“Ou bem aceitamos esta carta, obedecemos suas instruções e esperamos logo suas consequências, ou sinceramente a rejeitamos. Guardamos a carta em segredo, como relíquia histórica e, por decisão própria, deixamos de lado uma proteção especial. Mas que nenhum dos presentes duvide de que falamos do destino da fé da humanidade”
PJXXIII
— “Questo non é per i nostri tempi” (Isto não é para nossos tempos) — disse o Santo Padre, após ler o manuscrito de Irmã Lúcia, tirado de um envelope de uma caixa, semelhante em tamanho a um maço de cigarros, que estava em uma mesa ao seu lado

Pe. Malachi Martin (*) | Tradução Sensus fidei: Nunca houvera pendente uma questão mais promissora, nem mesmo o Papa já tratara de algo tão importante com seus colaboradores, como a questão da agenda papal naquela manhã de fevereiro de 1960. Desde sua eleição, ocorrida pouco mais de um ano, Sua Santidade João XXIII — a quem não tardou ser denominado como “João, o Papa Bom” — havia movimentado a Santa Sé, o governo pontifício e a maior parte do mundo diplomático e religioso exterior a uma nova órbita. Agora, parecia querer levar também o mundo.

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Aos seus setenta e sete anos, no momento de sua eleição, aquele indivíduo de aspecto campesino e bonachão fora eleito Papa interino, como dignitário inofensivo, cujo breve mandato serviria para ganhar tempo — quatro ou cinco anos, segundo suas previsões — até ser encontrado o sucessor adequado, que dirigiria a Igreja durante a Guerra Fria. Mas, poucos meses depois de sua nomeação e para espanto geral, inaugurou seu reinado com a surpreendente convocação de um Concílio Ecumênico. Na verdade, quase todos os funcionários vaticanos, incluindo os conselheiros chamados a participar daquela reunião confidencial — nas salas pontifícias do quarto piso do Palácio Apostólico — estavam extremamente atarefados com os preparativos para o Concílio.

Com sua franqueza característica, o Papa compartilhava suas opiniões com um punhado de homens escolhidos para tal fim: aproximadamente uma dezena de importantes Cardeais, e um número de bispos e clérigos da Secretaria de Estado. Estavam presentes dois experientes tradutores de português.

— Devemos tomar uma decisão. — Sua Santidade declarou em tom confidencial. — E é preferível não fazê-lo sozinho.

O problema, disse-lhes, dizia respeito a uma carta já famosa em todo o mundo, recebida por seu predecessor no Trono de Pedro. As circunstâncias da referida carta eram tão conhecidas, prosseguiu, que só precisavam de um esboço mínimo.

Fátima, em outra época, um dos povoados menos conhecidos de Portugal, havia saltado repentinamente à fama em 1917 como o lugar onde três jovens camponeses, duas meninas e um menino, haviam recebido seis visitas, ou visões, da Bem-aventurada Virgem Maria. Como a muitos milhões de Católicos, os presentes naquela sala sabiam que a Santíssima Virgem confidenciara três segredos às crianças de Fátima. Todos sabiam também que, como lhes predissera o ente celestial, duas das crianças haviam morrido na infância e somente a maior, Lúcia, sobrevivera. Era do conhecimento geral que Lúcia, então freira de clausura, revelara há muito tempo os dois primeiros segredos de Fátima. Mas segundo Lúcia, era vontade da Santíssima Virgem que fosse o Papa reinante em 1960 quem deveria dar a conhecer o terceiro segredo e que, simultaneamente, o mesmo Papa organizasse uma consagração mundial da “Rússia” à Virgem Maria. Esta consagração equivaleria a uma condenação pública global da União Soviética.

