É um fato que o Vaticano II foi um Concílio Ecumênico convocado e promulgado por um Papa, mas é também um fato que foi apenas pastoral e, portanto, a passagem do fato da existência de um Concílio pastoral à sua infalibilidade e obrigatoriedade doutrinal não é válida, por não ter pretendido definir e obrigar a crer o que ensinou pastoralmente

cv2b

Uma analogia

SI SI NO NO – Adelante la Fe | Tradução Sensus fidei: Objetivamente os 16 decretos do Concílio Vaticano II estão em ruptura com a Tradição apostólica e com o Magistério constante e dogmaticamente infalível da Igreja[1], mas — nessa referida constatação de “ruptura objetiva com a Tradição apostólica”[2] — deve-se distinguir a responsabilidade daqueles que a acolheram de boa-fé pensando obedecer a Autoridade de quem os convocou, elaborou e promulgou. Também é necessário distinguir, quando se constata a nocividade objetiva do Novus Ordo Missae, a responsabilidade de quem o compôs, promulgou e impôs da de quem o apoia.

RELACIONADOS

As dores de parto da Igreja

O Vaticano II se recusou a ser infalível

As deficiências da nova Missa de Paulo VI foram destacadas no “Breve Exame Crítico do Novus Ordo Missae” com a “Carta de Apresentação” dos cardeais Antonio Bacci e Alfredo Ottaviani, na qual se encontram graves considerações sobre a não completa ortodoxia objetiva do novo rito (“afasta-se incrivelmente da doutrina Católica sobre o Sacrifício da Missa como foi definido pelo Concílio de Trento”) e se pede ao Papa para revogá-lo como “lei prejudicial”[3].

Há uma certa analogia entre a condenação à morte de Jesus, promulgada pelo Sinédrio e o Sumo Sacerdote do Antigo Testamento e apoiada pelos fiéis da Antiga Aliança, e a promulgação do Vaticano II e do Novus Ordo Missae por parte do Papa e a aceitação apoiada pelos fiéis da Nova Aliança. Santo Tomás de Aquino (S. Th, III, q 47, 5, 6, Id, II-II, q 2, 7, 8) ensina: os líderes claramente sabiam que Jesus era o Messias e queriam ignorar ou não admitir que era Deus (ignorância afetada que agrava a culpabilidade). O povo, que em sua maioria seguiu os líderes (enquanto apenas um “pequeno resto”, seguiu Cristo) teve uma ignorância não querida, mas vencível e, portanto, uma culpa menos grave do que os líderes, embora subjetivamente grave (subjetivamente, ou seja, no coração de cada homem em particular, onde apenas Deus entra). O povo, que tinha visto os milagres de Cristo, teve a atenuante de ter seguido o Sumo Sacerdote, o Sinédrio e os chefes; o seu pecado foi grave em si mesmo, mas diminuído em parte, não cancelado totalmente, por ignorância vencível (S. Th., ut supra).

É um fato, e “contra fato não há argumento” que o Concílio Vaticano II teve lugar real e objetivamente (quem o negasse estaria vivendo fora da realidade) e foi convocado e promulgado pelo Papa e nele participou todo o episcopado, que o reconheceu como Concílio da Igreja (embora somente “pastoral”, incluindo Dom Marcel Lefebvre e Dom Antonio de Castro Mayer. O Vaticano não foi um pesadelo, mas, infelizmente, uma triste realidade. Agora, a realidade deve ser tomada sempre em consideração, mesmo sendo desagradável. Não se pode fazer como o “avestruz” (físico/teológico), que, para não ver o perigo real que o ameaça (leão/Vaticano II), enterra a cabeça na terra e finge não vê-lo.

