“Não se pode viver em contradição com uma fé autêntica, faz-se todo o possível para conformar-se a ela. A Missa Tradicional é exemplar neste sentido, pelo rigor de seu conteúdo teológico e espiritual, para redescobri esta coerência de vida que tanto necessitamos”

MonsLaise

Paix Liturgique — UnaVoceSevilha | Tradução Sensus fidei: Em 1996, quando a conferência episcopal argentina decidiu aplicar o indulto que autoriza a comunhão na mão, Mons. Juan Rodolfo Laise, bispo de San Luis (Argentina), obteve de Roma a confirmação de que seguir distribuindo a comunhão na boca em sua diocese não rompia a comunhão episcopal. Vinte anos mais tarde, seus sucessores mantiveram esta santa prática e o bispo de Oruro, Bolívia, Mons. Biasilik, da Sociedade do Verbo Divino, acaba de aplicar um decreto similar em sua diocese.

Capuchinho e devoto de Padre Pio, Mons. Laise, que acaba de completar 90 anos, está hoje retirado em San Giovanni Rotondo, onde atua como confessor do santuário. O website Paix Liturgique teve a oportunidade de entrevista-lo em Roma, na apresentação do livro de D. Nicola Bux sobre os sacramentos, publicado por edições Cantagalli, editores também do livro de Mons. Laise, “Comunhão na mão, documentos e história”, cuja edição italiana acaba de sair.

A seguir a entrevista de Paix Liturgique com Mons. Laise:

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1- Excelência, que missa celebra todos os dias?

Mons. Laise: Atualmente? A missa de S. Pio V. todos os dias às 6 da manhã quando estou em San Giovanni Rotondo. É minha missa privada.

2 – Os fiéis podem assistir?

Mons. Laise: Infelizmente, entre os capuchinhos da comunidade que, no geral, já têm certa idade, não há abertura para a liturgia tradicional. No entanto, entre os sacerdotes jovens que estão de passagem, há alguns favoráveis. Seria bom que houvesse uma celebração pública para os peregrinos do santuário e estou certo de que os fiéis responderiam favoravelmente, mas os tempos não estão ainda maduros do ponto de vista das autoridades. De minha parte, pro bono pacis, celebro tendo cuidado em evitar qualquer tensão.

3 – Como viveu a proclamação do motu proprio Summorum Pontificum de Bento XVI?

Mons. Laise: Por certo, fui muito sensível ao Summorum Pontificum que restaurou e estimulou a celebração da liturgia tradicional. A missa tem séculos de história. Quando celebro na forma ordinária, retomo as orações da forma extraordinária, sobretudo no ofertório. E o canon romano, portanto. Creio que este é o sentido em que o papa Bento XVI olhava as duas formas de um mesmo rito…

4 – Nota alguma evolução da mens litúrgica dos sacerdotes?

Mons. Laise: É preciso fazer uma distinção segundo as gerações. Há uma atitude positiva nos sacerdotes jovens, atitude que surge quando tiveram contato com um sacerdote graças ao qual puderam descobrir o missal tradicional. Assim eles têm acesso a todo um conteúdo espiritual e teológico que ignoravam e que só pede para ser explorado e compartilhado. O conteúdo da missa tradicional é mais rico, mais preciso que o da missa moderna. A Santíssima Virgem, São Miguel Arcanjo e os santos apóstolos Pedro e Paulo estão em todas as orações da forma extraordinária enquanto desapareceram totalmente, ou quase, da forma ordinária. Quando eu celebrava com o missal novo, optava sempre pela primeira oração eucarística, o Canon romano.

5 – Que recordação conserva da missa que celebrou na basílica de São Pedro para a peregrinação do povo Summorum Pontificum?

Mons. Laise: Você sabe, quando um sacerdote celebra, e é uma das graças da forma extraordinária, ele está totalmente absorvido pelo mistério. Então, as recordações que tenho são as que me transmitem as pessoas que estavam presentes e que me agradecem porque estavam muito contentes com a bela cerimônia.

6 – Vossa Excelência foi ordenado na forma extraordinária e para ela?

Mons. Laise: Desde logo, em 1949! Celebrei 20 anos, inclusive em Roma, onde estudei na Gregoriana. Celebrei até a reforma de Bugnini, que traiu o pensamento dos padres conciliares. E talvez o de Paulo VI. Em todo caso, é o que me deixa pensar o exemplo da comunhão na mão, que Paulo VI não queria, como manifestou na instrução Memoriale Domini, mas que os bispos alemães e franceses impuseram.

7 – E sua ordenação episcopal?

Mons. Laise: Em 1971, portanto com o novo rito. Quando me tornei bispo de San Luis, a reforma já havia sido aplicada. E devo dizer que não havia problemas, porque, nessa época, na Argentina, respeitávamos as rubricas e celebrávamos com o espírito da liturgia anterior. Mas a situação pouco a pouco foi se degradando. Por isso a comunhão na mão chegou tardiamente no país, em 1996.

8 – Como vê a atual situação?

Mons. Laise: Vejo uma dificuldade que é a perda do latim. O latim não é ensinado nas escolas e muito menos nos seminários, por isso mesmo sacerdotes bem-intencionados e dispostos não chegam a fazer a própria forma extraordinária.

9 – Vê algum sinal positivo, apesar de tudo?

