Fazei-nos compreender a todos que comungar é amar-Vos; que comungar com frequência e bem dispostos é amar-Vos perfeitamente

Comm

Mons. de Ségur (*) | Tradução Sensus fidei: Imaginai, se podeis, toda a claridade, todos os amorosos afetos havidos e por haver em todos os corações que a onipotente mão de Deus formou e pode formar; imaginai-os unidos e como condensados em seu coração bastante capaz para abraça-los a todos; dizei-me, isto não formaria um foco de amor verdadeiramente incompreensível? Pois bem (e é de fé) isto não seria nada, por assim dizer, em comparação ao amor infinito em que arde o Filho eterno de Deus por nós, por cada um de nós, em seu Sagrado Coração, e por conseguinte, no Santíssimo Sacramento do altar.

Assim, pois, quando comungamos temos a dita de receber em nosso corpo e em nossa alma o divino Jesus com o tesouro infinito de seu Coração e de seu amor. Entra em nós todo abrasado, e o que quer senão abrasar-nos também com o fogo sagrado em que arde? “Eu vim lançar fogo à terra, e que tenho eu a desejar se ele já está aceso?”[1]

Para corresponder mais facilmente a este desejo do Coração de Jesus, entenda-se que o fogo de que fala, é um fogo que purifica, que ilumina, que santifica, que transforma, que deifica: o fogo de seu santo amor.

É um fogo que purifica. Quando temos a dita de comungar dignamente, as sagradas chamas do Coração de Jesus purificam nossa alma até de suas menores manchas. Como o ouro no crisol, nossa alma se derrete de amor no Coração de Jesus, e os mil vestígios imperceptíveis que alteravam a sua pureza são devoradas pelo fogo do divino amor. A Sagrada Comunhão foi instituída, diz o Concílio de Trento, “para preservar-nos dos pecados mortais, e para livrar-nos de nossas faltas cotidianas.”[2]Estas faltas veniais que se ocultam à humana fragilidade, longe de apartar-nos da Comunhão frequente, devem pelo contrário excitar-nos mais a ela, como a enfermidade nos faz desejar o médico e o remédio. A Sagrada Comunhão é o remédio direto que o Médico celestial nos oferece para purificarmos, para desembaraçar-nos de nossos pecados veniais; e neste Sacramento o fogo de amor é o que opera esta saudável purificação.

Em segundo lugar, o fogo do Coração eucarístico de Jesus ilumina. Na Eucaristia Jesus é como o sol, que dá luz ao mesmo tempo que aquece. A Comunhão é um fogo de amor que ilumina, que fortifica, que aumenta os esplendores da fé, que dissipa em nossa alma as ilusões e as trevas com que o inferno trata sem cessar de obscurecê-la, e que nos faz entrar cada mais na admirável luz de Jesus Cristo,[3] nas esplêndidas realidades da fé. Ao comungar, sobretudo, é quando devemos dizer com toda confiança a Jesus” “Senhor, aumentai nossa fé”.[4] E Ele nos abrirá com amor os tesouros de luz celestial de que é sol e foco seu divino Coração.

Em terceiro lugar, o fogo do amor de Deus santifica. Não sem fundamento o ato de receber o sacramento da Eucaristia, é chamado na Igreja “a Sagrada Comunhão, a Santíssima Comunhão”. Ela nos santifica, ou seja, desprende-nos da terra unindo-nos mais e mais ao Rei dos céus. Faz que viva e cresça em nós Jesus Cristo, o Santo dos Santos; e alimenta em nós todas as virtudes que constituem a santidade cristã. O amor de Jesus na Eucaristia é o verdadeiro alimento dos imperfeitos que desejam alcançar a perfeição, dos pecadores penitentes que resolvem emendar-se e ser fiéis sempre mais, dos débeis que querem fazer-se fortes. Oh, santíssimo Corpo! Oh, Santíssimo coração de meu Deus! Fazei que reporte de minhas Comunhões todos os frutos de santidade que vosso amor nelas depositou.