De acordo com Aristóteles e Santo Tomás de Aquino, a verdade é a “conformidade do intelecto com a realidade” (seja bela ou horrível) e a “deformação do pensamento com a realidade” é o erro. Portanto, aqueles que apoiam o Concílio Vaticano II, como o povo de Israel apoiou a sentença de morte de Jesus decretada pelos Sumos Sacerdotes do Antigo Testamento (cf. São Tomás de Aquino, S. Th., III, q. 47, a . 5, 6, Ibid, II.II, q 2, 7, 8) não podem ser equiparados com aqueles que foram expulsos da Igreja por quem detém o poder, pois ninguém que tenha autoridade (Papa e Bispos) os condenou nem separado Dela, nem podemos fazê-lo nós, que estamos privados da autoridade eclesiástica, que procede de Deus através do Papa. Assim, não se deve esquecer tampouco que a Missa Nova (chamada de Paulo VI), mesmo afastando-se “impressionantemente da teológica católica sobre o Sacrifício da Missa” (A. Ottaviani — A. Bacci), foi composta pelo Papa Paulo VI e não por Lutero, que deixou a Igreja oficialmente. Portanto, os sacerdotes e os fiéis, que estão obrigados pelas circunstâncias históricas a apoiar um Rito ambivalente (protestante e católico), são membros da Igreja Católica, não tendo sido declarados, autorizada e juridicamente, cismáticos ou hereges. Também não podem se lhes pode aplicar, sem as devidas distinções, o princípio da nocividade objetiva do novo Rito, que é formalmente imputável a quem o redigiu e o impôs com um abuso de autoridade a quem o sofre.

Quem os declara com “sua” sentença “jurídica” fora da Igreja, comporta-se como um cidadão privado que vê um criminoso matar uma mulher idosa e, improvisando ser um guarda, prende-o e depois, autonomeando-se juiz, condena-o à prisão e, portanto, fazendo-se passar por um guarda carcerário, encerra-o em sua casa. É evidente para qualquer pessoa dotada de sã razão que este cidadão deveria ser detido por ser socialmente perigoso.

Não me parece, então, teologicamente justo afirmar (“Com que autoridade?” H. Benson) que todos os que atendem ao novo Rito cometem formalmente um pecado mortal contra a Fé como o cometem aqueles que participam in sacris a um culto oficialmente acatólico e que, depois de seis meses de participação contínua, são suspeitos de heresia e, se não se corrigem, são declarados hereges por quem tem a autoridade na Igreja por mandato divino (o Papa e os Bispos com jurisdição).

Uma distinção importante: a Igreja “sujeito docente” e a doutrina da Igreja (matéria “ensinada”)

A descontinuidade entre Tradição apostólica e Concílio Vaticano II significa a não conformidade entre a doutrina (objeto ou matéria) ensinada pela Igreja nos primeiros vinte Concílios Ecumênico-dogmáticos e a do Concílio Vaticano II pastoral[4]. Pelo contrário no sujeito que ensina, isto é, a Igreja, há uma continuidade substancial: a Igreja que ensinou dogmaticamente e infalivelmente antes do Vaticano II é 1º) quanto à substância, o próprio sujeito “Igreja”, que foi fundada por Cristo sobre Pedro e seus sucessores, os Papas e não apenas sobre os Santos, como queriam os protestantes; 2º) quanto ao modo ou acidentalmente, falou “pastoralmente” não dogmaticamente e, portanto, não infalivelmente[5] durante o Vaticano II, pelo que pode separar-se da matéria ensinada pela Igreja constantemente e frequentemente de maneira infalível. O fato de que a matéria de ensino, ou seja, a doutrina pré Vaticano II e a do Vaticano II estejam em desacordo em muitos pontos não cria problemas à indefectibilidade do sujeito Igreja (Papa e Bispos como sucessores de Pedro e dos Apóstolos), já que o ensino “pastoral” do Vaticano II não é infalível, havendo este renunciado em querer definir e obrigar a crer[6]. Aqui estão, portanto, substancialmente um só e idêntico objeto (Igreja), que ensina de maneira diferente quanto ao modo: com Magistério dogmático infalível até Pio XII e com Magistério pastoral não infalível de João XXIII (exceto no caso do sacerdócio não admissível para as mulheres, definido e imposto como obrigatório para crer e, portanto, infalivelmente, por João Paulo II em 1986).

