista sustenta que em séculos anteriores, os dogmas de Fé, tais como os dogmas da Santíssima Trindade, eram verdadeiros, mas, uma vez que o dogma evolui, já não podem ser verdadeiros hoje. Para o modernista, o dogma evolui para tudo o que acomoda às necessidades da cultura atual.

5. Conotações de terminologia. Os modernistas mantêm a terminologia ortodoxa, mas mudam o significado dos termos. Assim, palavras como “Deus”, “Ressurreição”, “Trindade” e “salvação” são todas utilizadas pelos modernistas. No entanto, o que os modernistas querem dizer e compreender com estes termos é totalmente diferente do que a igreja entende e tradicionalmente tem ensinado. Por esta razão, os modernistas poderão parecer ortodoxos, mas, peneirando cuidadosamente o significado da terminologia que empregam, sua verdadeira natureza é logo descoberta.

6. Secularismo e outros princípios iluministas. O secularismo repousa no princípio de que, uma vez que a causa e o foco da religião estão nos sentimentos dos crentes, nenhuma suposição razoável ou científica de sua verdade pode ser feita. Assim, em qualquer estado determinado, todas as religiões são iguais e, em princípio, uma religião não deve ser favorecida em detrimento de outra. Portanto, o melhor curso de ação na política e outros campos cívicos é seguir qualquer fluxo de um entendimento comum do “bom” por vários grupos e religiões. Por implicação, a Igreja e o Estado devem estar separados e as leis deste último, por exemplo, a proibição do assassinato, devem abranger apenas o terreno comum dos sistemas de pensamento sustentado pelos vários grupos religiosos…

A posição final do Modernismo é que o conteúdo dos dogmas da Igreja não permanece o mesmo para todos os tempos, mas, em vez disso, evolui ao longo do tempo, mudando não só em sua expressão, mas também em sua substância. Este postulado é responsável pela singularidade do Modernismo na história das heresias da Igreja. Por definição, um herege é alguém que acredita e ensina princípios em desacordo com o que a Igreja acredita. Isto normalmente levaria a excomunhão da Igreja. Usando a nova ideia de que as doutrinas evoluem, é agora possível para o modernista aceitar tanto os ensinamentos tradicionais da Igreja e seus novos ensinamentos, aparentemente contraditórios, como sendo igualmente corretos — cada grupo tendo o seu próprio tempo e lugar. Este sistema permite praticamente qualquer tipo de nova crença que o modernista em questão possa desejar introduzir e, por esse motivo, o Modernismo foi definido pelo Papa Pio X como “a síntese de todas as heresias”.

Com esse entendimento, o Modernismo agora é facilmente reconhecido como uma heresia que ataca a mente do Corpo Místico, para que os líderes da Igreja se comportem esquizofrenicamente e os leigos atuem como que acometidos de alguma forma de demência. Além disso, não só faz com que ambos os grupos se esqueçam quem eles são, mas igualmente torna-os completamente incapazes de transmitir em plenitude a Fé e a identidade católica para as gerações seguintes.

Pedro e seus sucessores

No Gênesis, lemos que “o Senhor Deus tomou o homem e o colocou no jardim do Éden para que o cultivasse e o guardasse”. Ou seja, Deus atribuiu a Adão duas tarefas: primeiramente a de cultivar o jardim e, em segundo lugar, ele deveria guardá-lo. Seu fracasso na segunda tarefa deu à serpente sua oportunidade. Cristo confiou a Simão Pedro a liderança visível da Igreja com a dupla tarefa de alimentar e cuidar do rebanho. Isto é, como um bom pastor, ele deve guardar, proteger e pregar a fé para o rebanho e assim mantê-lo resguardado do erro e do engano. Nosso Senhor, na Última Ceia, advertira Pedro que a serpente já espreitava e apenas esperava uma oportunidade para atacar. Especificamente, com palavras que expressam o que Satanás tanto desejava e o que Deus permitira, Cristo disse: ” Simão, Simão, eis que Satanás vos reclamou para vos peneirar como o trigo; mas eu roguei por ti, para que a tua confiança não desfaleça; e tu, por tua vez, confirma os teus irmãos”. Deus permitira esta prova por pelo menos duas razões. Em primeiro lugar, para que os apóstolos pudessem entender como eram fracos em si mesmos e, segundo, que depois de sua queda, eles iriam se ergueriam novamente por Sua graça e seriam limpos e purificados como trigo peneirado. A queda de Pedro foi seguida por seu sincero arrependimento e, assim, Cristo não somente concedeu-lhe misericórdia, mas, também, confirmou a liderança de Pedro sobre os outros Apóstolos e sobre toda a Igreja.

