Ilusão muito comum é querer intimidade com Jesus mas descurar a purificação interior

Da perfeita limpeza de coração depende tudo o mais na vida espiritual (Pintura de Sophie G. Anderson).
Da perfeita limpeza de coração depende tudo o mais na vida espiritual (Pintura de Sophie G. Anderson).

Pe. J. Arnold, S.J.: Neste dia da Festa do Sagrado Coração de Jesus, e para um maior adiantamento em nossa ascese espiritual e uma perfeita devoção ao Coração do Homem-Deus — e Ele próprio nos atrai como meta última de nossa existência — o primeiro passo é purificar o coração de toda a mancha de pecado. Em seguida, do amor do mundo perverso e, por fim, do amor desordenado de si mesmo.

Isto pode entender-se de três modos e praticar-se por outros tantos graus, conforme ensinam-nos Santos como Sto. Inácio, Sto. Tomás e Santa Teresa, que por sua vez, já trilharam esse caminho:

1-) purificar a alma de todo o pecado mortal e livrá-la do amor do mundo e do amor próprio desordenado, ao menos quanto basta para que prefira efetivamente a seu Deus, Criador e Salvador sobre todas as coisas, e por isso mesmo não queira por coisa alguma do mundo, ofender mortalmente a divina Majestade;

2) purificar o coração de todo o pecado venial deliberado, e livrá-lo do amor do mundo e do amor próprio desordenado a tal ponto, que nem por todo o criado, nem pela própria vida consintas em cometer deliberadamente um pecado venial;

3) purificar-te de todas as imperfeições que uma grande fidelidade à graça divina pode evitar, dispondo-te assim para aborrecer o mundo e odiar-te santamente a si mesmo.

Da perfeita limpeza do coração depende tudo o mais na vida espiritual

No entanto, diz São Bernardo que o podado recresce, o afugentado volta, o apagado reacende-se, o adormecido acorda de novo. E assim não basta podar uma vez, é preciso podar muitas vezes e até continuamente, se for possível; porque, se não fechas os olhos, sempre acharás alguma coisa que podar.

E aqui note-se bem, que a perfeita limpeza de coração é coisa de suma importância e da qual tudo o mais depende na vida espiritual.

Há tão poucos que encontram o caminho da virtude fácil e ameno? Tão poucos que atuem a progredir desembaraçada e constantemente? Tão poucos, enfim, que nesta vida gozem dos favores prometidos por Deus aos limpos de coração? A razão é, que poucos são os que chegam a purificar perfeitamente o seu interior.

É preciso provar a suavidade da virtude em levar a Cruz

Muitos trabalham muito e adiantam pouco; veem-se continuamente obrigados a recomeçar e mal chegam, se chegam, a provar a suavidade da virtude em levar a Cruz, pois não experimentam a sua unção. E ainda quando consigam salvar-se, contudo privam-se por toda a eternidade a si próprios de imensa felicidade e a Deus de grande glória, sendo que facilmente teriam merecido uma e outra, se tivessem começado por purificar o coração perfeitamente.

Por isso é que apenas haverá coisas que o demônio mais procure estorvar do que a total purificação da alma. Deixar-nos-á trabalhar em paz na aquisição das virtudes e mesmo da perfeição, contanto que descuremos a pureza da alma; porque sabe que deste modo cairemos em ilusões, nem adquiriremos nunca virtudes genuínas e sólidas, e muito menos a verdadeira perfeição.

Ilusão muito comum é querer intimidade com Jesus mas descurar a purificação interior

É esta uma ilusão muito comum, da qual se devem guardar com a máxima diligência as almas ainda não bem purificadas: querer imediatamente, apenas feita uma purificação superficial do coração, tratar a Jesus na vida interior com toda a familiaridade, recrear-se com Ele entre as flores das virtudes e saborear os seus frutos suavíssimos ou, o que é mais arriscado ainda, aspirar à união íntima com Jesus e a gozar das doçuras beatíficas do seu amor, sem tratar primeiro de purificar bem a sua alma.

Há outras ilusões a que estão sujeitas as almas no começo da vida espiritual, por exemplo: dar-se à mortificação exterior ato ao excesso; pretender alcançar com uma certa espécie de teimosia e como à força o alívio de uma Cruz que é molesta, ou o conseguimento de uma graça que se deseja; fomentar o temor até ao desânimo. Mas estas ilusões, embora perigosas, não são nem tão comuns, nem tão fatais, como a que leva a alma a descurar a purificação interior.