Se for negado que o sujeito Igreja é o mesmo antes e depois do Concílio, implícita e ao menos praticamente, nega-se o artigo de Fé “Credo unam, sanctam, catholicam et apostolicam Ecclesiam”, uma vez que o sujeito Igreja, que Cristo fundou sobre Pedro e seus sucessores (os Papas), deverá durar ininterruptamente até o fim do mundo substancialmente inalterada em sua estrutura (a causa: Deus; o fim: o Céu; os meios para alcançar o fim: a graça santificante por meio dos Sacramentos). Se a Igreja petrina houvesse terminado com o Vaticano II (1965) as “portas do inferno” teriam vencido, desautorizando a promessa de Jesus: “Eu estarei convosco todos os dias [incluindo aqueles que vão de 1962 a 1965] até o fim do mundo.” Pelo contrário, o fato de que a doutrina ou a matéria de ensino difere, já que no Vaticano II não se quis definir e obrigar a crer e, portanto, excluiu-se, consciente e voluntariamente, a assistência infalível do Espírito Santo, não afeta a apostolicidade e a indefectibilidade do sujeito Igreja, que, apesar do Vaticano II, continuará substancialmente inalterada em sua divina constituição (Papa e Bispos) por Pedro até o último Papa e até o Episcopado vivo no fim do mundo.

Igreja Católica “igreja conciliar” e anti-Igreja

Pode-se falar em sentido amplo, portanto, mas não estritamente teológico de sujeito “Igreja conciliar” (como fizeram os Cardeais Benelli, Koch e João Paulo II) em oposição ao sujeito Igreja católica romana tradicional, porque o objeto ou o ensinamento pastoral (Concílio Vaticano II) ou nem mesmo pastoral, mas puramente exortativo (cf. Francisco, Exortação apostólica Amoris Laetitia, 19 de março de 2016), estão em contradição com o objeto/matéria do ensino dogmático e constante do sujeito Igreja Católica desde São Pedro até Pio XII.

Neste sentido lato ou não estritamente teológico pode-se falar também de homens de uma “anti-igreja” que tentam minar modernistamente a Igreja Católica a partir de dentro (cf. São Pio X, Encíclica Pascendi, 8 de setembro de 1907). Este é o velho plano que a “Sinagoga de Satanás” (Ap II. 9) sempre teve em mente desde a fundação da Igreja de Cristo a partir do Apóstolo Judas, de quem “Jesus afirmou: Não vos escolhi eu todos os doze? Contudo, um de vós é um demônio!..”. (Jo VI,70). Mas, apesar de todos os esforços do inferno e de seus acólitos (desde Judas até os modernistas), “as portas do inferno não prevalecerão contra Ela.” A fé nos assegura que esta última tentativa de destruir a Igreja de Cristo (iniciada com o Concílio Vaticano II) também está fadada ao fracasso como todas as outras que a precederam e como a grande perseguição do Anticristo final, que concluirá a história da humanidade e da Igreja com a vitória final de Cristo[7]. “Deus salve a Igreja dos pecados dos homens de Igreja!” (Don Francesco Putti). É sempre necessário fazer essa distinção fundamental entre Igreja e homens de Igreja.

Os princípios que devem ser mantidos firmes diante da “hermenêutica da continuidade”

É necessário distinguir muito bem os termos acima mencionados quando se fala de “hermenêutica da continuidade”, tanto para não negar o fato objetivo da descontinuidade de doutrina pré e pós Vaticano II[8], de modo a não negar o dogma da perene continuidade do sujeito Igreja e sua apostolicidade (que é uma das quatro Notas da verdadeira Igreja), ou seja, a série de Papas e Bispos, que desde Pedro e os Apóstolos se sucedem e se sucederão até a Parusia como uma cadeia nunca interrompida de anéis (a pura sucessão material sem comunhão com o sucessor de Pedro, como a dos cismáticos chamados “Ortodoxos”, não é suficiente para garantir a Apostolicidade).

É necessário ter muito cuidado e não confundir a continuidade do sujeito Igreja com a continuidade do objeto ou da doutrina ensinada pela Igreja, que, quando não é ensinada pelo Magistério infalível, pode ser, por definição, falível e, portanto, excepcionalmente estar em ruptura com a Tradição apostólica[9] assim como a doutrina do Vaticano II o é em muitos pontos com a da Tradição apostólica e do Magistério tradicional e dogmático (portanto infalível) da Igreja[10].

Certamente, a Igreja é “sujeito docente’, no entanto os homens de Igreja (a pedibus usque ad Capitem) não devem apropriar-se da Revelação divina, contida na Tradição apostólica e na Sagrada Escritura para interpretá-la subjetivistamente como lhes parece ou como lhes agrada, mas devem guardá-la, mantê-la substancialmente inalterada ou objetivamente (ainda aprofundá-la cada vez mais) e, em seguida, transmiti-la explicando seu significado genuíno homogeneamente, isto é, sem contradições (Vaticano I, Pastor aeternus, cap. IV).