Vigilância papal

O lento desenvolvimento do Modernismo, cuja principal tática é o uso de ambiguidade e confusão para espalhar erros letais, foi monitorado pelos papas do século XIX. Assim, o Papa Pio VI levanta a máscara do Modernismo em sua Bula Auctorem Fidei: para não chocar os ouvidos dos católicos, os inovadores procuraram esconder as sutilezas de suas manobras tortuosas pelo uso de palavras aparentemente inócuas, que lhes permitiria insinuar o erro nas almas da maneira mais suave. Uma vez que a verdade estava comprometida, poderiam, por meio de pequenas alterações ou adições na fraseologia, distorcer a confissão da Fé que é necessária para a nossa salvação, e conduzir os fiéis por erros sutis à sua condenação eterna. Esta maneira de dissimular e mentir é viciosa, independentemente das circunstâncias sob as quais ela é usada. Por muito boas razões, nunca pode ser tolerada em um Sínodo cuja glória principal consiste sobretudo em ensinar a verdade com clareza e excluir todo o perigo de erro.

Além disso, se tudo isso é pecaminoso, não pode ser desculpado de maneira que ninguém veja isso sendo feito, sob o errôneo pretexto de que as afirmações aparentemente chocantes em um lugar são mais desenvolvidas ao longo das linhas ortodoxas em outros lugares, e mesmo ainda em outros lugares corrigidas; como se permitindo a possibilidade de afirmar ou negar a declaração, ou deixá-la conforme as inclinações pessoais do indivíduo — tal sempre foi o método fraudulento e ousado utilizado pelos inovadores para estabelecer o erro. Permite tanto a possibilidade de promover o erro quanto a de desculpá-lo.

É a mais repudiável técnica para a insinuação de erros doutrinários e condenada há muito tempo pelo nosso predecessor São Celestino, que a encontrou aplicada nos escritos de Nestório, bispo de Constantinopla, que foi exposto e confundido, pois se expressava por meio de uma infinidade de palavras, misturando coisas verdadeiras com outras obscuras; misturando-as, às vezes, umas com as outras, de tal forma que ele podia também confessar aquelas coisas que foram negadas, enquanto, ao mesmo tempo, possuía uma base para negar aquelas sentenças que ele professava.

Tendo claramente identificado o Modernismo como um movimento, São Pio X viu-se profundamente preocupado com a sua capacidade de permitir que seus adeptos se acreditassem leais católicos, enquanto sua noção de evolução do dogma permitia-lhes ter uma compreensão marcadamente diferente da fé tradicional. Por isso, ele condenou seus objetivos e ideias no documento Lamentabili e em sua encíclica Pascendi, onde sessenta e cinco proposições foram identificadas como heresias modernistas. Então, em 1910, ele seguiu com a introdução de um juramento anti-modernista, que devia ser tomado por todos os bispos católicos, sacerdotes e professores acadêmicos de religião. Contido assim, o Modernismo permaneceu subterrâneo, até que, como o gênio na garrafa, foi libertado na esteira do Vaticano II.

São Pio X viu claramente que os inimigos da Igreja não só tinham aumentado, mas também penetrado os seus muros: ” há mister confessar que nestes últimos tempos cresceu sobremaneira o número dos inimigos da Cruz de Cristo, os quais, com artifícios de todo ardilosos, se esforçam por baldar a virtude vivificante da Igreja e solapar pelos alicerces, se dado lhes fosse, o mesmo reino de Jesus Cristo”.

“Não se afastará, portanto, da verdade quem os tiver como os mais perigosos inimigos da Igreja. Estes, em verdade, como dissemos, não já fora, mas dentro da Igreja, tramam seus perniciosos conselhos; e por isto, é por assim dizer nas próprias veias e entranhas dela que se acha o perigo, tanto mais ruinoso quanto mais intimamente eles a conhecem. Além de que, não sobre as ramagens e os brotos, mas sobre as mesmas raízes que são a Fé e suas fibras mais vitais, é que meneiam eles o machado. Batida pois esta raiz da imortalidade, continuam a derramar o vírus por toda a árvore, de sorte que coisa alguma poupam da verdade católica, nenhuma verdade há que não intentem contaminar”.

O Papa João XXIII, no entanto, viu as coisas de forma diferente e, rejeitando as admoestações de seus antecessores sobre os perigos da Modernidade, declarou em seu discurso de abertura no Concílio Vaticano II:

No exercício cotidiano do nosso ministério pastoral ferem nossos ouvidos sugestões de almas, ardorosas sem dúvida no zelo, mas não dotadas de grande sentido de discrição e moderação. Nos tempos atuais, elas não vêem senão prevaricações e ruínas; vão repetindo que a nossa época, em comparação com as passadas, foi piorando; e portam-se como quem nada aprendeu da história, que é também mestra da vida, e como se no tempo dos Concílios Ecumênicos precedentes tudo fosse triunfo completo da ideia e da vida cristã, e da justa liberdade religiosa.

Mas parece-nos que devemos discordar desses profetas da desventura, que anunciam acontecimentos sempre infaustos, como se estivesse iminente o fim do mundo.

No presente momento histórico, a Providência está-nos levando para uma nova ordem de relações humanas, que, por obra dos homens e o mais das vezes para além do que eles esperam, se dirigem para o cumprimento de desígnios superiores e inesperados; e tudo, mesmo as adversidades humanas, dispõe para o bem maior da Igreja.