Concentrar todos os esforços na purificação interior

Portanto é neste ponto que a princípio deves concentrar todos os teus esforços e assim procura:

  1. Apreender bem o teu destino à verdadeira bem-aventurança, que é a eterna, e à luz dele conhecer o mais perfeitamente possível toda a fealdade e toda a malícia do pecado e sentir no mais íntimo da alma toda a deformidade que o pecado em ti produziu;
  2. Adquirir um conhecimento perfeitíssimo da vaidade e perversidade do mundo e compenetrar-te intimamente da sorte infelicíssima dos que se deixam arrastar pelo mundo à eterna perdição;
  3. Conhecer-te verdadeiramente a ti mesmo, qual te fizeste com tuas culpas, quão miserável és por natureza, para onde te levam tuas propensões.

Três gêneros de pensamentos e moções que impulsionam o homem

Há no homem três gêneros de pensamentos e moções; uns que nascem da sua livre vontade; outros que lhe vêm de fora sugeridos pelo espírito do mal, outros que lhe vêm igualmente de fora, sugeridos pelo bom espírito. Ora, das suas palavras, diz São Bernardo, poderemos reconhecê-los, e a mesma sugestão nos diz, qual é o espírito que fala. A este fim servem as seguintes regras, que nos dão os Santos para discernir os espíritos:

  1. Aos que com facilidade pecam mortalmente, costuma o mau espírito sugerir e propor falsos deleites da carne e prazeres sensuais, com que mais seguramente os prende e faz crescer em seus vícios e pecados. Mas o bom espírito há-se com eles de modo contrário, porque de contínuo punge e remorde suas consciências, para lhes fazer conhecer o infeliz estado de suas almas, inspirar-lhes horror ao pecado e convertê-los.
  2. O mau espírito com enganos e más artes procura levar os homens, ao amor desordenado e cobiça das riquezas e abundância de bens terrenos, para os fazer depois cair mais facilmente em pecado. Mas o bom espírito com as suas inspirações ensina a conservar o coração livre do amor desordenado e cobiça das coisas da terra, para que não se enrede nem embarace.
  3. O mau espírito instiga, solicita, insiste com o homem para que aspire à honra vã. O bom espírito propõe e inculca generosa humildade, glória verdadeira e segura.
  4. Aos que, reconhecendo a necessidade de trabalhar pela sua eterna salvação, começam a pensar seriamente em a assegurar costuma o mau espírito incutir vergonha e respeito humano para os impedir de continuarem no bem começado. O bom espírito anima-os e estimula-os a desprezar o respeito humano e a irem a diante valorosamente.
  5. Aos que trabalham sinceramente por se purificar de seus pecados e vícios, molesta-os o mau espírito com temores, escrúpulos, tristezas e quejandas perturbações, a fim de impedir o seu aproveitamento. O bom espírito costuma infundir alento e forças, iluminar a inteligência, causar consolação, dar paz e tranquilidade aos que vivem bem e se esforçam por adiantar, para que mais desembaraçada e alegremente progridam em boas obras.
  6. O mau espírito procura com todo o empenho que a alma, a quem quer enredar e perder, conserve ocultas as suas sugestões fraudulentas; opõe-se, quanto pode, a que suas maquinações se descubram ao diretor espiritual, porque sabe que assim lhe sairiam frustradas. O bom espírito gosta da luz e da ordem, porque só faz o bem e todas as suas obras são boas.
  7. O mau espírito faz como o general, que desejando expugnar uma praça forte, explora a sua situação e as forças que nela há, para a atacar pelo ponto mais fraco; assim também o mau espírito, rondando à volta de nós, trata de descobrir as nossas disposições e todas as nossas virtudes teologais e morais e onde nos vê mais falhos para lá dirige o assalto e procura vencer-nos.
  8. Costuma o tentador perder ânimo e forças sempre que nos vê repelir as suas tentações com fronte alta e coração impertérrito; mas se percebe no homem temor e desalento, não há fera tão feroz e tão pertinaz, como o inimigo, para levar a efeito os planos da sua diabólica malvadez.

Tendo em mente que nossa intimidade com o Sagrado Coração de Jesus implica a purificação do nosso coração, a limpeza interior, esforcemo-nos efetivamente por consolar este mesmo divino Coração, que nada poupou até se esgotar e se consumir para nos testemunhar o Seu infinito amor.

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Artigo condensado do livro Imitação do Sagrado Coração de Jesus, volume I, do Pe. J. Arnold, S.J. publicado pelo Serviço de Animação Eucarística Mariana e distribuído pela Distribuidora Loyola. www.livrarialoyola.com.br

         

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    Uma ideia sobre “Meditar no Sagrado Coração de Jesus leva-nos à purificação do coração

    • 10 de julho de 2016 em 21:05
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      Senhor, alimenta minha ama com a Sua graça.

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