A interpretação da Revelação está condicionada pela sua conservação e ordenada a sua transmissão. Com efeito, “o governo da Igreja é monárquico, mas, embora absoluto, a vontade do monarca está limitada pelo direito divino natural ou positivo. […] O poder de jurisdição do Papa não conhece na Terra outros limites do que aqueles que lhe são atribuídos pelo direito divino e pela constituição divina da Igreja” (F. Roberti limites — P. Palazzini, Dizionario di Teologia Morale, Roma, Studium, IV ed., 1968, vol. II, p. 1253 y 1255, voz Pontefice, Sommo). Mas Francisco ultrapassou (sobretudo in re morali) objetivamente os limites a ele impostos pelo direito divino e pela divina constituição da Igreja e, portanto, é não só lícito, mas obrigatório colocá-lo diante de suas responsabilidades e convidá-lo a retratar-se de seus erros. No entanto, não se pode pretender chegar à deposição depois da constatação de seus erros flagrantes.

O problema é que com o Concílio Vaticano II foram legitimadas “pastoralmente” algumas mudanças de doutrina com a desculpa da continuidade do sujeito Igreja, que deveria fazer passar a um segundo termo a mudança de objeto ou da doutrina ensinada (colegialidade episcopal, pan-ecumenismo, direito à liberdade das falsas religiões, relações Igreja / Judaísmo pós-bíblico, unicidade da Escritura como fonte de Revelação excluindo a Tradição, panteísmo antropológico …)[11]. Este é a escamotage de que se servem os neo-modernistas para acreditar a “hermenêutica da continuidade” da doutrina ensinada antes, durante e depois do Concílio Vaticano II.

A anomalia do Vaticano II

O Magistério Conciliar (Vaticano II incluído) é em si solene ou extraordinário e universal, tratando-se de todos (moral e não matematicamente) os Bispos (2500 no Vaticano II) reunidos em Concílio sob o Papa de maneira não habitual, mas excepcional: “No que diz respeito ao Vaticano II, seria absurdo negar-lhe o caráter de Magistério Conciliar, portanto, Solene, não Ordinário, porque, nesse caso se negaria, o [fato ou a existência do] próprio Concílio. […] Se uma coisa é, não pode não ser.” É um fato que o Papa convocou todos os Bispos do mundo para o Concílio Vaticano II, que existiu (quem pode negá-lo? Só uma pessoa que viva fora da realidade), desenvolveu-se e concluiu-se sob a direção do Papa e não foi impugnado por nenhum Bispo residencial ou com jurisdição (nem mesmo por mons. Marcel Lefebvre, nem mons. Antonio de Castro Mayer) ou por qualquer outro Cardeal. Portanto, canonicamente é um Concílio Ecumênico é legitimamente convocado e promulgado. Mas aqui está a anomalia: este XXI Concílio Ecumênico quis ser, pela primeira vez na história (depois de vinte Concílios Ecumênicos) exclusivamente “pastoral”, ou seja, quis que se limitasse a aplicar aos casos práticos a doutrina da Igreja sem definir nem obrigar a crer nenhuma verdade de Fé ou de Moral. Portanto, o XXI Concílio Ecumênico Vaticano II é, sim, Magistério Solene Universal ou Conciliar, mas é Magistério não dogmático e não infalível, exceto nos pontos onde voltou a propor a doutrina constante e universalmente professada por toda a Igreja (“quod semper, ubique et ab ominbus creditum est“) ou quando retomou dogmas já definidos. Em suma, a legitimidade do Vaticano II como Concílio Ecumênico (em sua convocação, existência e promulgação) é diferente da ortodoxia de sua doutrina, assim como a validade e legitimidade da eleição canônica de Paulo VI — Francisco I (sujeito Papa existente em ato), não se identifica com sua ortodoxia doutrinal (objeto ou matéria ensinada por eles).