Ao iniciar-se o Concílio Ecumênico Vaticano II, tornou-se mais evidente do que nunca que a verdade do Senhor permanece eternamente. De fato, ao suceder uma época a outra, vemos que as opiniões dos homens se sucedem excluindo-se umas às outras e que muitas vezes os erros se dissipam logo ao nascer, como a névoa ao despontar o sol. A Igreja sempre se opôs a estes erros; muitas vezes até os condenou com a maior severidade. Agora, porém, a esposa de Cristo prefere usar mais o remédio da misericórdia do que o da severidade. Julga satisfazer melhor às necessidades de hoje mostrando a validez da sua doutrina do que renovando condenações”.

Os últimos cinquenta anos, desde o encerramento do Concílio, viram uma mudança radical na Igreja Católica, na medida em que hoje ela não pode ser facilmente reconhecida como a mesma instituição de qualquer século anterior, tão profundamente o Concílio afetou todos os aspectos da vida e prática da Igreja.

A atribulada história do papado mostra, nas palavras de São Vicente de Lerins, que “Deus dá alguns Papas à Igreja, Deus tolera alguns Papas na Igreja e Deus inflige alguns Papas à Igreja”. Isto certamente é uma visão que o Papa emérito Bento XVI subscreve. Talvez seja suficiente recordar a famosa entrevista concedida em 1997 ao professor August Everding, que perguntou ao então cardeal Ratzinger se ele realmente acreditava que o Espírito Santo intervém na eleição de um Papa. A resposta de Ratzinger foi simples e esclarecedora, como de costume: “Eu diria não no sentido de que o Espírito Santo escolhe um Papa em particular, porque há muitas evidências em contrário — houve muitos que o Espírito Santo obviamente não teria escolhido! Mas, que Ele não abandona completamente o controle, mas, sim, como um bom educador mantém-nos em um cordão muito longo, por assim dizer, permitindo-nos uma grande liberdade, mas nunca desatando o cordão — é assim que eu diria. Isso precisa ser tomado em um sentido muito amplo e não como se Ele dissesse: ‘Você tem que escolher este!’ O que Ele permite, no entanto, é limitado ao fato de que tudo não pode ser completamente arruinado.”

Não há dúvida de que a Igreja está atualmente em um estado de profunda crise, que foi trazida à tona pelo atual Pontífice. Como a ascensão de Davi ao trono foi uma bênção para os israelitas e a de Saul ou Roboão, filho de Salomão, um castigo, então, podemos estar certos de que Deus dá cada um dos sucessores do Abençoado Pedro à Igreja o Papa mais adequado para aquele determinado tempo.

Creio que Francisco, sem dúvida, é um Papa adequado para o nosso tempo, ele que, em três anos, abriu os olhos de muitos para as doenças que afligem o Corpo Místico de Cristo. Sem dúvida, ele está promovendo ideias que provocam tais distúrbios dentro da Igreja que parecem ser uma maneira muito eficiente de separar as ovelhas das cabras. Em contraste com a recepção dada a seus predecessores, mesmo seus antecessores imediatos, é evidente que todos os inimigos tradicionais da Igreja o aplaudem, reconhecendo-o como um dos seus.

Suas ações têm o efeito de revelar a extensão da podridão do Modernismo dentro das estruturas de poder da Igreja. Talvez, o exemplo mais notório disso seja a confiança com que os Cardeais Godfried Danneels e Walter Kasper puderam abertamente e publicamente admitir fazer parte da Máfia do Clube de St. Gallen.

O Santo Padre parece ser a própria personificação do Concílio Vaticano II, com suas múltiplas ambiguidades, em que o entendimento ou a prática tradicionais da Igreja são afirmadas em um só lugar, apenas em outro lugar, para ser imediatamente contradita ou neutralizada pelas alternativas que vão sendo permitidas. Além disso, o Concílio Vaticano II tem a distinção de ser o único Concílio Ecumênico na história da Igreja a conquistar a aprovação mundial e, da mesma forma, Francisco tem recebido elogios, como nenhum outro Papa na história jamais foi elogiado pelos adversários da Igreja.

Em muitos aspectos, o atual Pontífice se encaixa na caricatura que os não-católicos têm do Papa: um autocrata cuja palavra deve ser obedecida. De fato, sua exigência para o cumprimento de suas diretrizes soa oca quando se considera a sua própria violação das leis litúrgicas da Igreja como arcebispo de Buenos Aires. Por exemplo, enquanto foi arcebispo, ele incluía mulheres na cerimônia de lavagem dos pés na Quinta-Feira Santa em clara violação às leis litúrgicas. Ele também admitia para os sacramentos, sem a devida modificação de vida, divorciados recasados em direta violação ao Direito Canônico, aos ensinamentos do Catecismo da Igreja Católica, à encíclica Veritatis Splendor do Papa São João Paulo II e aos documentos emitidos pelos dicastérios romanos.

Estamos vivendo em tempos de duplicidade. A exortação pós-sinodal Amoris Laetitia é, até à data, o maior escândalo deste pontificado, pois contém passagens-chave que são “intencionalmente ambíguas, comprovadas pelas múltiplas e contrastantes interpretações e aplicações práticas que imediatamente receberam”. Por exemplo, certos parágrafos do capítulo oito dão o sinal verde para a comunhão aos divorciados recasados. Embora isso seja bastante contrário ao claro e imemorial ensino e prática da Igreja, já estava sendo feito ilicitamente quando o Papa Francisco era arcebispo de Buenos Aires. Ainda mais preocupante é a descoberta de que passagens importantes de Amoris Laetitia foram formuladas há dez anos pelo então professor de teologia, Victor Manuel Fernandez, em artigos que deram uma crítica dissidente à encíclica Veritatis Splendor do Papa João Paulo II. O resultado é que os dois Sínodos sobre a Família pareceram ser uma farsa projetada para produzir resultados pré-determinados.