Se a consagração fosse feita, sempre segundo Lúcia, a Santíssima Virgem prometera que a “Rússia” se converteria e deixaria de ser uma ameaça. No entanto, se o Papa reinante em 1960 não atendesse seu pedido, a “Rússia espalharia seus erros por todas as nações”, causando muito sofrimento e destruição, e a fé da Igreja se corromperia a tal ponto que apenas em Portugal se conservaria intacto o “dogma da fé”.

Durante sua terceira aparição em Fátima, em julho de 1917, a Santíssima Virgem prometera selar o seu mandato com uma prova tangível de sua autenticidade como mensagem divina. No dia 13 de outubro daquele mesmo ano, exatamente ao meio-dia, haveria um milagre. De fato, naquela hora daquele dia, em presença de setenta e cinco mil pessoas, algumas procedentes de lugares muito distantes, inclusive jornalistas e fotógrafos, cientistas e céticos, além de numerosos clérigos perfeitamente confiáveis, todos testemunharam um milagre assombroso.

O sol violou todas as leis naturais imagináveis. Depois de interromper um persistente temporal, que deixou todos os presentes encharcados de água e transformar aquele remoto lugar em um verdadeiro atoleiro, o sol se pôs literalmente a bailar no céu. Lançou à terra um espetacular arco-íris. Desceu até que parecia inevitável que cairia sobre a multidão. Depois, com a mesma velocidade, regressou à sua posição normal e brilhou com sua habitual benevolência. Todos os presentes estavam atônitos. A roupa da multidão estava tão seca como se acabasse de sair da tinturaria. Ninguém sofreu qualquer dano. Todos viram o sol bailar, mas somente as crianças viram a Santíssima Virgem.[1]

— Creio que é evidente — disse o bom Papa João, antes de tirar um envelope de uma caixa, semelhante em tamanho a um maço de cigarros, que estava em uma mesa ao seu lado — a primeira coisa que devemos fazer esta manhã.

Uma onda de emoção envolveu seus conselheiros. O motivo de sua presença era, portanto, ler em privado a carta secreta de Lúcia. Não era nenhum exagero afirmar que dezenas de milhões de pessoas, em todo o mundo, esperavam que “o Papa reinante em 1960” revelasse as partes do terceiro segredo, tão bem guardado até então, e obedecesse ao pedido da Virgem. Com essa ideia em mente, Sua Santidade sublinhou o exato e literal significado do termo “privado”. Com certeza de que sua advertência sobre o terceiro segredo era clara, o Santo Padre entregou a carta de Fátima aos tradutores portugueses, que traduziram o texto secreto de viva voz ao italiano.

— Bem — disse o Papa, quando a leitura foi concluída, assinalando imediatamente a decisão que preferia não tomar sozinho — devemos ter em conta que desde agosto de 1959 temos mantido umas delicadas negociações com a União Soviética. Nossa aspiração é que, pelo menos, dois prelados da Igreja Ortodoxa participem de Nosso Concílio. O Papa João dizia frequentemente “Nosso Concílio” para se referir ao vindouro Concílio Vaticano II.

Que deveria fazer? — perguntou Sua Santidade aquela manhã. A providência o elegera como “Papa reinante em 1960”. No entanto, se obedecesse ao que a Irmã Lúcia descrevia claramente como mandato da Rainha dos Céus, se ele e seus bispos declarassem pública, oficial e universalmente que a Rússia estava atormentada por erros perniciosos, arruinaria sua iniciativa soviética. Mas, além de seu ardente desejo de que a Igreja Ortodoxa estivesse representada no Concílio, se o Sumo Pontífice fizesse valer sua plena autoridade papal e sua hierarquia para cumprir o mandato da Virgem, equivaleria a catalogar a União Soviética e Nikita Kruschev, seu ditador marxista vigente, como criminosos. Arrastados pela ira, os soviéticos não tomariam aquilo como represália? Não seria o Papa responsável por uma nova onda de perseguições e pela morte de milhões de pessoas em toda a União Soviética, seus satélites e países ocupados?