Mons. Gherardini escreve que o Vaticano II é realmente Magistério Conciliar e por isso Solene, mas não é infalível, porque não quis ser dogmático, “tem [juridicamente] os papéis em regra que o fazem um autêntico Concílio e exigem que seja reconhecido como tal. […]. A autenticidade conciliar lhe advém da canonicidade de sua convocação, de sua celebração e de sua promulgação. […]. O que não declara por si a dogmaticidade de suas afirmações […] tratando-se de um Concílio que, desde a sua convocação […] formalmente excluiu de seu próprio horizonte a intenção de definir”[12]. O fato de que o Concílio Vaticano II quanto ao modo de ensinar seja Magistério solene ou extraordinário não significa que ipso facto seja dogmático quanto à doutrina ensinada ou que tenha procurado definir e obrigar a crer, gozando da assistência infalível de Deus. É um fato que o Vaticano II foi um Concílio Ecumênico convocado e promulgado por um Papa, mas é também um fato que foi apenas pastoral e, portanto, a passagem do fato da existência de um Concílio pastoral à sua infalibilidade e obrigatoriedade doutrinal não é válida, por não ter pretendido definir e obrigar a crer o que ensinou pastoralmente.

Sedevacantismo e Sede vacante

Afirmar que o Concílio Ecumênico Vaticano II não é Magistério significa negar implicitamente que João XXIII, Paulo VI e os Bispos de todo o mundo (incluindo mons. Antonio de Castro Mayer e mons. Marcel Lefebvre) reunidos em Concílio cum Petro et sub Petro, além de Papas e Bispos pós-conciliares, sejam Papas e Bispos; em suma, isso significa decretar o fim da Igreja, que, por instituição divina, deve ter um Papa e o Episcopado até o fim do mundo, mas isto significa negar as promessas feitas por Cristo à sua Igreja. Isto é “sedevacantismo” e não o estado de “Sede vacante”[13], em que “o Colégio cardinalício [depois da morte de um Papa e à espera da eleição do novo] governa a Igreja colegialmente em seus assuntos ordinários” (F. Roberti -… P. Palazzini, Dizionario di Teologia moral, Roma, Studium, IV ed, 1968, vol II, p 1256, voz Pontefice, Sommo), sob a presidência honorária e não jurisdicional do Cardeal Camerlengo, que é um “primus inter pares”.

A prova decisiva da infalibilidade

O Concílio (e, portanto, também o Vaticano II) é Magistério extraordinário “quanto ao modo”, no sentido de que o Concílio não está habitualmente ou permanentemente reunido, mas reunido extraordinária ou solene e excepcionalmente; no entanto “quanto à substância” seu ensinamento é infalível somente se define uma verdade de Fé para ser acreditada obrigatoriamente. Portanto, tanto o Magistério ordinário como o extraordinário é infalível somente se tem essa “vontade de definir e obrigar- a crer”.

O teólogo alemão Albert Lang explica muito bem que “não existe nem sequer importância essencial no fato de que os Bispos exerçam o seu magistério de maneira ordinária e universal” [isto é, dispersos por todo o mundo e cada um em sua Diocese], ou exerçam o seu magistério ‘de maneira solene’ [extraordinário] […] em um Concílio Ecumênico convocado pelo Papa. Em ambos os casos, eles são infalíveis apenas se, de acordo entre eles e com o Papa (primeira condição), anunciam uma doutrina de maneira definitiva e obrigatória (segunda condição) “(Compendio di Apologetica, tr. it. Torino, Marietti, 1960, p. 461). Em suma, para exercer a infalibilidade, é essencial obrigar os fiéis a crer como divinamente revelado o que é definido tanto ‘de maneira ordinária’ como de ‘maneira solene ou extraordinária’ (o modo é elemento acidental da infalibilidade). A forma externa solene ou extraordinária ‘quanto ao modo’ de pronunciar-se não é por si só indicador de infalibilidade; o essencial é impor ‘quanto à substância’ de ‘maneira ordinária ou extraordinária’, a doutrina anunciada definitiva e obrigatoriamente para a salvação. De maneira que, nem tudo o que é Magistério Extraordinário, quanto à forma externa ‘não comum’ ou ‘não ordinária’ de pronunciar-se com fórmulas solenes, é infalível.