De acordo com este mesmo Fernández, que é agora um arcebispo, o Papa Francisco planeja fazer mudanças permanentes na Igreja de uma forma que não possam ser desfeitas por futuros papas. Ele respondeu à pergunta de um repórter, dizendo que “o Papa vai devagar porque quer ter certeza de que as mudanças tenham um impacto profundo. O ritmo lento é necessário para garantir a eficácia das mudanças. Ele sabe que há aqueles na esperança de que o próximo Papa vire tudo de volta. Se você vai devagar, é mais difícil mudar as coisas de volta…. Você tem que perceber que ele tem em vista uma reforma que é irreversível”.

Para o católico informado, todas essas coisas são, naturalmente, extremamente perturbadoras. No entanto, devemos lembrar que não estamos lutando contra a carne e o sangue. A situação atual é desesperadora, mas também enfatiza o lamento de Paulo VI, em 29 de junho de 1972. Comemorando o nono aniversário de seu pontificado em São Pedro, Paulo refletiu a situação da Igreja naquela época, dizendo que ele tinha uma sensação de que “por alguma fissura a fumaça de Satanás entrou no templo de Deus. Há a dúvida, a incerteza, a problemática, a inquietação, a insatisfação, o  confronto. Não se confia mais na Igreja. e sim se confia no primeiro profeta profano que vem nos falar de algum jornal ou algum movimento social, para procurá-lo e perguntar se ele tem a fórmula da verdadeira vida. E não percebemos que em vez disso temos que ser nós mesmos mestres e professores. Entrou a dúvida em nossas consciências, e entrou pelas janelas que deveriam estar abertas à luz. A ciência existe para dar-nos verdades que não se separam de Deus, para fazer-nos buscá-la ainda mais e celebrá-la com maior intensidade; em vez disso, a ciência dá-nos críticas e dúvidas. Os cientistas são aqueles que mais pensativa e mais dolorosamente exercem suas mentes. Mas eles acabam nos ensinando: “Eu não sei, nós não sabemos, não podemos saber”. A escola torna-se palco de confusões e contradições, por vezes absurdas. Celebra-se o progresso para poder, em seguida, demoli-lo com as revoluções mais estranhas e mais radicais, para negar tudo o que conquistou, para voltar a ser primitivos após ter tanto exaltado os progressos do mundo moderno.

Também na Igreja reina este estado de incerteza. Acreditava-se que, depois do Concílio, viria um dia de sol para a história da Igreja. Em vez disso, veio um dia de nuvens, de tempestade, de escuridão, de busca, de incerteza. Pregamos o ecumenismo, e nos distanciamos sempre mais dos outros. Procuramos cavar abismos em vez de aterrá-los.

Como isso aconteceu? Respondendo à pergunta, o Papa disse que houve uma intervenção de um poder adverso. Seu nome é o diabo, este ser misterioso que a Carta de São Pedro também alude. Muitas vezes, além disso, no Evangelho, pelos lábios do próprio Cristo, a menção a este inimigo dos homens retorna. O Santo Padre observa: “Nós acreditamos em algo sobrenatural que veio ao mundo precisamente para perturbar, sufocar os frutos do Concílio Ecumênico e impedir a Igreja de entoar o hino da alegria de ter renovado em plenitude a Consciência de si mesma. Precisamente por esta razão, desejamos poder, …, exercer a função que Deus atribuiu a Pedro, fortalecer a Fé dos irmãos. Desejamos comunicar-vos este carisma de certeza que o Senhor dá àquele que o representa, embora indignamente nesta terra. “A fé nos dá a certeza, a segurança, quando se baseia na Palavra de Deus aceite e consentida com a nossa própria razão e com nosso próprio espírito humano. Quem crê com simplicidade, com humildade, sente que está no bom caminho, que tem um testemunho interior que o fortalece na difícil conquista da verdade.

Acrescentemos as revelações de Fátima a esta mistura. É bem sabido que Nossa Senhora apareceu em Fátima, Portugal, para três crianças em 1917 e que certos segredos lhes foram confiados. Um desses segredos exigia que o Papa, unido com os bispos consagrassem a Rússia ao Imaculado Coração de Maria. O Cardeal Carlo Caffarra anunciou recentemente que o Papa João Paulo II lhe pedira para iniciar um novo Instituto Pontifício para estudos sobre o casamento e a família. Em 1980, ele escreveu à Irmã Lúcia, a última visionária sobrevivente, simplesmente pedindo suas orações por esse empreendimento e ficou surpreso ao receber “uma carta muito longa com sua assinatura. . . . Nela encontramos escrito: “O combate final entre o Senhor e o reino de Satanás será sobre a família e sobre o matrimônio. Não tenha medo, acrescentava, porque qualquer um que trabalhar pela santidade do matrimônio e da família será sempre combatido e contrariado de todos os modos, porque este é o ponto decisivo”. E depois concluía: ‘mas Nossa Senhora já lhe esmagou a sua cabeça’”.