Para enfatizar o que o preocupava, ordenou Sua Santidade que se lesse novamente uma parte da carta de Fátima. Ele viu compreensão e, em alguns casos, alarme em todos os rostos ao seu redor. Se os presentes compreendiam, com tanta facilidade, a passagem chave do terceiro segredo, indagou, também os soviéticos não entenderiam com a mesma facilidade? Não extrairiam a mesma informação estratégica que lhes outorgaria uma vantagem indubitável sobre o mundo livre?

— Nós ainda podemos celebrar Nosso Concílio, mas…

Não foi necessário que Sua Santidade concluísse a frase. Agora tudo estava claro. A publicação do terceiro segredo teria repercussões em todo o mundo. Perturbaria gravemente os governos amistosos. Afastaria os soviéticos, por um lado, e daria suporte estratégico, por outro. O bom Papa devia tomar uma decisão geopolítica crucial.

Ninguém duvidava da boa fé da irmã Lúcia, mas vários conselheiros assinalaram que havia transcorrido quase vinte anos desde 1917, quando ela ouvira as palavras da Virgem, e o momento de escrever a carta, na metade dos anos trinta. Que garantia teria o Santo Padre de que o tempo não lhe houvesse ofuscado a memória? Que garantia existia de que três jovens camponeses analfabetos, nenhum dos quais havia completado naquela época os doze anos, teriam transmitido com precisão uma mensagem tão complexa? Não poderia ter entrado em jogo certa fantasia devocional infantil? Tropas da União Soviética entraram na Espanha para participar da guerra civil e lutavam a poucos quilômetros do lugar onde Lúcia escrevera sua carta. As palavras de Lúcia não teriam sido influenciadas pelo próprio medo dos soviéticos?

Uma voz discordante emergiu no consenso que se formava. Um Cardeal Jesuíta alemão, amigo e confessor predileto do Papa até o último momento, não poderia ter guardado silêncio diante tal degradação do papel da intervenção divina. Uma coisa era os ministros dos governos seculares abandonarem os aspectos práticos da fé, mas certamente era claramente inaceitável que o fizessem também os clérigos encarregados de assessorar o Santo Padre.

— A decisão que deve ser tomada aqui — ponderou o Jesuíta — à primeira vista é simples e clara. Ou bem aceitamos esta carta, obedecemos suas instruções e esperamos logo suas consequências, ou sinceramente a rejeitamos. Esquecemos o assunto. Guardamos a carta em segredo, como relíquia histórica, seguimos adiante como até agora e, por decisão própria, deixamos de lado uma proteção especial. Mas que nenhum dos presentes duvide de que falamos do destino da fé da humanidade.

Apesar da confiança que a experiência e a lealdade do Jesuíta inspiravam a Sua Santidade, a decisão foi desfavorável à Fátima.

Questo non é per i nostri tempi (Isto não é para nossos tempos) — disse o Santo Padre.

Poucos dias depois, o Cardeal leu em um dos periódicos o breve comunicado publicado pela sala de imprensa do Vaticano. Suas palavras ficariam para sempre gravadas em sua mente, como uma rude recusa à vontade do Céu.

Para o bem da Igreja e o bem-estar da humanidade, dizia o comunicado, a Santa Sé decidiu não publicar neste momento o texto do terceiro segredo. “… A decisão do Vaticano se apoia em várias razões. Primeira: a irmã Lúcia ainda vive. Segunda: o Vaticano conhece o conteúdo da carta. Terceira: apesar de que a Igreja reconhece as aparições de Fátima, não se compromete a garantir a veracidade das palavras que três pequenos pastores dizem ter ouvido de Nossa Senhora. Ante tais circunstâncias, é sumamente provável que o segredo de Fátima continue permanentemente selado.”

Ci vedremo (Já o veremos) — disse o Cardeal, depois de ler o comunicado.