Conclusão

A gravidade da situação atual é tal que, humanamente, resulta insolúvel, porque nenhum ser humano pode juridicamente condenar e depor o Papa. No entanto, a Igreja é sobrenatural quanto à origem, o fim e os meios (exceto os membros humanos que a compõem) e, portanto, é necessário manter viva a Fé na divindade da Igreja e em seu triunfo a ligno (como Jesus, de quem a Igreja é a continuação da história até o fim do mundo). É compreensível que, diante do escândalo público dado pelos Papas “conciliares”, os católicos se sintam abalados, indignados e também perdidos, mas não é necessário transpassar o limite consentido pela sã teologia e o bom senso: In certis unitas, in dubiis libertas, in omnibus caritas[14]. No entanto, dada a situação extremamente grave e confusa em que nos encontramos (“ferido o pastor o rebanho se dispersa”), é necessário ter muita compreensão para com aqueles que — de boa fé —, para defender a Fé católica da agressão modernista “pecam”, ou por excesso (sedevacantismo[15]) ou por defeito (obediência indevida).

“Sem fé é impossível agradar a Deus” (São Paulo), mas “a Fé sem boas obras é morta” (São Tiago). Tentemos manter a Fé que a Igreja ensinou dogmaticamente ou de maneira constante quanto ao tempo (quod semper) e universal quanto ao espaço (quod ubique) e quanto aos membros principais e secundários (et ab omnibus), sem esquecer que a Fé deve ser vivificada pela Caridade sobrenatural, que não é sentimentalismo afetado e verbal, mas que é a efetiva observância do Decálogo.

Robertus

[Traduzido ao espanhol para Adelante la Fe por Marinus el Eremita]

Publicado originalmente: SÍ SÍ NO NO | Adelante la Fe – ¿Existe una “Iglesia Conciliar” sustancialmente distinta de la “Iglesia Católica”?

Notas

[1] Monsenhor Mario Oliveri, ex-Bispo titular da Diocese de Albenga, escreveu em Studi Cattolici em junho de 2009 um artigo sobre “La riscoperta di Romano Amerio”, no qual afirma que não é só o espírito ou a interpretação dada por alguns teólogos Conselho super-progressistas do Concílio os que contêm equívoco, mas é a própria letra do Concílio, que está objetivamente em contradição com os Concílios dogmáticas da Igreja.

[2] Cf. Brunero Gherardini, Concilio Ecumenico Vaticano II. Un discorso da fare, Frigento, Casa Mariana Editrice, 2009; Id., Tradidi quod accepi. La Tradizione, vita e giovinezza della Chiesa, Frigento, Casa Mariana Editrice, 2010; Id., Concilio Vaticano II. Il discorso mancato, Torino, Lindau, 2011; Id., Quaecumque dixero vobis. Parola di Dio e Tradizione a confronto con la storia e la teologia, Torino, Lindau, 2011.

O autor desses livros argumenta que a “continuidade” entre a Tradição apostólica e a teologia pastoral do Concílio Vaticano II é “afirmada, mas não comprovada”. Em primeiro lugar, as palavras não são a realidade e ademais não correspondem a ela. Existe nisso, portanto, uma diferença entre dizer e fazer. No entanto, a definição de verdade é a “conformidade do pensamento com a realidade”, enquanto que o erro é definido como “não conformidade do pensamento e das palavras que o expressam com os fatos”. Portanto, a teoria da hermenêutica da continuidade — objetivamente — é um erro ou uma falsidade.

[3] Cfr. A. X. Da Silveira, La nouvelle Messe de Paul VI. Qu’en penser?, Chiré-en-Montreuil, DPF, 1975.

[4] A “teologia pastoral” consiste em aplicar os princípios dogmáticos aos casos concretos (card. A. Ottaviani). O Concílio Vaticano II não quis definir ou condenar infalivelmente nenhuma doutrina revelada, nem obrigar a acreditar nada. Somente procurou aplicar os princípios imutáveis da Igreja às vicissitudes da modernidade aceitando explicitamente a sua linguagem (e, implicitamente, o seu pensamento) subjetivista, que é próprio da modernidade. Portanto, a aplicação do dogma ao caso concreto se viu falseada pela linguagem e pelo pensamento da filosofia moderna, que vai desde Descartes († 1650) a Hegel († 1831). Os frutos da ‘pastoral prudencial’ do Vaticano II foram contaminados por aquilo que o padre jesuíta Guido Mattiusi chamava de “O veneno kantiano” (Monza, 1907), pelo qual resultam viciados pelo subjetivismo que relativiza toda verdade, princípio e dogma. A prudência, que deve reger a correta aplicação do princípio doutrinário ao caso concreto e prático à luz da sã doutrina e do sentindo comum prático, tornou-se totalmente inexistente no ensinamento do Concílio Vaticano II, in voto “pastoral”, mas ‘a-pastoral’ de fato tanto por defeito de sã doutrina como por falta de sentido comum, o qual pede que, ao decidir praticamente o que se deve fazer, beba-se da Sabedoria filosófica e teológica perene, do Magistério tradicional, da Tradição apostólica e não das fontes contaminadas pela filosofia moderna. Por exemplo, o fato de não se ter pretendido alertar os fiéis dos perigos que, todavia, ameaçavam o mundo e a Igreja (o Comunismo soviético) pode ser descrito, no mínimo, como uma total falta de bom senso, de prudência, de sã doutrina e de prática pastoral.