Esta garantia é encorajadora, porque quinze anos depois de a Irmã Lúcia ter escrito essa carta, o cardeal Luigi Ciappi (1909-1996), assessor teológico pessoal de cinco papas, fez uma revelação impressionante sobre aquela parte do segredo de Fátima que o Vaticano nunca divulgou (e que evidentemente é referenciada pela enigmática palavra “etc.” na parte publicada da mensagem de Nossa Senhora). Sua Eminência, uma das poucas pessoas que tinham visto o segredo completo, escreveu numa carta em 1995 ao Professor Baumgartner de Salzburgo: “No Terceiro Segredo está previsto, entre outras coisas, que a grande apostasia na Igreja começará no topo.”

Esta apostasia parece ter sido prevista pelo Papa São Pio X, quando em 1910 escreveu a Hierarquia francesa em uma carta intitulada Nosso Mandato Apostólico “… o grande movimento de apostasia sendo organizado em todos os países para o estabelecimento de um Uma Única Igreja Mundial, que não terá nem dogmas, nem hierarquia, nem disciplina para a mente, nem freio às paixões, e que, sob o pretexto de liberdade e de dignidade humana, traria de volta ao mundo (se tal Igreja pudesse vencer) o reino da astúcia legalizada e da força, e a opressão dos fracos e de todos os que trabalham e sofrem”.

Embora Nosso Senhor tenha prometido que as portas do Inferno não prevalecerão contra a Sua Igreja e que Ele a ajudaria diariamente até o fim dos tempos, Ele não fez nenhuma promessa, no entanto, de que ela não passaria por crises, dissensões, traições, escândalos e aparentes fracassos. Pelo contrário, as parábolas de Nosso Senhor sobre o Reino de Deus, que é Sua Igreja, afirmam claramente que o bem e o mal coexistirão em Seu seio até o fim dos tempos. Só então Deus enviará Seus anjos para purificar a terra do escândalo.

Esta vida terrena é um período de provação. Assim, alguns farão o mal e darão escândalo aos outros. “É impossível que não haja escândalos”, diz Nosso Senhor, “mas ai daquele por quem eles vêm!” São Paulo explica como esses escândalos ajudam a purificar nossa fé: “É necessário que entre vós haja partidos para que possam manifestar-se os que são realmente virtuosos”.

Em sua exposição sobre o Quinto Mandamento, o Catecismo da Igreja Católica define o escândalo como “a atitude ou comportamento que leva outrem a fazer o mal. O escandaloso transforma-se em tentador do seu próximo; atenta contra a virtude e a retidão, podendo arrastar o irmão para a morte espiritual. O escândalo constitui uma falta grave se, por ação ou omissão, levar deliberadamente outra pessoa a cometer uma falta grave.” CIC 2284.

Assim, o escândalo é essencialmente dar mal exemplo por palavra ou ação de modo que outra pessoa seja tentada a imitar o mau exemplo. O caso da dissimulação de Pedro em Antioquia por não comer com os gentios é um exemplo de escândalo. Consciente de que a posição de Pedro como a cabeça visível da Igreja daria a seu mau exemplo um valor autoritário, São Paulo resistiu-lhe publicamente. A gravidade do escândalo dado por aqueles em posições de autoridade é observada também pelo Catecismo onde se afirma que “o escândalo adquire uma gravidade particular por causa da autoridade daqueles que a causam ou a fraqueza dos escandalizados. Isso levou o Senhor a proferir esta maldição: ‘O escândalo reveste-se duma gravidade particular conforme a autoridade dos que o causam ou a fraqueza dos que dele são vítimas. Ele inspirou esta maldição a nosso Senhor: «Mas se alguém escandalizar um destes pequeninos que creem em Mim, seria preferível que lhe suspendessem do pescoço a mó de um moinho e o lançassem nas profundezas do mar» (Mt 18, 6) (59). O escândalo é grave quando é causado por aqueles que, por natureza ou em virtude da função que exercem, tem a obrigação de ensinar e de educar os outros. Jesus censura-o nos escribas e fariseus, comparando-os a lobos disfarçados de cordeiros'”. CIC 2285

Deve-se notar que aqueles que causam escândalos que levam outros ao pecado são culpados do equivalente espiritual de assassinato, enquanto aqueles que se submetem ao escândalo, ou seja, que permitem escândalos para destruir sua fé, são culpados de suicídio espiritual. É importante lembrar que o Concílio de Trento declarou que a Igreja não é nem uma “Igreja de Santos” nem uma “Igreja de Predestinados”, mas que Ela mantém dentro de Seu seio tanto o justo quanto o pecador.