O fogo do Coração de Jesus na Santa Comunhão é também um fogo que transforma. Assim como o fogo material transforma o ouro, a prata, os metais mais duros, e de sólidos os volve em líquidos, de grosseiros e ásperos os converte em sutis, puros e brilhantes; assim também o fogo do santo amor de Jesus Cristo faz que nossas Comunhões operem sensivelmente em nós uma transformação maravilhosa, como que de mundanos nos fazem cristãos e espirituais; de negligentes, tíbios e dissipados que éramos antes de frequentar o sacramento do Amor, transforma-nos pouco a pouco em homens recolhidos, fervorosos, cheios de zelo; mudam nossos gostos e a direção de nossa vida, fazem-nos mansos e humildes de coração, castos, amantes de nossos irmãos até o sacrifício; em uma palavra, acabam por transformar-nos em outros tantos Cristos; e à força de alimentar-nos com a Bondade, a Pureza, a Santidade, que não são outra coisa que Jesus Cristo mesmo, fazem-nos chegar a ser bons, puros e santos de um modo sobrenatural.

Finalmente, o fogo do Sagrado Coração de Jesus que abrasa nossas almas quando recebemos Jesus Cristo na Comunhão, é um fogo que deifica. Sim, a graça e o amor de Deus chegam até o ponto de fazer-nos partícipes de sua natureza divina, como Ele mesmo o declara: Divinae consortes naturae.[5]E embora a graça já comece esta deificação no Batismo, deve compreender-se, no entanto, que sem a santa Comunhão não poderia desenvolver-se, nem ainda subsistir; como a vida que recebemos ao nascer poderia desenvolver-se nem subsistir sem o alimento que a nutre de contínuo.

“Sois deuses, sois todos filhos do Altíssimo”.[6] Disse-nos o Senhor: é surpreendente que deuses, que filhos de Deus se alimentem com a carne e o sangue do Unigênito de Deus, que reside real e verdadeiramente na Eucaristia sob as aparências de pão?

E todos estes prodígios, Salvador meu, não reconhecem outra causa que vosso adorável amor! Todos manam de uma fonte única, que é o vosso Sagrado Coração, presente e incendido em meio de vossa celeste humanidade, e contido juntamente com ela no grande Sacramento do altar.

Oh! Fazei que me abrase, que se abrasem também todos os vossos sacerdotes, todos os vossos fiéis, homens e mulheres, crianças e anciãos, ricos e pobres, todos sem exceção, em vivas ânsias de receber-Vos neste Sacramento de amor! Fazei-nos compreender a todos que comungar é amar-Vos; que comungar com frequência e bem dispostos é amar-Vos perfeitamente.

Gloria e amor ao Coração de Jesus no Santíssimo Sacramento do Altar!

Notas

[1] Ignem veni mittere in ferram, et quid volo nisi ut accendatur? (Luc. XII, 49.)

[2] Ut á peccatis mortalibus praeservemur, et à culpis quotidianis liberumur.

[3] De tenebris vos vocavit in admirabile lumen suum. (I, Petr. 11,9.)

[4] Domine, adauge nobis fidem. (Luc. XVIII, 5.)

[5] II. Petr. 1,4.

[6] Ego dixi: Dii estis, et filii Excelsi, (Psalm . LXXX, 6.)

(*) Monsenhor de Ségur. El Sagrado Corazon de Jesus. pp. 129-134. Casa Editorial de Manuel Galindo y Bezares. 1888.

Como o Coração de Jesus nos purifica, ilumina e nos deifica em seu santo Amor na Sagrada Comunhão

Uma ideia sobre “Como o Coração de Jesus nos purifica, ilumina e nos deifica em seu santo Amor na Sagrada Comunhão

  • 14 de maio de 2016 em 15:37
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    Senhor, eu peço por aqueles que não têm a graça de amá-Lo. Sopra, Senhor, em seus corações e acenda a fé inexistente.

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