[5] Cf. João XXIII, Alocução solene na abertura do Concílio, em 11 de outubro de 1962; Paulo VI, Homilia durante a IX Sessão do Concílio, em 07 de dezembro de 1965, repetida em 16 de janeiro de 1966.

[6] “O Concílio Vaticano II se impôs a não definir nenhum dogma, mas deliberadamente decidiu permanecer em um nível modesto, como um simples Concílio puramente pastoral.” (Card. J. Ratzinger, Discorso alla Conferenza Episcopale Cilena, Santiago del Cile, 13 de julho 1988, em “Il Sabato”, nº. 31, 30 de julho — 05 de agosto de 1988).

[7] Cf. A. Lémann, L’Anticristo, Proceno di Viterbo, EFFEDIEFFE, II ed., 2013; H. Delassus, Il Problema dell’ora presente, Proceno, idem, 2 vol.; II ed., 2014-2015; M. Pinay, Complotto contro la Chiesa, Proceno, idem, II ed., 2015.

[8] Para interpretar corretamente a teologia do Concílio Vaticano II é necessário, portanto, retornar à distinção clássica e escolástica entre o sujeito Igreja, que ensina, e o objeto ou a verdade ensinada, a qual, se o Magistério não quer definir e obrigar a crer, pode conter excepcionalmente o erro e estar em ruptura com a Tradição (“quod ubique, ab omnibus et semper creditum est), não esquecendo que a universalidade do Magistério não se refere apenas ao omnibus ab, isto é, ao Corpo que ensina (todos os Bispos mais o Papa), mas também a semper, isto é, por continuidade no tempo de ensino que, precisamente por ser constante, não pode ser errônea (cf. Pio IX, Tuas libenter, 1863).

[9] Cf. Arnaldo Xavier Vidigal Da Silveira, Qual è l’autorità dottrinale dei documenti pontifici e conciliari?, “Cristianità”, n. 9, 1975; Id., È lecita la resistenza a decisioni dell’Autorità ecclesiastica?, “Cristianità”, n. 10, 1975; Id., Può esservi l’errore nei documenti del Magisterio ecclesiastico?, “Cristianità”, n. 13, 1975.

[10] O fato (quia) certo é o acima exposto (descontinuidade de doutrina pré e pós-Vaticano II), enquanto que os princípios que devem permanecer firmes são: a) a indefectibilidade e a perenidade da Única Igreja fundada sobre Pedro ou os Papas, b) que a infalibilidade é exercida apenas quando o Magistério quer definir uma verdade como revelada e obrigar a crê-la para ir para o Céu ou sob pena de condenação. O como e o porquê (propter quid) tem sido possível o atual desastre ou “catástrofe” espiritual na Igreja é um mistério que só Deus conhece. Devemos continuar crendo e esperado que de todo mal permitido Deus retira um bem maior. Também o Poeta nos convida a não querer conhecer os caminhos inescrutáveis de Deus e suas causas (propter quid). Portanto, devemos nos contentar em conhecer o fato (quia), sem a pretensão de saber o porquê de cada coisa: “Fátuo é quem julga à humana faculdade Franco o infindo caminho sempiterno, Por onde segue o Ente Uno em Trindade. Homem, vos baste o ‘quia’; se ao superno Saber alevantar-vos fosse dado, Da Virgem ao seio não baixara o Eterno.” (Dante, Purgatório, III, 36-37). Se pudéssemos conhecer todas as coisas (quia et propter quid) teríamos ainda a ciência infusa perdida por Adão e a Redenção não teria sido necessária. Cf. também Santo Tomás de Aquino, S. c. Gent. , I, 3.