O Catecismo também observa que “O escândalo pode ser provocado pela lei ou pelas instituições, pela moda ou pela opinião.” CIC 2286 Especificamente, continua: “É assim que se tornam culpados de escândalo os que estabelecem leis ou estruturas sociais conducentes à degradação dos costumes e à corrupção da vida religiosa, ou a «condições sociais que, voluntária ou involuntariamente, tornam difícil e praticamente impossível uma conduta cristã conforme aos mandamentos». O mesmo se diga dos chefes de empresa que tomam medidas incitando à fraude, dos professores que «exasperam» os seus alunos, ou daqueles que, manipulando a opinião pública, a desviam dos valores morais.”

Parece-me que encorajar os pecadores não arrependidos a ter acesso aos Sacramentos cairá sob essa censura. É difícil ver como o autor de Amoris Laetitia pode escapar ao seguinte desabono pronunciado pelo Catecismo: “Aquele que usa dos poderes de que dispõe, em condições que induzem a agir mal, torna-se culpado de escândalo e responsável pelo mal que, direta ou indiretamente, favorece. «É inevitável que haja escândalos, mas ai daquele que os causa» CIC 2287

Deus permite a tentação, mas Ele sempre provê a graça suficiente para resistir. São Paulo ensina: ” Deus é fiel: não permitirá que sejais tentados além das vossas forças, mas com a tentação ele vos dará os meios de suportá-la e sairdes dela”.

Explicando o episódio de Nosso Senhor adormecido no barco, São João Crisóstomo explica que a tempestade simboliza as futuras provações da Igreja, durante as quais os fiéis, os atletas de Cristo, serão fortificados.

A Igreja é a “Casa de Deus” cuja pedra angular é Cristo. É “a Cidade Santa, a Nova Jerusalém” trazida do Céu. No entanto, Deus permite tentações mesmo dentro deste lugar sagrado, como nossos primeiros pais foram testados no Paraíso Terrestre e Cristo no Templo. Desta forma, nosso amor é purgado de todos os apegos à consolação divina e às preocupações humanas.

O próprio Senhor previu escândalos

Santo Agostinho explica que sempre haverá alguns bispos que se assemelham ao Bom Pastor e outros que representam o mercenário. Ele escreveu a Felícia, uma virgem que se afligia pelos escândalos que então assolavam a Igreja:

Exorto-vos a não vos deixardes demasiado perturbados por escândalos, que de fato foram preditos precisamente para que, quando aconteçam, recordemos que foram preditos e não fiquemos desconcertados. Pois o próprio Senhor os anunciou no Evangelho. “Ai do mundo por causa dos escândalos, porque é preciso que venham os escândalos, mas, todavia, ai daquele homem por quem vem o escândalo” (Mt 18: 7). Assim, existem aqueles que exercem a função de pastores que podem cuidar das ovelhas de Cristo; e há aqueles que a exercem por uma questão de honras temporais e vantagens mundanas. Estes dois tipos de pastores, sempre morrendo e dando lugar a outros, serão perpetuados no seio da Igreja Católica até que o tempo termine e o Senhor venha para o julgamento.

Por que esta prova

Está claro que a viagem da Igreja pelos mares da história nem sempre foi calma ou tranquila. Apenas há cinquenta anos, as tempestades do Vaticano II sopravam tão violentamente que parecia que a Igreja iria abaixo. Depois de um breve período de calmaria, os ventos retomaram e agora parecem sobrevir com uma fúria ainda maior.

O Senhor permite este tempo de provação para que possamos confiar mais Nele, ainda que a prova também possa servir como punição por nossas infidelidades, como foi profetizado no século XV por São Nicolau de Flue “A Igreja será punida porque a maioria de seus membros, altos e baixos, tornar-se-ão muito perversos. A Igreja submergirá cada vez mais profundamente até que finalmente pareça ter sido extinta e a sucessão de Pedro e dos outros Apóstolos tenha expirado. Mas, depois disto, ela será vitoriosamente exaltada à vista de todos os que duvidam.”

A razão para nossa provação atual é relativamente sem importância. O que é importante, nestes tempos, é que enquanto a tempestade ruge e agita a Barca de Pedro e o Salvador dorme, devemos, com os Apóstolos, clamar: “Senhor, salva-nos porque perecemos!” Ao despertar, Jesus nos tranquilizará como Ele outrora o fez: “Por que temeis, homens de pouca fé?” Então Ele se levantará e, com uma voz imponente, ordenará que a tempestade cesse e que o mar se acalme.

Agora, como no passado, as várias tempestades, tempestades e furacões parecem ter um objetivo, ou seja, mudar a Igreja e, a resposta sempre tem sido “agarre-se ao que tem sido recebido dos Padres”, isto é, a Tradição. Este é certamente o conselho de São Paulo:

“Eu vos felicito, porque em tudo vos lembrais de mim, e guardais as minhas instruções, tais como eu vo-las transmiti”. (1Cor 11,2)

“Assim, pois, irmãos, ficai firmes e conservai os ensinamentos que de nós aprendestes, seja por palavras, seja por carta nossa”. (2Ts 2,15)

“Rogo-vos, irmãos, que desconfieis daqueles que causam divisões e escândalos, apartando-se da doutrina que recebestes. Evitai-os!” (Rm 16,17)

“Torno a lembrar-te a recomendação que te dei, quando parti para a Macedônia: devias permanecer em Éfeso para impedir que certas pessoas andassem a ensinar doutrinas extravagantes,” (1Tm 1,3)

A fé católica é sempre reconhecida por sua adesão ao que uma vez lhe foi entregue. Por isso, Santo Atanásio poderia dizer: “Mesmo que os católicos fiéis à Tradição fossem reduzidos a um punhado, são eles a Verdadeira Igreja de Jesus Cristo”. Do mesmo modo para São Pedro Canísio: “Melhor que somente uns poucos católicos permaneçam, desejando que assim o fossem, firmes e sinceros em sua religião, do que, sendo muitos, estar em conluio com os inimigos da Igreja e em conformidade com os inimigos abertos de nossa fé”, aos quais o Cardeal Joseph Ratzinger certa vez ecoou “Melhor uma Igreja menor, mas mais fiel”.