Conhecia o procedimento. A Santa Sé intercambiaria umas palavras amistosas com Nikita Kruschev, e o Sumo Pontífice celebraria seu Concílio, ao qual assistiriam os prelados ortodoxos da União Soviética. Mas ficava por responder se Sua Santidade, o Vaticano e a Igreja padeceriam agora as consequências prometidas por Fátima.

Ou considerada em termos geopolíticos, a pergunta era se a Santa Sé havia se submetido à “nova Europa dos diplomáticos e dos políticos”, como previra Pio XII, o predecessor do bom Papa.

— Naquele momento — declarava o decrépito ancião — realmente começariam os infortúnios da Igreja.

— Logo veremos.

Daquele momento em diante, o Cardeal não tinha outra escolha senão aceitar os acontecimentos. De qualquer maneira, seria apenas uma questão de tempo.

[1]  Nota do Tradutor — Quando em 5 de maio de 1917, angustiado com os horrores da I Guerra Mundial, o então Papa Bento XV, conclamando toda a Igreja através dos Bispos de todo o mundo, e invocando a intercessão da Santíssima Virgem Maria, suplicando-lhe pela paz, certamente aquele Vigário de Cristo não fazia ideia de que seu pedido seria prontamente atendido, apenas oito dias depois. Valendo-se de seus direitos conferidos pelo Senhor (“apascenta minhas ovelhas” Jo 21, 15-17) em sua carta ao Secretário de Estado, Cardeal Gasparri, o Santo Padre rogou com veemência o auxílio do Céu por meio da Mãe de Deus. Seu ardor filial ficou expressamente documentado, conforme podemos constatar em trechos de sua comovente oração implorando “o final do conflito, o suicídio da Europa civilizada”:

“Rainha da Paz… Para tal fim [a paz no mundo], se eleve a Jesus mais frequente, humilde e confiante, especialmente no mês dedicado a Seu Santíssimo Coração, a oração da miserável família humana para suplicar-Lhe o fim deste terrível flagelo (…) por amoroso conselho de Sua Divina Providência, pelas mãos da Virgem SS., nós queremos que seja dirigido à Grande Mãe de Deus nessa hora horrível, mais que nunca o vivo e confiante pedido de seus filhos muito aflitos. Encarregamos portanto a Vós, Senhor Cardeal, de fazer conhecer a todos os bispos do mundo o nosso ardente desejo que se recorra ao Coração de Jesus, Trono de graças, por meio de Maria. Com esse propósito ordenamos que, desde o dia primeiro do próximo mês de junho, fique inserida na Ladainha de Loreto a invocação Regina pacis, ora pro nobis. (…) a piedosa e devota invocação e leve a Ela o angustioso grito das mães e esposas, o gemido dos meninos inocentes, o suspiro de todos os nobres corações; possa mover a Sua amável e muito benigna solicitude a obter para o mundo desvairado a aspirada paz, e possa lembrar depois aos séculos futuros a eficácia de Sua intercessão e a grandeza do benefício por Ela obtido a Seus filhos”. [Rope, Henry E.G., Benedict, the Pope of Peace, (London, 1941), pp. 104-105. Walsh, William Thomas, Our Lady of Fatima, (New York, 1947, 1954), p. 49.]

Verdadeiramente, no dia 13 de maio na Cova da Iria, em Fátima, oito dias depois da premente súplica do Vigário de Cristo, aparecia a Santíssima Virgem, Mãe do Verbo, trazendo as diretrizes do Alto em resposta ao pungente apelo daquele que, em conformidade com a determinação do próprio Cristo, configura na terra a Pedra de Sua Igreja. “Tudo o que ligares na Terra, será ligado no Céu” (Mt 16,19).

(*) Excerto do livro Windswept House, A Vatican Novel. pp. 3-7. Main Street Books. 1996.

Fátima — 1960

Uma ideia sobre “Fátima — 1960

  • 14 de maio de 2016 em 15:30
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    Como puderam fazer isso, diante de Deus??????????????????

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