[11] Cfr. “Divinitas”, n. 2/2011, p. 188 ss.

[12] Cfr. “Divinitas”, n. 2/2011, p. 188 ss.

[13] A diferença entre períodos de ‘sede vacante’, ou interregno entre um Papa e outro, e o “sedevacantismo”, que afirma a falta (total ou meramente formal/atual) de um Papa e de um Corpo de Bispos com jurisdição e considera os Cardeais capazes apenas de participar nas eleições, mas impossibilitados para governar por se encontrarem privados de autoridade, é abismal. Com efeito, no primeiro caso, os Cardeais mantêm viva a Igreja já que agem colegialmente pro tempore, aguardando o novo Papa como autoridade ou princípio de vida da mesma (são “vigários” vivos do “Vigário” morto governando colegialmente a Igreja em seus problemas ordinários). No segundo caso, pelo contrário, afirma-se que a autoridade desapareceu no Papa, nas Bispos e nos Cardeais, de maneira que a Sociedade espiritual hierárquica da Igreja romana estaria sem princípio formal de vida (= autoridade) e, portanto, estaria totalmente morta. Mas isto é contrário à Fé. Francisco I governa de fato, tem o título de Papa de jure, embora o exercício desse título é deficiente: governa mal, mas é Papa; quod non repugnat.

[14] O Papa Victor I, santo (189-199), queria, em um primeiro momento, impor a sua autoridade sobre a data da Páscoa. Com efeito, Roma e a Igreja latina a celebravam no domingo que seguia ao dia 14 do mês de Nissan. No entanto, a Igreja da Ásia Menor a celebrava em 14 de Nissan, embora não fosse domingo. Victor pediu-lhe para que se padronizasse com Roma, mas a Comunidade asiática endureceu e o Papa decidiu excomungar toda a Comunidade e seu Bispo Polycrates. Contudo, muitos Bispos latinos-manifestaram ao Papa sua perplexidade ante sua medida, que teria provocado um cisma; foi decisiva a intervenção de Santo Irineu, Bispo de Lyon (130-202), que convenceu o Papa de usar a razão, de modo que Victor não levou adiante o seu propósito de excomunhão. Como se vê, em uma questão muito importante (a Igreja do Oriente e do Ocidente celebram ainda hoje a Páscoa em duas datas diferentes) um Papa (por demais santo) deixou aos católicos orientais a possibilidade de celebrar a Páscoa não um domingo (dia em que Jesus ressuscitou), sem condená-los ou excomungá-los. Infelizmente, alguém, que se toma pelo “Pai Eterno”, excomunga e condena “a esquerda e a direita” a quem não partilha de suas mesmas opiniões. Étienne Gilson dizia que “Uma opinião teológica e uma escola teológica não podem pretender impor-se como verdade de Fé, ‘excomungando’ as outras opiniões e as outras escolas teológicas”.

[15] É necessário distinguir um sedevacantismo das almas simples, que confrontadas com as novidades, erros e heresias de Francisco I espontaneamente se perguntam: “Como pode este ser o verdadeiro Vigário de Cristo?”. Compreendo-os, embora não partilhe de sua opinião, mas lhes aconselho a evitar fazer de uma questão espinhosa, com um certo fundamento na realidade, uma tese que pretende ser a especificação de um ato de Fé, pelo qual quem se aparte dela não tem a Fé católica e todos os que não a seguem estão em um estado de heresia e cisma capital, seus sacramentos (confissão e matrimônio) são inválidos, e sua missa, porque citam no Canon o nome do atual Papa, é gravemente pecaminosa (sedevacantismo teológico e juridicamente auto-estruturado). Esta tendência é muito perigosa, porque corre o risco de resvalar para uma forma de sectarismo colocando, na prática, o seu próprio conventículo no lugar da Igreja de Cristo, sem haver sido enviados por Cristo através do Papa.

         

Postagens relacionadas

Existe uma “Igreja Conciliar” substancialmente distinta da “Igreja Católica”?

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Siga-nos
Receba nossas atualizações em seu e-mail
Junte-se aos amigos de Sensus fidei
Powered By WPFruits.com
WP-Backgrounds by InoPlugs Web Design and Juwelier Schönmann