Mons. Laise: Os jovens. Eles têm respeito pela liturgia, apreciam-na e muitos se sentem atraídos pela forma extraordinária, mas precisam se formar. A missa São Pio V é um todo: litúrgico, espiritual, teológico e moral. É preciso redescobrir cada um destes aspectos. Claramente dá-se conta disso com o tema da comunhão: Santo Tomás de Aquino ensinou que Cristo está presente na mínima parte da hóstia consagrada, daí o respeito devido ao Corpo de Cristo real e substancialmente presente nas sagradas espécies, que condiciona a atitude de oração e adoração dos fiéis. De modo que a comunhão na mão é inimaginável na forma extraordinária. Quando se aceita uma verdade, quando se crê nela, vive-se em função desta convicção, há uma coerência entre a vida que levamos e nossa fé: não se pode viver em contradição com uma fé autêntica, faz-se todo o possível para conformar-se a ela. A Missa Tradicional é exemplar neste sentido, pelo rigor de seu conteúdo teológico e espiritual, para redescobrir esta coerência de vida que tanto necessitamos. É a coluna vertebral da liturgia como o Catecismo da Igreja Católica é o resumo de nossa Fé.

10 – Os partidário da reforma litúrgica tem justificado, em parte, devido aos abusos que existiam antes do concílio na celebração da liturgia tridentina; o senhor observou estes abusos durante seus primeiros anos de sacerdócio?

Mons. Laise: Sim, claro! Mas correspondia mais a abusos singulares e pessoais do que abusos generalizados. Lembro-me de que, muito jovem, eu devia ler os avisos paroquiais enquanto o sacerdote dizia as orações ao pé do altar. Isso me chocava. A missa requer uma grande concentração nas coisas de Deus, no mistério da Cruz, na Paixão e na Ressurreição de Nosso Senhor. O celebrante deve evitar as ocasiões de distração para ele e para os fiéis.

11 – Quando, pela primeira vez, uma tradução italiana de seu livro foi publicada em março, um bispo da Bolívia acabava de assinar um decreto para promover a comunhão na boca em sua diocese de Oruro: o que o senhor acha desta decisão?

Mons. Laise: Oxalá que todos os bispos que se dão conta da importância da comunhão na boca como reverência que merece o Santíssimo tivessem a mesma atitude que teve o bispo de Oruro! Esta é a única forma de manifestar sinceramente com a palavra e com os atos a fé na presença eucarística do Senhor. Lamentamos que não se faça na Igreja hoje como o manifestou o próprio Paulo VI na Memoriale Domini, que a comunhão deveria ser sempre recebida na boca. Assim o bispo de Oruro confirma as palavras do Papa Paulo VI e me alegra”.

AS REFLEXÕES DE PAIX LITURGIQUE

1 – “Não se pode viver em contradição com uma fé autêntica, faz-se todo o possível para conformar-se a ela. A Missa Tradicional é exemplar neste sentido, pelo rigor de seu conteúdo teológico e espiritual, para redescobri esta coerência de vida que tanto necessitamos”. Aqui se encontra a expressão do adágio lex orandi, lex credendi, aplicado por Mons. Laise à obrigação moral de viver liturgicamente em conformidade com a fé teologal.

2 – Mons. Juan Rodolfo Laise é muito conhecido por sua luta contra a comunhão na mão, pelos danos que causa na fé dos fiéis. Em 1996, de acordo com Roma, manteve a comunhão na boca em sua diocese de San Luis, não temendo distinguir-se assim da conferência episcopal. Mais tarde, publicou um livro sobre o abuso de poder que representa a generalização da comunhão na mão pelas conferências episcopais, sem ter em conta a consulta aos bispos do mundo inteiro realizada em finais de 1968. Dito livro, publicado em espanhol, inglês, polonês e francês, acaba de ser editado em italiano, enriquecido com um prefácio de Mons. Schneider e algumas reflexões de Mons. Laise sobre a comunhão espiritual.

3 – Mons. Laise não teme apresentar-se como um partidário da “reforma da reforma”, no verdadeiro sentido do termo. Ou seja, hoje em dia, celebra ordinariamente a Missa Tradicional, mas quando celebra a Missa nova, a enriquece, escolhendo dizer o canon romano como oração eucarística e acrescentando próprias da liturgia tradicional, em particular, as do ofertório. É sabido que o cardeal Sarah, Prefeito da Congregação para o Culto Divino, e o cardeal Burke, têm se mostrado favoráveis a uma autorização oficial para acrescentar na forma ordinária as orações da confissão (chamadas orações ao pé do altar) e as orações do ofertório. Sem esperar tal autorização, muitos sacerdotes e alguns bispos já praticam, motu próprio poderíamos dizer, esta retificação do rito novo.

4 – Conhecedor da realidade, Mons. Laise vê, no entanto, uma grande dificuldade para a extensão da forma extraordinária: a falta de conhecimento do latim, o que motivo que alguns sacerdotes bem-intencionados não consigam assimilar a forma extraordinária. O caráter obrigatório do estudo do latim, que deveria ser algo evidente em todas as casas de formação da Igreja “latina”, figura no canon 249 do Código de Direito Canônico, que pede que os seminaristas “saibam bem a língua latina”. Os redatores da Instrução Universæ Ecclesiæ — Instrução sobre a aplicação do Summorum Pontificum — eram conscientes disso, como prova o artigo 21 que trata sobre a forma extraordinária nos seminários: “Aos Ordinários se pede que ofereçam ao clero a possibilidade de obter uma preparação adequada às celebrações na forma extraordinária, o que também vale para os Seminários, onde se deve prover à formação conveniente dos futuros sacerdotes com o estudo do latim e oferecer, se as exigências pastorais o sugerirem, a oportunidade de aprender a forma extraordinária do Rito”.

Publicado originalmente: Paix Liturgique (Carta 69).

Transcrito do website Una Voce Sevilla

Mons. Laise: A Missa de São Pio V é um todo, litúrgico, espiritual, teológico e moral

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