Sugestões sobre como sobreviver e permanecer católico nestes tempos

Uma grande culpa dos católicos é que temos uma visão muito exaltada do papado, um conhecimento pobre da história e uma compreensão muito deficiente da natureza humana. Por conseguinte, não só nos é difícil criticar as ações imprudentes de um Papa em exercício, mas, beiramos à papolatria. Embora a veneração do Sucessor de São Pedro seja louvável e até mesmo necessária, devemos sempre lembrar que ele é chamado, acima de tudo, para ser um protetor da Fé e, a qualquer desvio deste papel imediatamente deve fazer soar os sinos de alarme.

A infalibilidade papal está entre as mais mal compreendidas das doutrinas católicas. Corretamente entendida, o Papa é infalível, isto é, preservado do erro de ensino quando, e somente quando, certas condições específicas são atendidas. Estas condições são as em que o Papa deve (1) ter a intenção de ensinar (2) toda a Igreja (3) em virtude de sua autoridade suprema (4) em matéria de fé ou moral. No entanto, se uma ou mais dessas condições faltarem, seu ensino, embora digno de respeito por causa de seu ofício, não seria infalível. Se todas as condições forem satisfeitas, então, seu ato de ensino é chamado de “infalível” e o ensino que ele articula é denominado “irreformável”.

São Pedro teve cerca de 265 sucessores que podem ser classificados como bons, justos, maus, nefastos ou calamitosos. Considerando a natureza espiritual do papado, é importante lembrar que a qualidade de um papado não é julgada unicamente por seu impacto histórico, social ou político, mas, ao contrário, pelo fato de o Papa danificar ou não a Fé da Igreja, obscurecer aspectos da imagem de Deus ou não defender a verdadeira dignidade humana, que a Igreja tem a obrigação de defender, transmitir e aprofundar.

Uma breve revisão histórica mostraria que a Sé de Pedro foi ocupada por homens cujo reinado, sob os critérios acima, pode ser descrito como calamitosos. Exemplos desses papas incluem:

Papa Libério, que, no século IV, rendeu-se à forte pressão ariana. Ele aceitou uma posição ambígua em relação a esta heresia, que deixou Santo Atanásio e outros defensores do dogma trinitário em abandono. Ele é o primeiro Papa a não ser canonizado.

Papa Anastácio II, no século V, flertou com os defensores do Grande Cisma Acaciano.

Papa João XXII, no século XIV, ensinou que a visão de Deus pelos justos não ocorrerá antes do Juízo Final.

Os papas do “Grande Cisma Ocidental”, nos séculos XIV-XV excomungaram-se mutuamente.

Papa Leão X, no século XVI, trouxe descrédito ao papado não só pelo seu estilo de vida luxuoso, mas também pelo seu escandaloso tráfico de indulgências.

As ações e omissões desses papas resultaram, não apenas no obscurecimento de parte do tesouro da Fé por um período de tempo, mas também, na criação de enormes tensões internas dentro da Igreja.

A atual tensão, confusão e divisão na Igreja sugerem que estamos, mais uma vez, vivendo em tempos calamitosos. A história mostrou que, em circunstâncias semelhantes, os católicos permaneceram católicos imitando São Paulo, que combateu o bom combate, terminou a corrida e manteve a Fé. Devemos fazer o mesmo. Devemos, portanto,

1. Manter a calma e rezar. Nosso Senhor está no barco! Nada é resolvido pelo desânimo, raiva ou histeria. A batalha é do Senhor. A sobrevivência e a estabilidade da Igreja não dependem de nós, mas sim daquele que a estabeleceu para a nossa salvação. Em momentos de angústia, é necessário rezar, rezar e rezar, para que o Mestre desperte para acalmar a tempestade. É necessário que nós estejamos verdadeiramente convencidos de que a Igreja é apoiada por um Deus que a ama, e que não permitirá que ela seja destruída. Rezemos, portanto, para a reforma de nosso clero e hierarquia, para que os tempos calamitosos possam ser encurtados e acompanhados por um pontificado de paz e restauração. Muitos ramos secos serão perdidos durante a tempestade atual, mas aqueles que permanecem unidos a Cristo irão florescer novamente. Lembrem-se de rezar o Rosário! “Vigiai sempre, orando para que tenhais força para escapar de todas estas coisas que acontecerão, e para estar diante do Filho do homem” “Vigiai e orai para que não caiais em tentação”.

2. Estude e esteja informado. Devemos conhecer nossa fé!

a. Em primeiro lugar, devemos estar familiarizados com as Escrituras, conhecer os ensinamentos perenes da Igreja e compreender os princípios da teologia moral.

b. Em segundo lugar, devemos compreender e analisar corretamente a situação atual, ler histórias autorizadas da Igreja e do papado. Este conhecimento nos convencerá da “insubmersibilidade” da Barca de Pedro. A Igreja sofre com as fraquezas de seus membros, mas não pode submergir por causa deles. Ela tem sido afligida no passado e podemos esperar acontecer aflições no presente, bem como no futuro.

c. Em terceiro lugar, devemos ler a vida dos santos e tentar imitá-los. “Lembrai-vos de vossos guias que vos pregaram a palavra de Deus. Considerai como souberam encerrar a carreira. E imitai-lhes a Fé. Jesus Cristo é sempre o mesmo: ontem, hoje e por toda a eternidade. Não vos deixeis desviar pela diversidade de doutrinas estranhas.”

3. Compartilhe a Fé. Transmita a Fé ensinando-a e compartilhando-a dentro do círculo familiar, praticando e rezando juntos como uma família. Além disso,

a. Não ceda às advertências apocalípticas. A história tem registrado que os tempos turbulentos são muitas vezes considerados sinais do fim dos tempos. Devemos, no entanto, viver cada dia como nosso último dia, para que estejamos preparados para a morte. O fim dos tempos virá no tempo designado ao qual não sabemos nem o dia nem a hora. Deus providenciará as graças necessárias para esse dia.

b. Não fique em silêncio, nem desvie o olhar. O mal prospera quando os bons não fazem nada. Portanto, é importante falar, fazer perguntas e reclamar. Se o capitão do navio está doente, bêbado ou louco, é necessário salientar isso para que o curso do navio possa ser corrigido. São Paulo fez exatamente isso ao resistir a Pedro! O Papa não é um autocrata, um tirano ou o líder de uma seita, mas um servo do Evangelho e da Igreja. Ele é um servo livre e humano que, como tal, ocasionalmente pode tomar decisões ruins ou adotar atitudes censuráveis, que devem ser repreendidas.

c. Não siga as instruções que se desviam do tesouro da Igreja. Se um Papa pretende ensinar doutrinas ou tenta impor práticas que não correspondem ao ensinamento perene da Igreja, conforme sistematizado no Catecismo, ele não deve ser apoiado ou obedecido em sua intenção. Isto significa, por exemplo, que os padres e os bispos têm a obrigação de insistir na doutrina e na prática tradicionais, enraizadas no depósito da Fé, mesmo à custa de se exporem à punição. Os fiéis leigos devem também insistir em serem alimentados com a prática e a doutrina tradicionais. Sob nenhuma circunstância, nem mesmo por obediência cega ou medo de represálias, é aceitável contribuir para a propagação de heterodoxia ou heteropráxis.

4. Apoie outros católicos. Devemos apoiar uns aos outros e todos os verdadeiros e autênticos oradores católicos e organizações.

a. Não apoie nenhum cisma. Devemos lembrar que somos católicos e que temos um Papa, que nenhum poder terreno pode remover. Portanto, devemos permanecer na Barca de Pedro, onde Cristo dorme. Cada católico tem o dever de tentar minimizar, dentro da Igreja, todos os efeitos negativos de um mau pontificado, mas sem desmantelar a Igreja ou romper com a Igreja. Isto significa, por exemplo, se a recusa em adotar algum ensino ou prática defeituosa levaria a punição, não se deve, por isso, iniciar um novo cisma ou apoiar qualquer um dos já existentes. É necessário continuar sendo católico sob quaisquer circunstâncias.

b. Não generalize. Pontificados ruins muitas vezes resultam em homens errados alcançando posições de poder e influência na Igreja. Deve-se lembrar que haverá também homens bons. Portanto, medite cada cardeal, bispo e sacerdote de acordo com a sua fidelidade à Fé. Levantem objeções apenas em relação àqueles que se desviam da doutrina imemorial da Igreja, ou que adotam posições que possam comprometer a Fé. Este curso de ação foi sucintamente ensinado por Santo Tomás de Aquino, que disse: “Ao aceitar ou rejeitar as opiniões, o homem não deve ser influenciado pelo amor ou pelo ódio a quem profere as opiniões, mas apenas pela certeza da verdade”.

5. Martírio! Devemos nos preparar para o martírio. No Nobis quoque do Cânon Romano, rezamos: “Também a nós, pecadores, vossos servos, que esperamos na vossa infinita misericórdia, dignai-vos conceder um lugar na comunidade de vossos santos Apóstolos e Mártires: João, Estêvão, Matias, Barnabé… e com todos os vossos Santos. Unidos a eles pedimos, vos digneis receber-nos, não conforme nossos méritos mas segundo a vossa misericórdia. Por Cristo Nosso Senhor”.

O presente texto foi apresentado pelo Pe. Clovis na Catholic Truth Scotland conference em junho de 2016.

Publicado originalmente: LifeSiteNews – Francis: A pope for our times

Francisco: Um Papa para os nossos tempos

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